«Desde pequenos que nos perguntam: ‘O que queres ser quando fores grande?’ Crescemos a acreditar que o sucesso depende de ter um plano, de saber para onde vamos. Mas e se perguntássemos hoje: ‘Portugal, o que queres ser quando fores grande?’ O silêncio seria ensurdecedor.» O ritual sem destino Com dois terços parlamentares nas […]
«Desde pequenos que nos perguntam: ‘O que queres ser quando fores grande?’ Crescemos a acreditar que o sucesso depende de ter um plano, de saber para onde vamos. Mas e se perguntássemos hoje: ‘Portugal, o que queres ser quando fores grande?’ O silêncio seria ensurdecedor.»
O ritual sem destino
Com dois terços parlamentares nas mãos, a política portuguesa prepara-se para o ritual pós-eleitoral de sempre: anunciar ‘reformas estruturais’. Desta vez com revisão constitucional incluída. Os números permitem, proclamam. A vontade política transborda.
Mas quando falam em ‘reformas estruturais’, alguém consegue explicar o que isso significa? Estruturar o quê — a ineficiência? Reformar para onde — para um Portugal ‘melhor’? Melhor em quê, exatamente? São frases que soam importantes, mas nada dizem. Como prometer ‘mudança’ sem esclarecer se é para a frente ou para trás. Como jurar ‘transformação’ sem revelar se pretendemos ser borboleta ou apenas uma lagarta reformada.
Mais fundamental ainda: como é que estas reformas contribuem para definir o Portugal de 2030, 2040 ou 2050? Esta pergunta — aparentemente óbvia — parece nunca ter ocorrido a ninguém. Portugal continuará a existir, isso é certo. A questão é em que estado: eternamente ‘promissor’ mas nunca próspero? Ou finalmente à altura do seu potencial?
Façamos então a pergunta que ninguém ousa fazer — não aos políticos, mas ao país inteiro: Portugal, queres ser grande? Não em território ou idade (com quase 900 anos de história, já somos veteranos). Não em potencial desperdiçado (somos campeões mundiais nessa modalidade). Mas grande em prosperidade real, em ambição concretizada, em futuro construído?
Imagino a maioria a responder «sim, claro que queremos ser grandes!». Mas aqui reside o paradoxo fatal: queremos ser grandes pensando pequeno. «Somos o que pensamos» — esta verdade psicológica aplica-se tanto a pessoas como a países. Um país que pensa ‘vamos aguentar’, ‘vamos desenrascar’, ‘vamos sobreviver’ — e consegue exatamente isso. Viramos CEOs do nosso próprio declínio, especialistas em gerir mediocridade. Quando mudarmos o software mental, mudaremos o país.
Como escreveu Dipen Parmar: «A magia que procuras está no trabalho que evitas.» Para Portugal, essa magia — a verdadeira transformação — encontra-se precisamente no trabalho que evitamos há décadas: definir uma visão estratégica clara para o futuro. Preferimos a ginástica mental das reformas constantes à simplicidade brutal de decidir o que queremos ser. Mas países não se tornam grandes por acidente — tornam-se grandes por design.
Vejamos o que separa os países que conseguiram dos que falharam. A história oferece-nos um laboratório perfeito de sucessos e fracassos e revela um padrão inequívoco — e Portugal precisa urgentemente desta lição.
O caminho dos que ousaram sonhar
Singapura: do pântano ao pináculo
Singapura representa a transformação mais radical da história moderna: de ilha-pântano a potência mundial em 40 anos — menos tempo que Portugal leva a decidir onde construir um aeroporto.
Em 1965, Lee Kuan Yew herdou o impossível: 2 milhões de habitantes pobres, zero recursos naturais, acabados de ser expulsos da Malásia. Podia ter começado por reformas estruturais. Em vez disso, começou por um sonho aparentemente delirante: «Seremos o centro financeiro da Ásia.»
As reformas vieram depois, sempre subordinadas à visão: educação bilingue obrigatória (inglês para negócios, mandarim para o futuro), habitação pública para 80% da população (não foi caridade, foi estratégia para eliminar favelas e criar estabilidade que atraísse investidores), imigração estratégica — importaram cérebros como outros importam petróleo.
Resultado em 2024: PIB per capita é 4 vezes superior ao português. Singapura não construiu prosperidade expulsando talento: atraíram-no sistematicamente para criar vantagens competitivas.
Irlanda: do resgate ao topo da Europa
Portugal e Irlanda partilharam o mesmo destino em 2011: resgate da troika, humilhação internacional, futuro incerto. A semelhança termina aí.
A Irlanda não esperou pela crise para ter visão. Em 1987, com jovens a emigrar em massa (como os nossos hoje), Dublin decidiu o impossível: «Seremos o Silicon Valley da Europa.» E começou a construir esse futuro — IRC a 12,5%, agência dedicada a seduzir gigantes tecnológicas, universidades a produzir engenheiros de software porque era disso que o Silicon Valley precisaria, não de burocratas.
O contraste é brutal: hoje a Irlanda tem um PIB per capita quase quatro vezes superior ao português. Mesma troika, mesmas exigências, resultados opostos. Porquê? Simples — eles tinham destino antes e depois da crise. Da bancarrota a um dos países mais ricos da Europa em 15 anos.
O resultado mais doloroso? Jovens portugueses emigram agora para Dublin, para trabalhar exatamente nas empresas que a Irlanda atraiu enquanto nós reformávamos comissões. Formamos talentos para exportação; eles criaram razões para os importar.
Coreia do Sul: do escombro ao estrelato
Nos anos 60, a Coreia, devastada pela guerra, era mais pobre que Moçambique. Park Chung-hee prometeu o impensável: marcas coreanas dominariam o mundo. Focaram tudo nesse objetivo — educação obsessiva em engenharia, apoio massivo a empresas com uma condição: conquistar mercados globais ou morrer.
Resultado: só a Samsung vale hoje mais que toda a economia portuguesa. Enquanto discutimos reformas, eles construíram impérios.
Este artigo terá continuação na Parte II
