Numa Era em que se julga estar tudo ligado, catástrofes naturais, apagões e falhas de energia levam ao corte de comunicações e ao isolamento das pessoas. Internet, eletricidade, redes móveis, dá-se tudo como garantido. Hoje, isso acabou.
As soluções para as quebras de estruturas de comunicação, passam por tendências que parecem futuristas, mas na verdade é um nostálgico regresso ao passado. A comunicação off-grid, diz respeito à troca de mensagens, voz ou dados sem depender de infraestruturas públicas (redes de telemóvel, internet ou satélites) através de tecnologias próprias, como LoRa e redes Mesh.
Já utilizada em locais remotos, em emergências e eventos de grande lotação de pessoas, estes sistemas usam rádio frequência o que permite uma comunicação privada, independente de operadoras.
Comunicar sem histórico, sem nuvem, sem vigilância
Segundo avançou a Lusa, o empresário Jack Dorsey, um dos criadores do Twitter e do Bluesky, lançou o Bitchat, uma aplicação de mensagens descentralizada e encriptada que utiliza a rede de conectividade Bluetooth e uma rede mesh.
Ainda em fase de testes, o Bitchat vem revolucionar a forma como comunicamos, ao dispensar servidores, contas e recolha de dados. Para Jack Dorsey, trata-se de uma experiência que recupera o espírito do antigo IRC, mas adaptada a um mundo cada vez mais preocupado com a privacidade e resistente à censura.
Dorsey é conhecido pelas suas criações tecnológicos, incluindo a rede social Twitter (agora X), que fundou em 2006; a empresa de pagamentos Square (agora Block), em 2009; ou a Bluesky, uma rede alternativa à X, que fundou em 2019, e em cujo conselho de administração trabalhou até à sua saída, em 2024. O empresário é um forte defensor do código aberto para contrariar o domínio das grandes empresas sobre as tecnologias, incluindo a inteligência artificial (IA).
Apesar não ser ainda um produto pronto para o mainstream, o Bitchat está atualmente a evoluir de ‘um projeto de fim de semana’ para um teste global real com adoção exploratória em cenários de comunicação em crise, festivais e manifestações e áreas sem conectividade tradicional.
Do universo Stranger Things: walkie-talkies e bicicletas que nunca perdem a ligação
Guerras híbridas de ataques a cabos submarinos, satélites e redes elétricas, crises climáticas e centralização extrema, com sistemas cloud, data centres e Big Tech levam à pergunta: “E se isto tudo deixar de funcionar?”.
É inevitável a ligação entre o tipo de comunicação ‘fora da rede’ com a série de ficção da Netflix Stranger Things, passada na década de 1980, na pacata cidade de Hawkins, onde um grupo de amigos, entre os 10 e 12 anos, envolve-se numa série de eventos sobrenaturais.

O sucesso do fenómeno Stranger Things que mostra como miúdos de bicicleta e com walkie-talkies nas mãos ‘salvam o mundo’, não é só sobre nostalgia. É também uma resposta atual a três cenários que ninguém quer ver concretizados na vida real: a perda de voz, autonomia e ligação.
Quando tudo falhar, ainda conseguimos falar? Para Jack Dorsey, criador do Bitchat, a resposta é sim. Embora utilizar bluetooth seja um tipo de tecnologia digital, a ideia leva ao retorno à comunicação direta e simples, comparável aos walkie-talkies ou rádios de mão em vez de uma infraestrutura global da Internet.
Estes aparelhos são ícones post-digitais que dão resposta a uma ansiedade latente do colapso, do momento em que a infraestrutura deixa de ser invisível e falha. A tendência de “low-tech revival” e “appropriate technology”, com recurso a ferramentas simples, compreensíveis e sustentáveis não rejeita o digital, mas reconhece o seu esgotamento.



