Nos últimos 36 meses, o panorama mundial mudou de forma significativa. A guerra na Ucrânia, as tensões comerciais, a inflação e a crescente procura de eletricidade criaram um contexto de volatilidade sem precedentes, em que o acesso à energia voltou a ser visto como condição essencial de estabilidade económica e social. O setor da energia […]
Nos últimos 36 meses, o panorama mundial mudou de forma significativa. A guerra na Ucrânia, as tensões comerciais, a inflação e a crescente procura de eletricidade criaram um contexto de volatilidade sem precedentes, em que o acesso à energia voltou a ser visto como condição essencial de estabilidade económica e social.
O setor da energia entra numa nova era: mais segura, acessível e alinhada com as metas de descarbonização. Uma nova análise identifica sete tendências macroeconómicas para além de quatro implicações que exigem pragmatismo, investimento e cooperação entre governos e empresas.
Elaborado pela BCG, o relatório The Energy Transition’s Next Chapter, revela como o sistema energético global está a sofrer uma reconfiguração profunda, em consequência da relevância da segurança e da acessibilidade dos preços.
Sete mudanças macroeconómicas que estão a moldar a transição energética
A segurança energética assumiu um maior sentido de urgência; com os países a concentrarem os seus esforços no aumento da sua quota de energia proveniente de fontes renováveis, mas também na criação de cadeias de valor localizadas para tecnologias críticas de baixo carbono, nomeadamente através de proteções comerciais e políticas industriais.
A Europa foi a região onde o acesso à energia, especialmente para as famílias mais pobres, mais se deteriorou nos últimos 25 anos; e de forma mais acentuada nos anos mais recentes. A título de exemplo, na Alemanha ou França os utilizadores industriais e domésticos pagam cerca de 2,5 vezes mais por energia, em comparação com os utilizadores de regiões mais competitivas como os EUA, a China ou a Índia. Estes elevados preços da energia levaram a uma diminuição do apoio público aos consumidores para a transição energética, com o foco a evoluir da mitigação para a adaptação climática: a preferência por este tipo de políticas aumentou, entre 2020 e 2024, de 33% para 44% na Alemanha, de 34% para 43% em França e de 22% para 29% em Itália.
A procura de eletricidade entrou num superciclo estrutural, impulsionada pelos data centres; mas também pela crescente procura por soluções de refrigeração e eletrificação de transportes, edifícios e indústria. Só até 2030, o consumo deverá aumentar entre 350 e 450 TWh na China, 100 a 130 TWh nos EUA e 50 a 70 TWh na Europa.
A energia nuclear, uma opção sem emissões de carbono, está a passar por uma fase de renascimento; ao mesmo tempo que se estima que a capacidade de geração de gás natural aumente até cerca de 40%, o que reflete a necessidade de fontes firmes, essenciais para garantir estabilidade e capacidade de resposta.
O investimento global em infraestruturas de energia deverá crescer cerca de 50% até 2030; passando de 7 para 10 biliões de dólares, o equivalente a 1,5% do PIB mundial. O custo de construção de grandes redes elétricas é hoje até seis vezes superior ao último grande ciclo de investimento, tornando o custo de capital o principal fator económico do setor.
A procura de petróleo e gás tem sido superior à esperada; apoiada pelo crescimento de mercados emergentes e pela lentidão na substituição tecnológica.
Os custos tecnológicos divergem; desde 2010, o preço médio da energia solar caiu 86%, o da eólica onshore 49% e o das baterias LFP 88%, enquanto o hidrogénio verde e o armazenamento de longa duração continuam caros e em desenvolvimento desigual.
Ao analisarmos esta nova fase da transição energética, percebemos que o futuro exigirá equilíbrio, transparência e escolhas difíceis. Não basta ambicionar descarbonizar: é fundamental garantir soluções que sejam competitivas, seguras e sustentáveis a longo prazo. O desafio desta década será conciliar estes três pilares enquanto aceleramos a transformação
Jaime Ruiz-Cabrero, Managing Director & Senior Partner da BCG Lisboa
Tenha acesso ao relatório aqui.


