No país que transformou o empreendedorismo numa vitrina política e institucional, a inovação tornou-se um produto de comunicação em vez de uma força económica. Portugal construiu um teatro de inovação, mas falta-lhe o sistema operativo que o torne produtivo. Portugal apresenta-se como nação de startups e inovação, mas o retrato é de superfície. O país […]
No país que transformou o empreendedorismo numa vitrina política e institucional, a inovação tornou-se um produto de comunicação em vez de uma força económica.
Portugal construiu um teatro de inovação, mas falta-lhe o sistema operativo que o torne produtivo.
Portugal apresenta-se como nação de startups e inovação, mas o retrato é de superfície. O país criou um ecossistema rico em relatórios e conferências, mas os programas sucedem-se, as incubadoras multiplicam-se, e as startups aparecem e desaparecem. Entretanto, a base económica continua quase intocada.
Os números confirmam o desfasamento no relatório From Quantity to Quality: A Snapshot of Portugal’s Maturing Startup Scene, onde se contabilizam 4,719 startups ativas, num crescimento de 16%. Mais de dois terços foram criados nos últimos cinco anos, e a maioria permanece no mesmo ponto em que começou. As empresas não escalam, não exportam, não consolidam equipas, e são organismos frágeis, financiados para provar atividade.
Senão vejamos a nota da OCDE sobre Portugal que revela que as novas empresas crescem em média apenas 45%. É evidente que os incentivos iniciais são fortes, mas a transição para maturidade é fraca, porque a estrutura de apoio se concentra no lançamento. Não existe uma rede contínua que acompanhe o processo de crescimento.
Já o caso do investimento da Start Campus em Sines, avaliado em 8,5 mil milhões de euros, mostra outro lado do mesmo problema. O país atrai megaprojetos de infraestruturas tecnológicas, mas sem ligação direta à base produtiva nacional. A capacidade de transformar investimento em valor interno é inexistente. Logo o capital entra, constrói e sai.
Ou seja, por defeito, o sistema recompensa a presença mas esquece o desempenho. A política pública financia programas que geram relatórios. As universidades incubam projetos sem equipas. Os investidores alimentam mais narrativas porque os resultados reais exigem tempo e acompanhamento. O ecossistema é financiado para existir, apenas.
O país transformou o empreendedorismo num ritual. Cada ciclo termina antes de começar o seguinte.
A raiz do problema está na cultura institucional que recompensa o início e ignora a continuidade, porque em Portugal o prestígio profissional está no lançamento, não na gestão. As estruturas públicas privilegiam indicadores fáceis de reportar, e o sucesso individual mede-se também ele pelo número de startups criadas, não pelas empresas que resistem. Mais, regionalmente, o ecossistema está fragmentado. Cada cidade, cada agência e cada programa operam isoladamente. Falta integração, partilha de dados e coordenação de recursos, a uma arquitetura que transforme os vários esforços num só sistema produtivo. Mantemos, portanto, um país que exibe talento e reconhecimento, sem a engenharia que liga estes elementos. Mais que discurso, a execução seria disciplina. Seria acompanhamento permanente e responsabilidade institucional.
Parabéns. Portugal criou um ecossistema de movimento perpétuo sem direção. O país fala de futuro, mas vive preso à mera aparência de futuro. A inovação converteu-se em política simbólica e o resultado é um país que produz startups como se produz propaganda: em série, com brilho, mas sem profundidade.
A reconstrução começa quando o país decidir medir impacto acima de intenções. Quando a política deixar de premiar o press release e passar a premiar o resultado. E sobretudo, quando os nossos líderes reconhecerem que o progresso real existe fora dos relatórios. Mas a vontade política é pouca, e inovação portuguesa precisa de abandonar o palco e regressar ao trabalho.
