O nível geral de colaboração global manteve-se estável diante da pressão contínua, mas a sua forma está a mudar à medida que as tensões geopolíticas, os conflitos e a fragmentação pressionam as abordagens multilaterais tradicionais. Tanto para os líderes empresariais como para os governantes, compreender estes padrões em evolução é fundamental para reforçar a resiliência, gerir o risco e promover a prosperidade partilhada.
Em vez de grandes consensos multilaterais, o mundo avança através de alianças mais pequenas, pragmáticas e orientadas por interesses concretos. Esta é a principal conclusão do Barómetro da Cooperação Global 2026, um estudo do World Economic Forum em parceria com a McKinsey & Company, que analisa a evolução da cooperação internacional em cinco áreas críticas: comércio, tecnologia, clima, saúde e segurança.
Com base em 41 indicadores, o relatório destaca onde a cooperação persiste, onde está a enfraquecer e como está a ser reconfigurada em resposta às realidades económicas, políticas e tecnológicas em mudança.
Cooperação global: menos ambição coletiva, mais pragmatismo
Num contexto marcado por tensões geopolíticas, conflitos armados, protecionismo económico e desconfiança institucional, seria expectável um colapso da cooperação internacional. Não foi isso que aconteceu. O barómetro mostra que o nível agregado de cooperação se manteve praticamente inalterado face aos anos anteriores – mas a sua composição mudou de forma estrutural.
Os mecanismos multilaterais clássicos enfraqueceram. Em contrapartida, ganharam peso formatos mais flexíveis, como coligações regionais, acordos setoriais e parcerias entre países alinhados estratégica ou economicamente. Este fenómeno, frequentemente descrito como minilateralismo, está hoje no centro da governação global.

Comércio e capital: menos globalização, mais reconfiguração
A cooperação no comércio e no capital estabilizou, mas com mudanças profundas. O comércio de bens cresceu abaixo do ritmo da economia global, pressionado por barreiras comerciais e tensões geopolíticas. Ainda assim, não está em retração – está a ser redesenhado.
As trocas deslocam-se progressivamente para parceiros considerados mais ‘alinhados’, enquanto os fluxos de serviços digitais e de capital continuam a crescer. O investimento direto estrangeiro concentra-se cada vez mais em setores estratégicos, como semicondutores, centros de dados, inteligência artificial e minerais críticos, refletindo uma lógica de segurança económica.
Tecnologia e inovação: cooperação seletiva num mundo mais controlado
A cooperação em inovação e tecnologia foi uma das áreas que mais cresceu. Os fluxos internacionais de dados aumentaram, a largura de banda global quadruplicou desde antes da pandemia e o comércio de serviços tecnológicos mantém uma trajetória ascendente.
No entanto, este crescimento convive com restrições crescentes. Controlo de exportações, limitações à mobilidade de talento e barreiras à partilha de conhecimento – sobretudo entre Estados Unidos e China – tornam a cooperação mais seletiva. Ainda assim, surgem novas alianças em torno de IA, 5G e infraestruturas digitais, sobretudo entre países com interesses convergentes.
Clima: mais investimento, resultados ainda insuficientes
A cooperação climática aumentou, impulsionada pelo comércio de tecnologias limpas e pelo crescimento do financiamento climático. A instalação de energia solar e eólica atingiu níveis recorde, e as economias emergentes ganharam um papel central nesta transição.
Apesar disso, os resultados continuam aquém do necessário. As emissões globais continuam a crescer e a proteção do capital natural estagnou. O relatório mostra um paradoxo claro: mais cooperação operacional, mas impacto ainda insuficiente para cumprir os objetivos do Acordo de Paris.
Saúde global: estabilidade aparente, fragilidade real
Na saúde e bem-estar, os indicadores agregados mantêm-se estáveis, com melhorias na esperança média de vida e na mortalidade infantil. Mas esta estabilidade esconde um risco estrutural: o financiamento internacional para a saúde caiu de forma acentuada.
A redução da ajuda multilateral está a transferir custos para países de baixo e médio rendimento, colocando em causa a sustentabilidade dos sistemas de saúde. O progresso atual pode, assim, revelar-se temporário.
Segurança e paz: o maior ponto de rutura
A cooperação em paz e segurança é o pilar mais fragilizado. Todos os indicadores analisados estão abaixo dos níveis pré-pandemia. Os conflitos armados intensificaram-se, o número de deslocados forçados atingiu máximos históricos e os mecanismos multilaterais de resolução mostram-se cada vez menos eficazes.
Ainda assim, o relatório identifica sinais de esperança em iniciativas regionais e acordos de mediação promovidos fora das grandes estruturas internacionais.
Uma nova lógica de cooperação
A principal mensagem do Global Cooperation Barometer 2026 é clara: a cooperação global não morreu, mas deixou de ser universal. O futuro passa por formatos mais ágeis, por alianças orientadas a objetivos concretos e por uma combinação de interesses nacionais com desafios globais.
Para governos e empresas, o desafio já não é decidir se cooperar, mas como, com quem e em que fóruns. Num mundo fragmentado, a capacidade de navegar estas novas arquiteturas de cooperação torna-se um ativo estratégico.



