No futebol português, onde a paixão dos adeptos parece incendiar o relvado, a ideia de que os treinadores são os verdadeiros líderes parece quase um ideal distante. A pressão pelos resultados imediatos cria um ciclo de rotatividade que, por vezes, parece quase um desporto à parte. Na teoria, os treinadores são os estrategas, mas na […]
No futebol português, onde a paixão dos adeptos parece incendiar o relvado, a ideia de que os treinadores são os verdadeiros líderes parece quase um ideal distante. A pressão pelos resultados imediatos cria um ciclo de rotatividade que, por vezes, parece quase um desporto à parte.
Na teoria, os treinadores são os estrategas, mas na prática, mostram-se por vezes meros peões numa partida jogada fora de campo. Quem, então, manda: o treinador, que tenta desviar-se das armadilhas do mundo da bola, ou o presidente, que de um escritório sem cheiro a futebol dita as regras? A resposta pode ser simples: manda quem tem a última palavra.
O cenário atual: a rotação desenfreada
A Primeira Liga de 2024/2025 já registou 14 mudanças de treinadores até ao momento, sendo a mais recente a saída de Vítor Bruno do comando do FC Porto a 20 de janeiro, após ficar apenas seis meses no cargo. Mesmo depois da reviravolta e conquista da Supertaça frente ao Sporting, o antigo adjunto de Sérgio Conceição não resistiu aos maus resultados neste início de ano. Este dado é sintomático de uma cultura que valoriza o imediatismo e a pressão pelos resultados acima de tudo, esquecendo facilmente os êxitos do passado.
Clubes como o Benfica, Sporting e Porto, que carregam a história e o peso das expectativas dos adeptos, são palco constante desta «dança das cadeiras». Nos últimos dez anos, a instabilidade no cargo de treinador tem sido uma realidade. Embora treinadores como Jorge Jesus (Benfica), Sérgio Conceição (FC Porto) ou Rúben Amorim (Sporting) tenham alcançado alguma continuidade em certos períodos, a rotatividade tem prevalecido. Muitos técnicos têm sido afastados após resultados abaixo das expectativas, refletindo uma pressão constante por conquistas imediatas, que muitas vezes sacrifica a estabilidade a longo prazo.
Até mesmo clubes de menor expressão, como o Boavista ou o Marítimo, têm seguido esta tendência de rotatividade. O caso do Marítimo, por exemplo, é um exemplo claro dessa instabilidade. Com vários técnicos (12 em seis anos!) a passarem pelo clube nas últimas temporadas, relegando o clube para a segunda liga e sem horizonte de regressar tão cedo, antes pelo contrário, está em risco de cair para o terceiro escalão do futebol português.
Cada despedimento é um golpe no treinador, mas também uma oportunidade para outro técnico subir no palco. Este ciclo, porém, nem sempre gera avanços: muitas vezes é apenas uma repetição de erros passados, com uma ênfase excessiva na procura por soluções rápidas e não necessariamente sustentáveis. A cultura do imediato, onde os resultados de curto prazo prevalecem sobre uma visão a longo prazo, continua a ser um desafio para o futebol português.
Formação de treinadores: uma fábrica de talento
Em Portugal, a formação de treinadores é reconhecida pela sua exigência e qualidade. Anualmente, cerca de 50 treinadores obtêm a licença UEFA A, enquanto cerca de 24 a 30 alcançam a licença UEFA Pro, número que pode variar consoante o calendário de cursos oferecidos pela Federação Portuguesa de Futebol (FPF). Estes programas garantem que os formandos adquiram competências táticas, psicológicas e administrativas para liderar equipas profissionais.
Apesar disso, a oferta de treinadores certificados nem sempre acompanha a elevada procura gerada pela instabilidade dos clubes. Num país onde o futebol é mais do que um desporto – é uma paixão nacional –, a formação rigorosa contrasta com a falta de continuidade nos projetos desportivos.
Atualmente, estima-se que existam mais de 900 treinadores portugueses com a licença UEFA Pro. No entanto, apenas uma fração encontra oportunidades na Primeira Liga, devido à limitação de vagas. Muitos acabam por trabalhar em divisões inferiores ou aceitar desafios no estrangeiro, continuando a representar a excelência da formação nacional em diversos mercados globais.
O caso Bruno Lage: quando os microfones apagam as luzes
No último fim-de-semana, Bruno Lage, treinador do Benfica, viu-se envolvido numa polémica depois de um áudio privado ter sido divulgado nas redes sociais. No áudio, Lage manifestava frustração com a equipa após uma derrota, algo que rapidamente gerou especulações sobre a sua relação com os jogadores e a direção.
Este incidente expõe o clima de tensão constante no qual os treinadores operam, especialmente nos grandes clubes. A divulgação de um momento privado, fora de contexto, foi suficiente para colocar Lage numa posição vulnerável, obrigando-o a esclarecer publicamente a sua postura e a reafirmar o seu compromisso com a equipa.
Mais do que uma questão técnica ou estratégica, este episódio ilustra como a opinião pública e os media podem transformar qualquer líder num alvo fácil de críticas. E, com a ausência de Rui Costa ao lado de Bruno Lage durante a conferência de imprensa marcada a toda a pressa, fica a dúvida no ar: estarão as águas calmas nos bastidores da Luz?


