O novo 'Chief Economists’ Outlook' do Fórum Económico Mundial revela um mundo económico mais resiliente do que em 2025, mas ainda marcado por riscos estruturais, tensões geopolíticas e uma transição tecnológica que pode redefinir crescimento, produtividade e emprego.
Segundo o inquérito realizado entre novembro e dezembro de 2025, 53% dos economistas-chefes antecipam uma deterioração das condições económicas globais em 2026, enquanto apenas 19% esperam uma melhoria. Ainda assim, o sentimento é menos negativo do que no final de 2025, refletindo a resiliência demonstrada pela economia mundial face a choques sucessivos.
Os Estados Unidos surgem como um dos principais pontos de relativa força, impulsionados por um ciclo de investimento sem precedentes em IA e centros de dados, que já representa uma fatia crescente do PIB. A grande incógnita, sublinham os economistas, é saber se este investimento se traduzirá em ganhos sustentados de produtividade ou se apenas adiará um abrandamento mais profundo.
O relatório traça um cenário claro: a economia global não está à beira de uma crise iminente, mas enfrenta decisões críticas. A forma como governos e empresas gerirem a dívida, investirem em competências, regularem a IA e redistribuírem os ganhos de produtividade determinará se a próxima fase será marcada por prosperidade partilhada ou por desigualdade crescente.
Mercados financeiros e risco de bolhas
O relatório identifica avaliações de ativos inflacionadas como um dos principais riscos macroeconómicos. As grandes tecnológicas norte-americanas ligadas à IA concentram uma parte crescente da capitalização bolsista, enquanto o ouro registou a melhor performance anual desde 1979, refletindo a procura por ativos de refúgio num contexto de elevada incerteza geopolítica.
Apesar disso, os economistas dividem-se quanto à existência de uma bolha comparável à da Era Dot-com (período de forte euforia em torno da internet e das empresas tecnológicas, que decorreu entre meados da década de 1990 e o início dos anos 2000, culminando num colapso financeiro em 2000–2001). Sublinham ainda que, ao contrário desse período, muitas das empresas líderes em IA já apresentam níveis elevados de rentabilidade e investimento real.

Dívida pública: o elefante na sala
A dívida global atingiu máximos históricos, ultrapassando os 100 biliões de dólares, e deverá continuar a crescer nos próximos anos. O relatório indica que governos, sobretudo nas economias avançadas, tenderão a recorrer a inflação mais elevada, aumento de impostos e tarifas como formas indiretas de aliviar o peso da dívida.
Em paralelo, áreas como defesa, energia e infraestruturas digitais deverão absorver uma fatia crescente do investimento público, frequentemente à custa de despesas em educação, inovação e proteção ambiental – uma tendência que pode comprometer o crescimento de longo prazo.
Comércio internacional num mundo mais fragmentado
O comércio global mantém-se robusto, mas cada vez mais moldado por acordos regionais e bilaterais, num contexto de rivalidade estratégica entre os EUA e a China. Apesar de uma trégua tarifária parcial, as restrições tecnológicas e o controlo de recursos críticos continuam a redesenhar cadeias de valor e fluxos de investimento.
O investimento direto estrangeiro tende a favorecer os Estados Unidos, enquanto a China enfrenta expectativas mais moderadas, refletindo o impacto combinado de tensões geopolíticas e ajustamentos internos.
Inteligência artificial: oportunidade desigual e impacto no emprego
A IA é apontada como o principal vetor de transformação económica da próxima década. Cerca de 80% dos economistas esperam ganhos significativos de produtividade nos EUA e na China nos próximos dois anos, enquanto a Europa deverá sentir esses efeitos apenas a médio prazo, penalizada por desafios demográficos, regulatórios e de escala.
No mercado de trabalho, o consenso é cauteloso: 72% antecipam perdas de emprego modestas ou significativas nos próximos dois anos, sobretudo em funções administrativas e de entrada, embora reconheçam que a IA poderá criar novas profissões e setores no longo prazo.




