Nos últimos meses, milhares de anúncios de emprego continuam a aparecer no LinkedIn, Indeed, e outros portais — mas quando os candidatos se candidatam, a resposta é muitas vezes escassa ou inexistente. Entre relatos de vagas que nunca são preenchidas e dados oficiais que mostram taxas de emprego abaixo da média europeia, surge uma pergunta desconfortável: Portugal tem mercado de trabalho saudável, ou muitas das vagas que vemos são, na prática, 'vagas fantasma'?
Segundo os dados mais recentes do Eurostat, apenas 1,4% dos postos de trabalho em Portugal estavam vagos no terceiro trimestre de 2025, um dos valores mais baixos da União Europeia — muito abaixo da média de 2,0% na UE e de 2,1% na zona euro.
Estes números colocam Portugal entre os países com menos vagas de emprego no bloco comunitário, apesar de frequentemente ouvirmos anúncios de contratação em plataformas digitais. Dados nacionais mais recentes mostram que o total de vagas efetivas caiu nos últimos meses: em dezembro de 2025 havia cerca de 5 745 vagas registadas, um número consideravelmente inferior ao de meses anteriores.
Vagas fantasma: o que os números não mostram
A ideia de que há muitas vagas anunciadas que parecem nunca avançar para contratações reais não é apenas uma percepção de alguns candidatos. Existe um termo reconhecido na literatura e na investigação sobre o tema: ghost jobs (vagas fantasma). Trata-se de anúncios de emprego que aparecem online, mas que não correspondem a uma posição com intenção real de contratação.
Em análises internacionais, um estudo da plataforma de recrutamento Greenhouse revelou que entre 18% e 22% das ofertas publicadas podem ser classificadas como ghost jobs, ou seja, não se traduziram em contratação real no período analisado. Outro levantamento indica que cerca de 20% de vagas online podem não corresponder a intenções reais de contratação, permanecendo visíveis sem entrevistas, sem movimento no processo nem ofertas concretas.
O fenómeno não é exclusivo de um tipo de empresa ou setor: pode resultar de anúncios repetidos, vagas permanentes que se reproduzem nas plataformas digitais ou posições publicadas por departamentos de recursos humanos sem orçamento aprovado para contratação. Características identificáveis incluem:
- Listagens que permanecem abertas por meses sem atualizações, entrevistas ou resposta a candidaturas.
- Reposta sistemática do mesmo anúncio em períodos curtos.
- Descrições vagas ou genéricas que não explicam claramente responsabilidades ou requisitos.
Este padrão leva candidatos a investir tempo a personalizar currículos e cartas de apresentação sem que a posição exista de facto ou esteja prestes a ser preenchida. A própria definição académica de ghost job reconhece que situações em que nem há intenção de contratar são amplamente documentadas e distorcem a percepção do mercado de trabalho real.
Por que tantos anúncios nunca resultam?
Existem três explicações corporativas para este paradoxo:
Construção de bases de talento
Alguns departamentos de recursos humanos mantêm vagas abertas permanentemente para acumular currículos de candidatos que possam interessar futuramente. Essa prática inflaciona o número de ofertas visíveis, mesmo sem contratação imediata.
Falta de alinhamento entre RH e necessidade real
Em muitas empresas, especialmente grandes grupos, o departamento de RH publica vagas enquanto a contratação efetiva depende de decisões de outras áreas (financiamento, aprovação interna, reorganização estratégica). Isso gera anúncios que não avançam para entrevistas ou propostas concretas.
Mercado em contradição
Segundo o Guia Hays 2026, 52% dos candidatos portugueses recusaram pelo menos uma oferta de emprego em 2025, o valor mais elevado desde que esta métrica é acompanhada em Portugal. O salário foi o principal motivo, citado por 62% dos profissionais que rejeitaram ofertas.
Entre o digital e a realidade: o mercado de trabalho em Portugal
Enquanto plataformas como LinkedIn ou Indeed mostram dezenas ou centenas de vagas anunciadas por dia, os dados oficiais pintam um quadro diferente: Portugal tem uma taxa de vagas por ocupar abaixo da média europeia, e a tendência não é de crescimento acelerado nos últimos trimestres.
Isso não significa que não existam setores com escassez pontual de profissionais — tecnologia, serviços e logística podem enfrentar dificuldades — mas indica que muitas ofertas podem não corresponder à realidade de contratação efetiva, refletindo práticas corporativas mais orientadas para percepção de mercado do que para necessidades concretas.

Este fenómeno enquadra‑se num contexto mais amplo de transformações no recrutamento e nas dinâmicas entre candidatos e empregadores em Portugal, como destacado num artigo da Líder sobre a crescente adoção de inteligência artificial nos processos de procura de emprego e na forma como as empresas estão a adaptar as suas práticas de recrutamento.
Consequências para candidatos e empresas
O fenómeno das vagas fantasma tem impactos distintos, mas significativos, para ambos os lados do mercado laboral.
Para os candidatos: Perda de tempo e energia ao submeter currículos a posições que nunca avançam; Frustração com processos sem retorno.; Expectativas sobre o mercado de trabalho que não se confirmam, dificultando decisões futuras sobre candidaturas e planos de carreira.
Para as empresas: Perda de reputação como empregador, prejudicando a atração de talento; Bases de dados com muitos perfis que não convertem em contratações; Desalinhamento entre a oferta apresentada e a real necessidade de talento dentro da organização.
No conjunto, este cenário revela um mercado que, apesar de aparentar dinamismo nas plataformas digitais, enfrenta desafios sérios de eficiência, transparência e credibilidade.
O mercado por cá
O mercado de trabalho em Portugal está longe de ser um “vale de oportunidades infinitas”, como alguns anúncios digitais podem sugerir. Os números oficiais mostram que as vagas efetivas são poucas em comparação com a dimensão total do emprego, e muitas empresas enfrentam dificuldades de alinhamento entre intenção de contratar e contratação real.
Numa economia em que os candidatos estão cada vez mais exigentes e as empresas mais cautelosas, a ilusão das vagas abertas é um fenómeno que transforma a perceção do mercado, mas ainda carece de mais transparência e rigor para ser desvendada de forma definitiva.



