Poucas dúvidas haverá sobre o que Putin pretende quando interage com outros líderes na sua mesa de seis metros de comprimento: afirmar o seu poder, apoucar e humilhar o outro. Há anos, na sua ânsia de mostrar um putativo poder viril, tentou alegadamente intimidar Merkel quando a recebeu fazendo-se acompanhar da sua cadela Koni, uma labrador preta. Merkel referiu-se ao incidente do seguinte modo: “Entendo porque ele teve de fazer isso – para provar que é um homem. (…). A Rússia não tem nada, nem sequer uma economia e uma política bem-sucedida. Tudo o que eles têm é isso”.
Não foi a primeira vez que Putin se socorreu do seu “cão político”. Num encontro com George W. Bush, o então presidente dos EUA afirmou a Putin que o seu “querido cão”, um terrier escocês chamado Barney, tinha “um lugar especial no [seu] coração”. Putin reagiu apoucando o animal através de pergunta jocosa: “Chama a isto um cão?”. Um ano depois, Bush e sua mulher tiveram um encontro com Putin na Rússia. O presidente russo apresentou a Bush o seu corpulento cão e afirmou: “Maior, mais forte e mais rápido que Barney”. São também conhecidas as imagens de Putin em tronco nu, a cavalgar – e inúmeras outras pretensamente demonstrativas do seu perfil de macho-alfa.
Em tempos há muito idos, os líderes eram alvo de admiração e seguidos como consequência da força bruta que os tornava mais capazes de proteger a tribo e lutar pela sobrevivência da mesma. Os tempos são outros, mas os cérebros humanos continuam condicionados pelas experiências dos seus antepassados. Para Putin, a estratégia tem resultado, pelo menos junto de uma parcela significativa dos seus concidadãos. Mas o fenómeno não é exclusivamente russo. Líderes com elevada estatura têm mais probabilidade de serem escolhidos e avaliados positivamente. O ex-Presidente de França, Nicolas Sarkozy, de estatura modesta, foi acusado de manipular a sua estatura: aumentando a altura do tacão dos sapatos, erguendo-se em bicos de pés para posar para a fotografia, ou colocando-se em cima de pequenas plataformas quando fazia intervenções em público.
As mensagens sinalizadoras de força e poder são inerentes ao reino animal – e não podemos esquecer que os humanos são animais! Por muito estranha e inútil que a sua conduta possa parecer, o pavão não faz resplandecer a sua cauda por mera recreação: ao “pavonear-se”, dá mostras de saúde, uma mensagem importante para atrair fêmeas e gerar prole. O antílope saltador (springbok) salta verticalmente no ar (chega a pular dois metros) para comunicar aos predadores que é saudável e, por isso, capaz de se defender e apoquentar o inimigo. Saltar para o ar (o termo inglês para a prática é pronking), em vez de correr em fuga, é também uma forma de o antílope preservar energias – que, se perdidas na corrida, gerariam cansaço e torná-lo-iam mais vulnerável.
Os humanos são, pois, mais semelhantes a outros animais do que possamos supor. Independentemente do sexo, procuramos comunicar, consciente ou inconscientemente, as nossas forças e qualidades através da forma como vestimos, dos adereços que usamos, do automóvel ou da moto que conduzimos, do relógio que colocamos no pulso, ou do tamanho e da decoração do gabinete. Por vezes, essas demonstrações assumem um pendor muito peculiar – e os machos parecem ter uma especial predileção por mensagens de ostentação jactante. Não será por acaso que algumas marcas automóveis se socorrem de modelos femininos para atrair compradores abastados (ficamos na dúvida sobre quem exerce o papel de “predador” e o de “presa”). A sinalização pode assumir formas muito peculiares no processo de seleção sexual. Uma investigação sugeriu que os homens tendem a fazer donativos mais avultados e a voluntariar-se para conceder mais tempo a causas caritativas quando estão perante mulheres atraentes. As mulheres não revelaram a mesma propensão quando colocadas perante uma audiência masculina atraente. Segundo os autores da investigação, os resultados sugerem que os homens competem entre si para impressionarem as mulheres, e que o bem público que criam ou apoiam representa o equivalente humano da cauda do pavão. Há, pois, muitas formas de os líderes se pavonearem. Infelizmente, Putin e outros líderes de jaez similar escolheram as formas mais sombrias.