Nove em cada dez executivos de topo em Portugal estão otimistas quanto ao crescimento económico em 2026, depois de um ano em que sete em cada dez empresas reportaram aumento dos lucros. Ainda assim, o investimento em Inteligência Artificial (IA) permanece aquém da média internacional, revelando uma abordagem cautelosa à transformação tecnológica.
As conclusões constam do mais recente barómetro C-Suite da Forvis Mazars, divulgado esta semana em Lisboa, que analisa as prioridades estratégicas e os desafios enfrentados pelos líderes empresariais nacionais num contexto global marcado por incerteza económica e crescente concorrência.
Crescimento com prudência
Apesar do ambiente externo volátil, o estudo revela um sentimento positivo entre os gestores portugueses. O Índice de Confiança situa-se nos 20%, com um em cada cinco executivos a declarar-se «muito confiante» na capacidade de gerir as principais tendências que afetam o negócio.
A expansão internacional, a entrada em novas categorias de produtos ou serviços e a reestruturação com redução de custos surgem como prioridades estratégicas. Em paralelo, 58% das empresas planeiam aumentar o investimento, sobretudo em áreas já testadas, como aquisição de clientes, sistemas de TI e digitalização e planeamento da continuidade do negócio.
IA lidera agenda tecnológica — mas investimento é reduzido
A Inteligência Artificial destaca-se como a principal prioridade em termos de transformação tecnológica, apontada por 47% dos executivos, seguida do crescimento das receitas e do reforço de parcerias internas e externas. Ainda assim, menos de metade dos líderes afirma ter definida uma estratégia clara de transformação tecnológica para 2026.
Em termos de retorno esperado, os executivos mostram maior confiança na IA, na automatização e nas soluções de cibersegurança e gestão de risco. Contudo, os níveis de investimento permanecem baixos: apenas 2% das empresas portuguesas investem mais de um quinto do orçamento em IA, uma diferença significativa face aos 15% registados a nível global.
Impacto nas equipas e preocupações éticas
A adoção da Inteligência Artificial já começa a alterar a estrutura das organizações. Segundo o estudo, 15% dos líderes afirmam que a IA substituiu funções existentes, enquanto 38% indicam que a tecnologia contribuiu para a criação de novos papéis. Três em cada cinco participantes referem ter reestruturado equipas para integrar soluções baseadas em IA.
Mais de metade das empresas utiliza a tecnologia para previsões, eficiência interna, criatividade e aquisição de conhecimento, sobretudo para otimização operacional e melhoria da tomada de decisões. Ainda assim, persistem reservas: quatro em cada cinco executivos reconhecem preocupações éticas, sendo que um terço considera essas questões particularmente relevantes.
Incerteza económica e concorrência como riscos
Entre as tendências externas com maior impacto nos negócios em Portugal, os executivos apontam a IA, o aumento da concorrência, as novas tecnologias, a agitação social e a evolução dos modelos de trabalho. Estes fatores contribuem para uma postura simultaneamente otimista e prudente por parte das lideranças empresariais.
Citado no relatório, Sérgio Santos Pereira, Country Managing Partner da Forvis Mazars em Portugal, refere que «o novo ano apresenta um horizonte positivo de crescimento», mas sublinha que a incerteza económica global exige cautela. O responsável destaca ainda que, embora a transformação tecnológica esteja no topo das prioridades, existe «muito caminho por trilhar», refletido no reduzido número de empresas que já alocam uma fatia significativa do orçamento à Inteligência Artificial.



