Tenho observado que os temas da empatia e da compaixão começam a sair do mundo académico e a integrar o léxico empresarial. A investigação destes temas no âmbito do comportamento organizacional e da liderança tem cerca de duas décadas, mas até há um par de anos eram palavras que não se ouviam nos corredores das […]
Tenho observado que os temas da empatia e da compaixão começam a sair do mundo académico e a integrar o léxico empresarial. A investigação destes temas no âmbito do comportamento organizacional e da liderança tem cerca de duas décadas, mas até há um par de anos eram palavras que não se ouviam nos corredores das empresas. Ainda hoje serão vistas, por muitos, como conceitos alienados da realidade porque “é tudo muito bonito”, mas há objetivos para atingir.
Vem a pandemia e com ela uma série de mudanças. Novas formas de organizar o trabalho, de comunicarmos, de nos relacionarmos, cada um ainda mais agarrado ao seu ecrã. Creio que a Covid-19 trouxe acima de tudo uma nova necessidade: a de estarmos confortáveis com a incerteza.
As pessoas estão cansadas e ansiosas. Cansadas da adaptação constante, de não saberem o que aí vem, de sucessões de reuniões por zoom, umas atrás das outras, sentadas na mesma cadeira. Já para não falar de quem perdeu o seu trabalho, ou, pior, de quem perdeu um ente querido, de quem não se conseguiu despedir. Mais de metade da população portuguesa diz-se afetada psicologicamente pelo contexto pandémico (dados de 2021 da Ordem dos Psicólogos). Nunca se falou tanto, nem tão abertamente, da doença e da saúde mental. Sucedem-se os artigos e podcasts sobre burnout e o tão almejado equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal.
Uns gerem o fenómeno melhor do que outros, mas quem está à frente de equipas e de organizações tem que estar atento e disponível para esta fragilidade, ou melhor, para esta humanidade. É que as pessoas, na verdade, são pessoas.
Foi, por isso, com grande surpresa (e tristeza, assumo) que, quando analisei as respostas de 87 líderes em Portugal no âmbito de um estudo sobre os principais desafios que o “novo normal” trouxe para as lideranças, constatei que apenas 16% (!) percecionava o controlo da ansiedade e do stress como uma necessidade dos seus colaboradores.
Se por um lado me apercebo que se começa a falar mais em empatia nas organizações, por outro, temo que não passe de uma “trend”, uma buzzword, que já ganhou importância de hashtag no Linkedin. Desconfio, até, que muitos desconhecem o que é a empatia. Confundem a prática com simpatia ou ter pena, ou ser generoso, ou com ter de concordar. Empatia é a capacidade de compreender as emoções e as necessidades do outro. De reconhecer a humanidade que partilhamos. Todos, sem exceção.
Deixo, por isso, um repto, um pedido ou tão somente um desejo: por favor, não façam da empatia o novo cliché da liderança.

Por Sara Midões, Docente e especialista em Liderança Positiva
