“O Amor é uma atitude da Alma”, assim começou o diálogo entre António, Marcos e Célio no livro, “Do Amor e da Morte”, escrito em 1922 por Leonardo Coimbra. António aponta a direção do Amor fazendo-a coincidir com a da alma. Célio acrescenta-lhe a sua tonalidade transbordante e a suas infinitas possibilidades para inundar todas […]
“O Amor é uma atitude da Alma”, assim começou o diálogo entre António, Marcos e Célio no livro, “Do Amor e da Morte”, escrito em 1922 por Leonardo Coimbra. António aponta a direção do Amor fazendo-a coincidir com a da alma. Célio acrescenta-lhe a sua tonalidade transbordante e a suas infinitas possibilidades para inundar todas as coisas. Este diálogo acontecia à hora do crepúsculo, em frente ao mar e à lembrança. O Amor, era o mote, o ponto arquimediano deste diálogo.
Associado ao Amor, o desejo, a força avassaladora que impelirá Marcos para as tentações carnais e para o imediatismo de uma vida feita de finitas relações opacas, enquanto Célio e António, viram nele a mesma força avassaladora, mas com um destino diferente, o destino era o da unificação o do crescimento de uma alma que “quer fechar o magnético abraço que cinge e leva os mundos”.
O Amor de Leornado Coimbra tem uma dimensão cosmológica, em que os elementos do universo se relacionam entre eles de forma amorosa “A terra como que quer no seu centro de gravidade a presença de todos os corpos que a habitam. Este querer elementar e constante é o apoio dos nossos pés……a nossa mais elementar relação cósmica. O Sol quer no seu centro de gravitação a presença de todos os membros do seu sistema solar.” Esta visão cósmica do Amor, de onde se depreende uma força que tudo congrega e harmoniza, uma permanente atividade organizadora. Célio acaba por concluir que a gravidade é o Amor maternal da terra e a gravitação o Amor sideral do Espaço. É esta relação de ordem cósmica que perpassa para a alma do Homem e a liga inexoravelmente numa relação dialética evolutiva a outras almas.
A interação entre os homens é pautada pelo Amor que está na origem da coexistência social. Esta coexistência de plurais, vivendo em harmonia, pode remeter-nos para o pensamento monadológico de Leibniz, contudo, devemos corrigir o seu pensamento tendo em conta uma visão plural do mundo. Não é aceitável para Leonardo Coimbra que cada mónada seja o próprio Universo, não é possível considerar neste filósofo a existência de absolutos singulares que, no caso, conduziriam, e seguindo o espírito do diálogo estabelecido no texto Do Amor e Da Morte, aos ritmos secantes de Marcos.

Os singulares vão, segundo o pensamento criacionista, adaptando-se uns aos outros, reagindo a ações, exultando as várias consciências que convivem e se penetram. Existe uma ação de presença que está embebida de força, a força do Amor. Para Célio, a força é entendida como a massa da mecânica e a força da mecânica é a Simpatia Social Universalizante. “Eis o Romance. Um mundo de simpatias, em que cada coração pode marcar, no ritmo que adota, a sua fraternidade com tudo o que estremece.”.
Podemos falar de um panteísmo amoroso em Leonardo Coimbra, tudo é Amor, considerado instância menor de um teísmo.
A dialética criacionista tem subjacente esta força amorosa que se expressa nas múltiplas relações entre os seres e tem em vista uma ascensão que só é verdadeira quando o espírito sobe para melhor compreender Deus; quanto mais se elevar no domínio da espiritualidade mais radicalmente pratica o Amor.
O Amor é incriado, ele é o sustentáculo do mundo e jorra diretamente do centro criador dos mundos.
Para Marcos o Amor é uma lei da vida, é uma pulsão afetiva que lhe dá movimento sendo as leis da biologia que lhe dão a função utilitária da espécie. Esta visão redutora do Amor, transporta Marcos para um caminho sem retorno, onde o fim não é senão a escuridão.
Talvez Marcos nunca tenha experimentado o Amor, e essa é a conclusão a que vão chegando neste diálogo os outros participantes, em particular, Célio. O Amor melhor se experimenta e quantifica na ausência do objeto amado. Não é na presença material que se pode experimentar o verdadeiro amor. Na presença material podemos experimentar as desilusões do primitivo desejo e essa experiência deve ser o sinal de que existe um valor maior. O Amor da mulher, e aqui permita-me quem me lê, também o do Homem, tem essa potencialidade, a do estremecimento dos sentidos e da constatação de que algo mais é preciso para que se entreveja o verdadeiro Amor. A desilusão é um sinal do Amor verdadeiro que se está a insinuar e que nós devemos permitir que nos afague a alma, que nos transporte para um nível superior de transcendência. Podemos, nesta dialética amorosa de desilusões, colecionar na memória das dores a febre e a força que aquece a alma e nos faz amar na ausência, e neste caso “Não será também o Infinito Amor premindo do seu formidável peso a incompreensão niilista daquelas almas?”.
O Amor é um demiurgo, que aponta o destino ao grande foco do infinito. Na relação entre o homem e a mulher, esta é a Branca Fada que carrega o mistério do Amor e que fala metade da linguagem do mundo, e o homem o que fala a outra metade; desse encontro de linguagens, se poderá atingir a unidade, Deus.
Assim pensou o Amor Leonardo Coimbra, nos anos vinte do século passado.
E agora, o que sobra desta visão do Amor, quase divino?

