Não venho das ciências políticas, ainda que as respeite. Venho das ciências sociais, esse território menos “glamouroso” onde se aprende a observar antes de opinar, a medir antes de argumentar, a comparar antes de julgar. Talvez por isso me custe tanto a facilidade com que se atira a palavra “falhanço” a cinquenta anos de democracia, como se a história fosse um capricho ideológico e não um corpo vivo feito de números, pessoas e tempo.
Dizer que estes mais de cinquenta anos foram um calvário é mais do que uma provocação populista. É uma falsificação grosseira da realidade. E, como toda a falsificação eficaz, tem um público-alvo bem definido: os que se esqueceram alimentados por uma memória seletiva, ou os que não viveram o antes, os que nasceram depois dos anos 80, os que cresceram num país já alfabetizado, vacinado, ligado à água, à electricidade e ao mundo, mas a quem nunca foi contado, com verdade e contexto, de onde viemos.
Há uma irresponsabilidade profunda em insinuar que a democracia empobreceu Portugal, quando os factos dizem exactamente o contrário. Não por opinião, não por ideologia, mas por evidência empírica. A mortalidade infantil caiu de forma quase inacreditável. A esperança média de vida aumentou mais de uma década. A escolaridade deixou de ser um privilégio para se tornar um direito. O acesso à saúde passou de excepção a regra. Tudo isto não são abstrações, são vidas concretas, são avós que hoje envelhecem com mais dignidade do que os seus pais alguma vez puderam sonhar.
É sobretudo aqui que a mentira se torna mais cruel. Porque quando se diz a um jovem que a democracia falhou, omite-se que foi ela que permitiu que os seus avós não morressem cedo, que aprendessem a ler, que chegassem à velhice com uma reforma insuficiente, sim, mas existente. Omite-se que esse envelhecimento mais digno não caiu do céu nem nasceu de palavras ocas, mas de políticas públicas, de consensos imperfeitos, de avanços e recuos, de escolhas feitas nesse espaço tantas vezes ridicularizado, esse chamado “centrão”, transformado em bode expiatório por quem prefere caricaturar a história a explicá-la.
Há uma tentação perigosa em transformar a história num ringue moral, onde tudo o que não é perfeito é descartado como inútil. Mas a vida social não se constrói em pureza, constrói-se em melhoria. E melhorar não é o mesmo que resolver tudo. Podemos, e devemos, exigir mais. Podemos, e devemos, reconhecer falhas, desigualdades persistentes, oportunidades perdidas. O que não podemos é negar o caminho percorrido, porque isso não é crítica, é amnésia táctica.
O populismo alimenta-se precisamente dessa amnésia. Da ideia de que nada presta, de que tudo foi um erro, de que só a ruptura total salva. Mas quem vem das ciências sociais sabe que rupturas sem memória não libertam, desorientam. Sabemos também que os dados não são frios, são éticos. Cada gráfico sobre saúde, educação ou rendimento é um testemunho silencioso de escolhas colectivas que salvaram, literalmente, milhões de vidas portuguesas. Poderíamos estar melhores? Sem dúvida. A democracia não é um ponto de chegada, é um processo inacabado. Mas dizer que estes cinquenta anos foram um desperdício é insultar não os partidos, mas as pessoas. É apagar a luta de quem saiu da pobreza extrema, de quem aprendeu a escrever o próprio nome, de quem chegou à velhice com cuidados que antes não existiam.
Combater o populismo não se faz com indiferença, mas com factos ditos com persistência e coragem. Com memória. Com responsabilidade. E, sobretudo, com respeito por quem viveu o antes, para que os que vivem o agora não sejam enganados por narrativas fáceis, num ecrã pequeno, incapazes de conter a complexidade de um país inteiro. A democracia portuguesa não é perfeita, nunca o foi, talvez porque a perfeição seja um vício das abstrações e não da vida real. Mas é, ainda assim, incomparavelmente melhor do que aquilo que a antecedeu. E isso não se discute à mercê de algoritmos voláteis, nem se decide por aclamação digital medida em seguidores, porque não é opinião nem crença, é memória escrita nos corpos dos portugueses, nas letras aprendidas tarde, nas mortes evitadas, nos dias que passaram, finalmente, a ser livres.
Com todos os seus defeitos e virtudes, a democracia continua (ainda) a ser a única alternativa que conhecemos. Não como herança confortável, mas como legado exigente, construído por quem veio antes e soube pagar o preço do tempo, do erro e da responsabilidade. Defendê-la não é um gesto de nostalgia nem um acto partidário, é um dever de memória para com os nossos avós e pais, e um compromisso ético com aqueles que ainda hão-de chegar.
