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Home Opinião Carta ao Presidente da República que sairá de Belém em 2036 

Opinião

Carta ao Presidente da República que sairá de Belém em 2036 

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29 Maio, 2026 | 5 minutos de leitura

A tecnologia acelera, as estruturas transformam-se, as carreiras alongam-se e é a Condição Humana que emerge como o verdadeiro centro da liderança. Para esta edição da Revista Líder lançamos um desafio ao nosso grupo de conselheiros: escrever uma Carta ao CEO do Futuro. Que conselhos deixariam aos líderes que hoje estão a formar-se? Que alertas fariam? Que valores defenderiam de forma inegociável? Que capacidades humanas serão críticas?

Senhor Presidente, 

Quando ler esta carta estará prestes a deixar Belém. Dez anos antes, quando tomou posse, Portugal encontrava-se num daqueles momentos raros da história em que um país sabe que precisa de mudar, mas ainda não sabe exatamente como. 

Não lhe escrevo para agradecer resultados concretos. Esses pertencem aos governos, parlamentos e ciclos políticos. Escrevo-lhe por algo mais raro na política portuguesa: ter usado o poder mais discreto e mais difícil que existe numa democracia, o poder de influenciar a direção moral de um país. Num sistema semipresidencial como o nosso, o Presidente não governa. A Constituição de 1976 atribuiu-lhe outra função, mais subtil e talvez mais exigente: a de árbitro institucional, o guardião do equilíbrio entre poderes e da estabilidade das regras do jogo democrático. 

Durante décadas confundimos essa função com prudência excessiva. Mas a história mostrou-nos que a verdadeira prudência não era evitar o conflito.  Era saber quando usar a autoridade do cargo para influenciar as reformas de que o país precisava. Durante muito tempo acreditámos que o papel de um Presidente era apenas garantir estabilidade. O seu mandato mostrou-nos que estabilidade e reforma não são opostos. São, na verdade, a mesma coisa. Não governou, mas levou o país a pensar e os governos a agir. Talvez por isso, quando em 2031 os portugueses voltaram às urnas, muitos tenham entendido que aquele trabalho ainda não estava terminado. A reeleição não foi apenas um gesto de confiança política. Foi também o reconhecimento de que as instituições, quando funcionam, merecem continuidade. 

E isso, numa democracia liberal, é talvez a forma mais sofisticada de liderança.Num tempo em que tantas democracias enfrentavam tentações populistas, escolheu fazer algo menos vistoso, mas mais difícil: reforçar a confiança nas instituições. Lembrou-nos que a liberdade política não depende apenas de eleições, mas da qualidade das regras que organizam o poder. 

E houve um domínio em que o senhor recusou ser apenas árbitro. Na educação e na inovação, o senhor foi deliberadamente incómodo. Usou cada discurso, cada visita, cada veto simbólico como uma alavanca para forçar as ações que os governos sucessivamente adiavam: as de que um país não cresce com mão-de-obra barata, mas com talento bem formado e bem retido. Disse em voz alta o que os ministros evitavam dizer em vésperas de eleições: que o sistema educativo português estava a formar para o passado, que a fuga de talento qualificado não era uma fatalidade, era uma escolha política, e que sem inovação como prioridade estratégica o crescimento económico seria sempre frágil e dependente. Incomodou e foi criticado por exceder o seu papel. Mas a Constituição não proíbe o incómodo, e o senhor sabia-o. 

Aos poucos, Portugal redescobriu algo que durante muito tempo pareceu esquecido: o liberalismo não é uma etiqueta ideológica. Não pertence à esquerda nem à direita. Pertence às democracias que acreditam em instituições fortes, responsabilidade política e liberdade individual. 

Talvez por isso a história venha a recordar o seu mandato como um curioso paradoxo político. Um Presidente que chegou a Belém vindo de um partido tradicionalmente associado ao Estado acabou por se afirmar como um dos mais consistentes defensores da liberdade institucional e das reformas que libertaram o potencial económico do país. A política tem destas ironias. 

E talvez seja essa a sua maior lição para quem liderará Portugal nas próximas décadas: a democracia não depende apenas de quem governa. Depende de quem tem coragem de lembrar aos governantes o que precisa de ser feito. 

Com estima,
Uma cidadã liberal 

 

Leia aqui todas as Cartas ao CEO do Futuro:

Elsa Carvalho: «o futuro não precisará tanto de líderes brilhantes quanto de líderes lúcidos»

Susana Coerver: «Uma organização pode crescer e, ao mesmo tempo, empobrecer as pessoas que a constroem»

Joana Garoupa: «Nunca foi preciso esconder o apelido para caber no mundo»

Ao CEO do Futuro peço: não confundas tecnologia com destino

Se quiser ser um CEO do Futuro, não se limite a gerir o presente

«Escolhi, acima de tudo, continuar radicalmente humano», a Carta ao CEO do Futuro de Filipe Seixas

Como líder, surfe a vida em vez de tentar controlar todas as ondas

Carta ao CEO do Futuro: a alquimia entre tecnologia e talento

A tecnologia só existe para ajudar e servir a Condição Humana – e não o inverso. 

Liderar será cada vez menos um exercício de protagonismo

Vânia Guerreiro,
Vânia Guerreiro, Head of Corporate Affairs & ESG da iServices

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