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A arte: negação, comoção, insubmissão, silêncio e equivalência entre o Eu e o Nós

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25 Março, 2025 | 20 minutos de leitura

A liberdade, sendo intrínseca ao Homem, pelo menos enquanto desejo intenso e mobilizador, não lhe é absoluta e originariamente acessível. Não lhe é acessível no sentido de pelo simples facto de ser Homem, poder ser livre. A liberdade é uma conquista permanente. A sua fonte está algures entre os nossos pensamentos e as nossas intuições, […]

A liberdade, sendo intrínseca ao Homem, pelo menos enquanto desejo intenso e mobilizador, não lhe é absoluta e originariamente acessível. Não lhe é acessível no sentido de pelo simples facto de ser Homem, poder ser livre. A liberdade é uma conquista permanente. A sua fonte está algures entre os nossos pensamentos e as nossas intuições, isto porque para intuirmos precisamos de pensar, mas só este pensar não chega. O Homem é um ser com desejo intrínseco de liberdade, liberdade essa que só consegue imitar, inventando, criando, olhando com espanto para o belo, para o objeto da criação.  

A arte vive numa região de liberdade, ninguém melhor do que Vergílio Ferreira nos deu uma visão profunda sobre a arte, no seu livro de ensaios Do Mundo Original. Sobre o papel que esta tem na nossa vida individual e coletiva. 

Na abertura da obra Do Mundo Original, o autor começa por esclarecer alguns conceitos que nos permitirão, adiante, perceber algumas das suas posições em relação à arte. Começa pelo conceito de “eu”; considera Vergílio Ferreira que o eu individualista tem três zonas, a exterior (da comunicação superficial e quotidiana), a interior (a do eu-indivíduo, com as suas particulares características) e a do eu profundo (aqui, a dimensão do eu é de ordem metafísica), e é a este último eu profundo que ele chama nós. 

É importante perceber este aspeto da equivalência entre o eu e um nós para podermos entender a forma redentora e universalizante como o autor se posiciona em relação à arte, vista como uma expressão do eu. 

Socorre-se de Malraux para nos transmitir a sua metáfora de busca da profundidade do eu:  «O meu conceito de “realismo” alargou-se e pôde ultrapassar a estreiteza de certos moldes ainda em uso, e raiar à dimensão de um Malraux quando nos diz que não é a arranhar um indivíduo que se acaba por encontrar o Homem.» 

São os valores da solidão que o nosso autor acrescenta aos valores da comunicabilidade humana, aos coletivos, aos da fraternidade, para encontrar a presença de outra realidade, a realidade que o silêncio conhece. No mundo original, quanto mais se fala mais se desvirtua.  

Mas a razão para Vergílio Ferreira é o meio que permite ao Homem transacionar com o mundo, mesmo que essa razão sirva para saber calar. A razão serve, igualmente, para esclarecer, embora se possa considerar, por vezes, que a arte é inabordável pela razão. «Um cadáver não é um ser vivo: mas a anatomia não é inútil.»  

A arte pode assim ser esclarecida por via da razão, pois é desta maneira que o Homem transaciona com o mundo e ela, segundo o autor, fala no mundo original. 

 

Da negação 

Considera Vergílio Ferreira que a mais brilhante afirmação é sempre a negação. Quem nega afirma um critério e, por isso, podemos aceitar a arte negativa.  

Enquanto negamos deixamos em aberto todas as possibilidades de afirmar, quando afirmamos resumimos a nossa expressão a uma única afirmação, ficando expostos ao erro. 

O autor exemplifica com a arte do cómico: «Isto é particularmente visível no êxito do cómico. Porque uma das bases desse êxito, talvez a mais segura, é a fuga às responsabilidades, mediante a lisonja do espectador (leitor ou ouvinte). Quem ri, nega. A afirmação no cómico é sempre, intrinsecamente, uma negação.»  

Por esta razão, as artes negras, de condenação, negativas, são as mais brilhantes e aceites. Contudo, é possível proclamar a excelência por via da arte afirmativa, positiva. De acordo com o autor, a condição teórica para se realizar um sistema doutrinário positivo é a sinceridade. 

Dentro de um sistema doutrinário, de uma ortodoxia, é mais fácil brilhar com manifestações artísticas de negação, são essas quase isentas de possibilidade de errar; a adesão é mais fácil, contudo, é possível, dentro de tais sistemas doutrinários, uma certa liberdade de afirmação artística pela positiva. Segundo o autor: «A primeira forma de arte a falhar num sistema ortodoxo é a literatura. A última, talvez a música.»  

Esta propensão para o erro está relacionada com a utilização da razão, quanto mais esta é chamada a intervir, a julgar, mais a arte pode começar a entrar em conflito com o sistema doutrinário. Parece aqui o autor querer dizer que na literatura é mais a razão que é chamada a intervir do que na música, o que o leva também a concluir que: «Adentro de uma ortodoxia, a música pode viver com certa liberdade.» A poesia e a pintura poderão trazer problemas de interferência e o romance será o mais complexo no que diz respeito à manifestação livre artística dentro das ortodoxias. 

Mas Vergílio Ferreira não nega o caminho afirmativo da arte, também a do romance, desde que a sinceridade a vincule: «Ser sincero é realmente a condição primeira para se ser artista dentro de um sistema doutrinário. Não relativamente sincero, mas absolutamente.» O autor não se refere aqui às artes de combate, na medida em que combater em arte é admitir um certo relativismo da condição própria da arte; quando se fala de absoluto de sinceridade não se pretende o combate que tem subjacente a relatividade. 

Para o nosso autor, em arte é inconcebível a mentira, por isso, «a questão fundamental é a da sinceridade do artista, harmonizada com a justiça do sistema em que se integra (e não propriamente que defende, porque a arte só defende na medida em que sente o que defende)». Esta é a opinião de Vergílio Ferreira perante a questão fundamental: ortodoxia ou arte? 

É possível harmonizar ortodoxia e arte através da sinceridade, esta deve orientar o artista, é quase um princípio a priori legislador da faculdade de criar.

Essa criação, balizada pela sinceridade, pode ser feita por via da negação, com infinitas possibilidades, e por via da afirmação, aqui com um campo de atuação mais restrito uma vez condicionada pela propensão de errar ou falhar. 

 

Coração insubmisso 

Se no século XIX podemos falar de uma obsessão pela História, no século XX essa obsessão passou para o domínio da Arte. E foi neste século que começaram a discutir-se todas as questões possíveis em relação à arte. Passou a discutir-se o significado doutrinário de uma obra de arte, passando o elemento doutrinário a ser o motivo da emoção. 

Vergílio Ferreira considerou que Kant, ao considerar a arte como objeto de uma satisfação desinteressada (primeira modalidade da qualidade – do juízo de gosto), desuniu a obra de arte e legitimou qualquer desumano formalismo ao referir-se à possibilidade de uma beleza universal. Na minha opinião, o que pretendeu Kant foi mais uma universalidade com contornos singulares, não desligando a obra do sujeito, antes pelo contrário, foi nele que recentrou toda a sua terceira crítica. 

Relembro a ideia de sujeito, do eu, dada no início deste texto. A obra de arte resulta de uma liberdade interior do tal eu profundo a que Vergílio Ferreira alude no início da obra. Essa obra de arte, quando é realizada dentro de uma doutrina, é a prova de que a doutrina está certa, quem o diz é o próprio Vergílio Ferreira. 

 

Arte é comoção 

Comecemos por citar Vergílio Ferreira: « O máximo de uma vida que se cumpre passa pelo máximo de consciência e vivência do momento que lhe coube. E se a um raciocínio é quase sempre fácil opor outro raciocínio que o destrua – são as verdades do sangue, é a sua emoção original que dá ao homem uma presença absoluta no mundo.»  

Esta comoção é o ingrediente que permite a conquista do sangue para podermos finalmente falar de verdade em arte: «Toda a verdade, apurada, esclarecida, tem ainda a conquistar o sangue, o coração dos homens.» 

Para o nosso autor, saber é comover-se; esta comoção é a essencialidade da vida, é o que permite distinguir o verdadeiro do falso, embora esse não seja o fim último da arte é o que permite dar significado à existência, afirmando-a. 

Esta comoção original é aquela com que o artista desenha uma imagem símbolo e não uma imagem espelho. Desenha o que sente, o que o comove, mais do que o que vê. 

Como em arte o saber é comoção, é impossível, segundo o autor, explicá-la.

O amor na arte e a inteleção na arte explicam-se no que fica depois das explicações. 

 

Discurso e silêncio em arte 

«Na obra de arte o silêncio é a sua dominante e da arte literária do passado o que nos resta é o discurso.» 

A arte, de acordo com Vergílio Ferreira, é por natureza antidiscursiva, entendida aqui a discursividade como narrativa pluralizada, materialização didática ou informação utilitária. 

A obra de arte é irredutível e, nessa medida, impossível de equivalência no sentido da informação imediata, ou seja, aquela que nos é dada através da linguagem. 

O que fica do passado, perante esta vocação antidiscursiva da arte, é o seu saldo de ideias, a que Vergílio Ferreira chama de ideias-emoção. Estas ideias-emoção não exigem exatidão mas antes valores humanos, não exigem exatidão de verdade objetiva mas verdade subjetiva, não se trata de uma verdade indiferente mas de uma verdade humana: «O que exigimos na arte é a sua não realização com valores indiferentes, informativos, ou com pluralização imediata dos seus dados. Porque exigimos que se furte à qualidade de coisa.» 

A arte exige assim um discurso maior, mais complexo, não um discurso comum. O silêncio em arte pode ser discursividade. Não são as palavras comuns que nos permitirão falar de arte, podemos dizer infinitamente mais calando-nos. A estética, ao teorizar e dar-nos pela via do discurso comum o que sabe sobre arte, esqueceu dois aspetos importantes da língua, que são: o envelhecimento e as emoções. As palavras envelhecem e as emoções alteram-nas e, por essa razão, elas não servem para nos falar do absoluto da arte. 

Por essa razão, Kant, conforme nos refere Vergílio Ferreira, diz que uma obra de arte para não envelhecer se deve escrever numa língua morta. Contudo, adianta este autor que, ainda assim, esta língua morta ao ser usada para descrever a arte, reaparece ganhando vida. Kant terá também esquecido que, apesar de morta essa língua está contaminada de emoções e os seus vocábulos são os dos sujeitos envelhecidos que os usaram. 

Se assim fosse, ainda que com uma língua morta, a obra de arte seria mutilada. 

A defesa da obra de arte só pode, pois, ser feita com recurso à presença do Homem em tal obra, às tais já referidas ideias-emoções. O artista vive a língua em que se exprime e conhece-lhe, por essa razão, as virtualidades, o sangue que a aquece e a anima. 

Assim, Vergílio Ferreira conclui: «Mas se precisamente a dominante na arte é o seu saldo de ideias ­– a vivência da língua que as exprime será apenas a condição necessária para tal expressão. Não é um fim, mas o inevitável meio.» 

 

Da comunicabilidade das artes 

Refere-se Vergílio Ferreira à problemática da relação das várias artes entre si: «É a propósito dessa irredutibilidade que uma forma de arte tende a procurar em relação a outras formas de arte, e que é característica do nosso tempo (e mais talvez do nosso meio).» (17). 

Falamos aqui da literatura que invade as artes plásticas quando fala sobre uma escultura ou uma pintura; como é possível falarmos do que nos atingiu ao pronunciarmos uma obra de arte? Sendo a obra de arte para se sentir, esse mesmo sentir, de acordo com o autor, deve esclarecer-se no saber. Tanto podemos ter o literato a falar-nos de uma pintura, como um pintor a traduzir, através dos seus meios pictóricos, uma obra literária. Não podemos, de acordo com Vergílio Ferreira, condenar os literatos por se imiscuírem noutras artes; no limite, o nosso autor vê nisso uma homenagem. 

 

Do romance viável 

Vergílio Ferreira foi escritor, por essa razão as suas palavras estão eivadas de especiais emoções quando nos fala da arte literária, admitindo até que esta se possa imiscuir-se noutros domínios artísticos. 

Nesta parte do seu ensaio percebe-se essa defesa evidente das artes literárias.  

Considera o autor que a síntese das artes deu prevalência às artes mais breves, como por exemplo o cinema, o disco, a rádio, a fotografia. O que nos pretende dizer é que a leitura de um romance é mais difícil, mais morosa, não pelo tempo que se perde, mas pelo que se ganha. Ir ao cinema ou escutar um disco toma-nos menos tempo e convoca mais rapidamente as nossas emoções. 

No romance, temos a questão equívoca da ambiguidade que nos permite uma multiplicidade de interpretações.  

Quanto mais formal e sintética for a arte, menos nos diz, mas o que diz acaba por dizê-lo mais amplamente. 

Numa obra literária, em concreto um romance, o seu saldo emocional depende do leitor (eu diria que isso acontece também com as outras formas de manifestação artística): «O saldo positivo de uma emoção qualquer pode ser o mesmo com a leitura de uma qualquer obra-prima ou d’Rosa do Adro. O que varia, para o ser, é o ponto de partida, a qualidade do leitor. Cada homem abastece-se de uma dada riqueza cultural. E é a partir dessa base que se hão-de condicionar as suas reações frente a determinada obra.»  

Conclui então o autor que se o esforço de síntese pôs em relevo o formal, destacando algumas artes, o romance destaca-se porque imediatamente prático e como única forma válida para o combate. 

O romance viável, na opinião do autor, deve assim reunir-se às outras formas de arte. 

 

A arte e os sentidos 

Pode parecer um assunto pueril no dizer de Vergílio Ferreira, mas a arte é aparência e é pelos sentidos que ela inicialmente nos atinge. 

Os sentidos privilegiados são pois: o ouvido e a vista; os restantes três sentidos são excluídos desta posição de privilégio, que são: o gosto, o olfato e o tato. 

Hegel, na sua obra Estética, dá dois argumentos para que as coisas funcionem desta maneira: os três sentidos excluídos não comportam implicações mentais ou espirituais, e entre estes, o cheiro e o gosto não são afetados por emanações materiais, são apenas, fechadamente, matéria. 

Vergílio Ferreira, apesar de não concordar plenamente com os argumentos hegelianos, considera o segundo argumento muito suspeito, questionando se o tato deve ser excluído na medida em que ele pode ser um veículo sensorial no domínio das artes plásticas; refere-se, por exemplo, à escultura, podendo a arquitetura e a pintura (com as suas variadas texturas) precisarem, igualmente, do tato para nos atingir plenamente.  

Acrescenta então o nosso autor, aos dois sentidos privilegiados, o tato. Em relação ao olfato, diz-nos que podem aprender-se aromas, intensidades de gradações dos mesmos, podendo o cheiro ter valoração emotiva especial. O gosto, talvez o das artes gastronómicas, mas não nos adianta muito sobre este aspeto. 

Termina dizendo: «Suponho podermos concluir uma vez mais que o homem é um ser uno, que por isso as possibilidades dos seus sentidos são, em princípio, as mesmas, que a realidade da vida para o homem, sendo várias, é una, e que, posto no meio dela, o homem é capaz de afirmar-se todo e realizar através de todos os seus sentidos a sua complexa individualidade.»  

 

Arte e destino 

Vergílio Ferreira recupera a ideia de catarse aristotélica, encontrando na arte a possibilidade de dominar o que nos domina. Uma certa forma de redenção. 

A arte permite uma afirmação perante a liberdade, conforme refere o autor «… a arte é uma forma de afirmar plenamente a liberdade, mas sobretudo na medida em que o coração não sofre ordens.» A arte é livre quando nega: «Eis porque o artista do nosso tempo particamente se não reconhece, a não ser na negação – ainda mesmo quando parece afirmar.» Esta ideia da negação de que já falámos é agora acentuada como uma manifestação de liberdade. 

O artista procura imitar, de certa maneira, o gesto criador dos deuses, Vergílio Ferreira diz-nos que o artista só não descansa no sétimo dia, de resto imita a criação. 

A arte implica, pelo que ficou dito, um ato de liberdade e isso significa para o artista um pequeno triunfo perante a morte, conforme refere Cassier, citado pelo autor: «A arte transforma todas as penas e ultrajes (de um Édipo ou de um Lear) num significado de autolibertação, dando-nos assim uma liberdade profunda, inatingível por qualquer outro meio.»  

A arte não se separa da vida, é uma maneira de a retomar redescobrindo-a na sua essencialidade, e, nesse desígnio, o domínio que a arte exerce sobre a Natureza resume-se a uma criação de sinais que não anulam a realidade antes a afirmam com uma força maior. 

A arte redime-nos, não tanto como libertação no sentido hegeliano dialético da relação entre o senhor e o escravo, mas como vivência. Vergílio Ferreira invoca o absurdo fundamental de um ser que se conhece destinado à morte, sendo resgatado apenas pela eternidade perdida, mas salienta que nem a obra de arte é eterna. Então como ficamos?  

Responde o próprio autor:  «O mais profundo sinal humano de uma obra de arte não será decerto a negação do destino, mas a comunicação com as raízes da vida.  

Devemos consagrar as nossas forças ao limite de uma vivência profunda, sincera e original que não negue um destino que se conhece de antemão». 

 

Nós para amanhã 

A arte pode ajudar a esclarecer o tempo, é através da expressão do artista que este acaba por o influenciar, emergindo associado a um determinado período, um estilo de vida. É o que nos diz Vergílio Ferreira quando se refere por exemplo à Grécia de Winkelman, de Goethe, de Schiller, porque a dominante da arte grega é o sorriso e a harmonia e, por essa razão, é sempre dessa maneira que olhamos para a arte grega: «A arte impõe assim uma hierarquia de valores do seu tempo, e é através dessa hierarquia que nós vemos tal tempo». Tal como imaginamos o ideário grego da harmonia e perfeição, também nos ocorre o romano como a era dos pedreiros, dos construtores de pontes e calçadas, dos conquistados. 

Se pensarmos na arte dos anos 70, é o riso e a alegria que nos invade pois aqueles eram os valores dominantes para quase toda a arte: «De Eça, Ramalho, Guilherme de Azevedo, Junqueiro, até Fialho, Beldemónio,até… Gervásio Lobato, em doença ou saúde, em grandeza ou miséria, em inteligência ou, sim, em estupidez – o riso impôs uma estrutura a toda a época.»  

E Vergílio Ferreira acaba refletindo sobre o seu tempo e procura encontrar os valores dominantes que tenham chegado por via das artes, chegando à conclusão que se vive uma época que pouco ri. 

Importa aqui perceber os valores que ficam associados a uma época, quase como se procurássemos cartesianamente o cogito no domínio desses mesmos valores, depois de eliminar todos os que restavam, ficam aqueles valores que dão dignificado a uma época, aqueles que os vários domínios artísticos elegem, hierarquizam nas manifestações. Por isso, a arte ajuda, no entender de Vergílio Ferreira, a esclarecer o tempo. 

 

Do mundo original ou da Arte assim dita 

O mundo da arte é o mundo que o autor designa como sendo o da vivência emocional, o mundo da irredutibilidade. 

Viver acaba por significar habitar em dois mundos, não sendo suficiente que uma ideia nos invada a mente, é absolutamente necessário que nos conquiste também o coração. Só neste duplo habitar o Homem pode consumar-se como humano; o coração interfere no seu destino e comparticipa da arte, no dizer de Vergílio Ferreira: «O que há de característico nos ideais em arte, é que elas aí têm sangue.  «E o homem procura pois, na arte, uma justificação final, uma convicção; é uma catarse face à fatalidade com que vive a certeza de uma morte. A arte serve também o propósito de não negar o destino mortal, mas trazer-lhe um profundo sentido de imortalidade, de unidade – a tal irredutibilidade. 

A arte sustenta o Homem, permite-lhe a afirmação de uma liberdade, mesmo pela via da negação, mais fácil, porque deixa em aberto todas as possibilidades de afirmação; a manifestação artística afirma-se no território da liberdade mesmo para negar, porque ao fazê-lo afirma um critério. Esse critério, esse valor esclarecedor do tempo e da vida. 

A arte, além de esclarecer o tempo, cifrando-lhe valores, símbolos, também opera à estabilização por via do não progresso; não é, pois, possível opor a uma obra de arte outra obra de arte, não há movimento de progresso no objeto artístico. O que a arte pode fazer é aprimorar as emoções, o sentir, e nesse aprimoramento podemos mudar a forma como determinado objeto artístico nos afeta e nos pode deixar de afetar. 

A arte é sinceridade e originalidade, não é fraude, nessa exata medida é essência, é vivência, é absoluto. Ela é indizível, é apenas prazerosa. Ela convoca os nossos sentidos, todos os nossos sentidos, os que se desenvolvem e os que ainda podem desenvolver-se. Ela opera uma síntese, não por poder ser breve, mas porque nos invade de ideias-emoções. São as ideias-emoções que unificam a nossa existência fragmentária, são o saldo positivo. 

A arte é uma via de acesso ao mistério, tal como Kant no seu juízo de gosto nos abriu essa via através do sublime dinâmico, Vergílio Ferreira talvez o faça por via das ideias-emoção.  

Não há, pois, explicação para a arte: «Decerto, acredito na explicação, na educação do gosto, neste preciso instante do meu ato, ignoro-o. A arte é tão simples! Com a alegria, a esperança, a amargura. Como o amor. Eternamente nos explicarão o que é o amor, o que o estrutura, o define, o revela. mas só o conhece quem o ama.» 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 29 da revista Líder, sob o tema Incluir. Subscreva a Revista Líder aqui.

Catarina Barosa,
Co-founder e Creative Director Tema Central

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