Ansiosa, resiliente e sobrecarregada por um mundo fragmentado que não criaram: estes são os traços da Geração Z, que já está a redesenhar as regras do trabalho, da política e das marcas.
Enquanto os sul-coreanos lutam contra a desilusão, os indianos e magrebinos desta geração estão a tornar-se cada vez mais conscientes das questões climáticas e os quenianos estão a exigir responsabilização dos pais e avós.O aquecimento global, a guerra, a desconfiança nos seus líderes e nos meios de comunicação e, em algumas regiões, o aumento do desemprego juvenil contribuíram para uma era de constante vigilância e ceticismo. Em dificuldades, mas nunca derrotada, a Geração Z transformou a incerteza em motivação para aproveitar o presente, priorizando a saúde mental, o bem-estar físico e a alegria.
O relatório Gen Z: Global Youth Atlas, realizado pelo Future Laboratory traça um mapa global dos jovens nascidos entre 1997 e 2012, numa pesquisa que engloba 11 locais e sob as perspetivas de quase 40 colaboradores. Desde o Brasil à Coreia do Sul, passando pelo Quénia e Índia, o relatório não exclui os países em desenvolvimento, mostrando que as tendências nem sempre se criam no Ocidente.
Uma geração moldada pela instabilidade
A Geração Z é a primeira a crescer com a sensação de que os grandes marcos da vida adulta – casa própria, estabilidade financeira ou progressão linear na carreira – podem nunca chegar. O relatório mostra que, em vários países, o desemprego jovem, a inflação e a crise climática criaram uma geração simultaneamente ansiosa e pragmática.
Esta instabilidade não se traduz em apatia. Pelo contrário: traduz-se numa postura crítica e numa rejeição clara de promessas vagas. A Geração Z valoriza segurança, mas também propósito. Quer trabalhar, consumir e participar em sistemas que façam sentido – económica, social e eticamente.
No meio da incerteza, estes jovens procuram doses de dopamina e do conforto da comunidade. Enquanto jovens brasileiras participam em desafios para poupar dinheiro e os canadianos adotam hábitos de consumo pragmáticos, a Geração Z continua a procurar gratificação instantânea – seja comprando mini produtos de beleza na Coreia, esbanjando em moda nos centros comerciais de Singapura ou abraçando a cena musical em expansão na Índia.
Com a idade adulta atrasada pelos confinamentos da Covid-19, muitos encontram conforto em referências nostálgicas da infância, desde clássicos como a Miffy e o Snoopy, até reinvenções, como os Labubus. Para outros, na Nigéria e no Magrebe, a vida noturna – incluindo raves underground LGBTQ+ extravagantes – tornou-se o novo playground.
Menos fé na política, mais ação no quotidiano
O estudo revela um afastamento progressivo da política tradicional. Partidos, líderes e instituições são vistos com ceticismo, enquanto movimentos de base, causas específicas e ações diretas ganham relevância. Em vários países, os jovens preferem mobilizar-se por temas concretos – clima, igualdade, justiça social – em vez de alinhar com ideologias fechadas.
Este afastamento não significa desinteresse cívico. Significa uma redefinição da participação: mais horizontal, mais digital e menos tolerante à incoerência. A Geração Z espera transparência e responsabilização e penaliza rapidamente quem falha.
Por exemplo, 63% da população desta faixa etária do Quénia afirma estar ‘muito envolvida’ na política ou nos assuntos públicos, e a sua consciência social influencia o comportamento cívico. Já 73% dos australianos entre 18 e 29 anos afirmaram que votariam ‘sim’ no referendo de outubro de 2023 sobre a presença de uma voz das Primeiras Nações no Parlamento.
Consumo consciente, mas sem moralismos
Uma das contradições mais marcantes desta geração é a forma como gere o consumo. O estudo descreve jovens que defendem a sustentabilidade, mas que também recorrem a alternativas acessíveis quando o orçamento aperta. 63% dos singapurenses da Geração Z relatam sentir ansiedade em relação às mudanças climáticas e 24% mudaram mesmo de emprego ou setor devido a preocupações ambientais.
A Geração Z é altamente informada, compara preços, procura durabilidade e rejeita pagar apenas pelo nome. Marcas que não oferecem valor real, seja funcional, emocional ou ético, perdem relevância. Ao mesmo tempo, experiências que geram prazer, comunidade ou expressão pessoal continuam a ter espaço, mesmo em contextos económicos adversos. Em números, 44% dos canadianos da Geração Z estão dispostos a pagar mais por roupas sustentáveis.
Autenticidade não é um slogan
Para esta geração, autenticidade não é um atributo de marketing, mas sim um critério de seleção. O estudo mostra que a Geração Z identifica rapidamente discursos vazios, ativismo performativo ou promessas não cumpridas. Quer ver diversidade real, práticas sustentáveis comprovadas e coerência entre o que é comunicado e o que é feito.
Este olhar crítico estende-se às lideranças. Chefias autoritárias, culturas opacas e hierarquias rígidas afastam talento jovem. Em contrapartida, lideranças empáticas, transparentes e dispostas a ouvir ganham legitimidade.
No geral, embora estes jovens tenham orgulho da sua herança e estejam ligados às suas raízes, recusam-se a ser limitados pelas tradições. Essa rebeldia vem do acesso quase livre e sem restrições ao mundo e à informação pela internet, que moldou a sua percepção do passado. Do Canadá à Austrália, os membros da Geração Z estão a fazer campanha pelos direitos dos indígenas, numa tentativa de corrigir o passado macabro dos seus antepassados. Os jovens indonésios praticam um Islão inclusivo que promove o diálogo inter-religioso e a tolerância.
O empreendedorismo é também a carreira de sonho para os jovens no Brasil e no Magrebe, onde a incerteza de construir um negócio é temida pelos pais mas romantizada pela Geração Z. De facto, em toda a América Latina, 77% da Geração Z sonhava em ter o seu próprio negócio em 2024.
O que este retrato exige às lideranças
O Gen Z Global Youth Atlas deixa uma mensagem clara: esta geração não quer ser convencida, quer ser respeitada. Para líderes e organizações, isso implica menos retórica e mais ação; menos controlo e mais diálogo; menos promessas futuras e mais impacto presente. A Geração Z não é o futuro, mas sim o presente, e já tem exigências e sonhos.


