Este artigo é a continuação da Parte I: A armadilha das reformas sem rumo: Portugal entre a visão e a deriva (Parte I) As lições dos que reformaram até à exaustão Argentina: a queda de um gigante Em 1913, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo — PIB per capita superior […]
Este artigo é a continuação da Parte I: A armadilha das reformas sem rumo: Portugal entre a visão e a deriva (Parte I)
As lições dos que reformaram até à exaustão
Argentina: a queda de um gigante
Em 1913, a Argentina era um dos países mais ricos do mundo — PIB per capita superior ao da França e Alemanha. Tinha a lotaria completa: recursos naturais abundantes, população educada, instituições sólidas.
Mas desde 1980, transformou-se na campeã mundial de reformas sem rumo. Cada governo chega com a sua ‘revolução’: privatiza o que o anterior nacionalizou, nacionaliza o que o anterior privatizou. O resultado é tragicómico: nove bancarrotas (recorde mundial), inflação que já ultrapassou os 20.000%, fuga perpétua de capitais.
A Argentina personifica o movimento sem direção. O país realizou dezenas de “reformas estruturais profundas”, mas sem uma visão estratégica coerente. De potência mundial a caso de estudo em autossabotagem, demonstra o que acontece quando um país reforma compulsivamente sem nunca decidir o que quer ser.
Grécia: Reformar sem Sonhar
Entre 2010-2018, a Grécia foi aluna exemplar das reformas da Troika. Implementou tudo: cortou salários públicos 40%, aumentou IVA, privatizou empresas, flexibilizou leis laborais. Reformou obsessivamente — mas para quê?
Sem visão do que queria ser em 2030 ou 2040 reformou tudo — exceto o futuro.
Resultado: PIB contraiu 25%, 500.000 jovens emigraram, uma década perdida porque reformaram o presente em vez de inventar o futuro.
O segredo está na sequência
Países que saltaram de minúsculos a gigantes não tinham mais dinheiro, área ou recursos do que nós; tinham uma bússola. Seguiram quatro passos — sempre nesta ordem:
- Definir um destino “impossível”: Singapura prometeu tornar-se centro financeiro asiático; a Irlanda, Silicon Valley europeu.
- Planeamento obsessivo: Coreia: planos quinquenais implacáveis. Irlanda: estratégia mantida por 20 anos e seis governos. Portugal: próxima sondagem.
- Alinhamento total: educação, impostos, leis, imigração — tudo ao serviço da meta (visão).
- Execução além de governos: a visão sobreviveu a crises, troikas e alternâncias políticas.
Os perdedores fizeram o oposto: reformaram primeiro, pensaram depois. Portugal especializou-se em reformar o fracasso em vez de planear o sucesso. As provas acumulam-se:
- Múltiplas reformas educativas nas últimas décadas = Portugal continua na cauda da Europa em literacia
- Justiça “modernizada” repetidamente = tribunais administrativos mais lentos que há 30 anos (os segundos mais lentos da Europa).
- Segurança Social “reestruturada” = jovens emigram convencidos de nunca ter reforma
A escolha é nossa — como sempre foi
A diferença não é dinheiro — recebemos mais fundos europeus per capita que a Irlanda. Não é tamanho — Singapura é menor que Lisboa. Não é recursos — em 1960, a Coreia tinha literalmente um dos PIBs per capita mais baixos do mundo.
A diferença é visão. Singapura perguntou «como nos tornamos imprescindíveis?». A Irlanda perguntou «como roubamos empresas à América?». Portugal pergunta «que vírgula mudar na Constituição?».
A pergunta crucial: Que Portugal estamos a construir? Se queremos grandeza, decidamos já: Portugal 2050 será potência em quê? Economia azul? Energias renováveis? Hub tecnológico? Primeiro o destino, depois as reformas.
Se não queremos ser grandes, então continuemos como até aqui. Reformemos estruturalmente a mediocridade. Reorganizemos constitucionalmente a pequenez. Reestruturemos eficientemente a falta de ambição. Mas sejamos honestos — é mais fácil gerir declínio que construir grandeza.
Sem responder ‘o que queremos ser’, todas as reformas equivalem a redecorar o Titanic. Fica bonito, afunda na mesma.
Portugal precisa do que nenhuma reforma dá: coragem para sonhar o impossível e disciplina para o construir.
O tempo que gastamos a reformar o irrelevante, outros gastam a construir o extraordinário. E depois admiramo-nos quando os nossos jovens escolhem o extraordinário deles ao irrelevante nosso.
Sonhar primeiro, reformar depois. Tudo o resto são detalhes. Importantes, sim. Mas detalhes.
Mas e se Portugal já tivesse a resposta à nossa frente? E se o nosso futuro estivesse literalmente a bater à nossa costa? No próximo artigo, ‘Portugal 2045: A Superpotência Azul que Podemos Ser’, veremos como 950 km de Atlântico podem transformar retórica em realidade — e Portugal em potência.
