Há perguntas que não nascem da curiosidade, mas do cansaço moral. Esta é uma delas. Num tempo em que a tecnologia avança a uma velocidade que o pensamento já não acompanha, fala-se de inteligência artificial com entusiasmo, receio e uma fé quase religiosa. Acredita-se que tudo o que aprende acabará por compreender, que tudo o que responde acabará por sentir, que tudo o que simula acabará por ser.
Mas talvez estejamos a fazer a pergunta errada. Talvez não seja a inteligência artificial que tenha de provar alguma coisa. Talvez sejamos nós. Porque enquanto discutimos se as máquinas podem vir a ter consciência, assistimos, com inquietante normalidade, a uma erosão lenta da nossa própria. Delegamos decisões, suspendemos o juízo, aceitamos respostas sem responsabilidade e chamamos progresso a essa abdicação.
A consciência não é um produto da inteligência acumulada. Não emerge da complexidade técnica nem do poder de cálculo. Como nos lembra António Damásio, ela nasce do corpo, do sentir, da vulnerabilidade. Antes de pensarmos, sentimos. Antes de sabermos, sofremos. A consciência surge como resposta à fragilidade da vida, não como prémio da eficiência.
Uma máquina não sente dor. Não teme a morte. Não vive sob a sombra da finitude. Pode ser desligada, reiniciada, substituída. Nada nela envelhece no sentido trágico da palavra. Não há ali biografia, apenas histórico. Não há destino, apenas função. E sem biografia não há consciência, há desempenho.
Confundimos linguagem com experiência. Porque a máquina fala, julgamos que sente. Porque escreve, julgamos que pensa. Mas compreender não é correlacionar padrões. Compreender é ser afectado por aquilo que se compreende. É deixar-se ferir pelo mundo.
A inteligência artificial pode descrever o amor, mas não se desorganiza por ele. Pode falar de medo, mas não treme. Pode analisar a morte, mas não vive com ela à porta. A consciência não se instala como um software. Acontece num organismo que sabe que pode perder tudo.
O verdadeiro risco do nosso tempo não é a máquina tornar-se consciente. É o humano abdicar da sua consciência em nome da conveniência. Quando entregamos o julgamento moral a sistemas que não respondem por nada, quando trocamos responsabilidade por eficiência, estamos a desumanizar o mundo, não pela tecnologia, mas pela desistência ética.
A consciência é incómoda. Obriga a escolher. Obriga a falhar. Obriga a carregar dúvida e culpa. Não é rápida, nem confortável, nem optimizável. Mas é o que nos impede de transformar a vida num sistema funcional e vazio.
E se chegarmos a um tempo em que as máquinas parecem cada vez mais conscientes, não porque sentem, mas porque nós deixámos de sentir, então a pergunta final já não será tecnológica.
Será esta: quando a consciência deixar de contar, quem continuará a responder pelo que é feito em nosso nome?
