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Reportagens

O caminho que nasce nas rampas e se negoceia no digital é de todos

O caminho que nasce nas rampas e se negoceia no digital é de todos

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19 Dezembro, 2025 | 19 minutos de leitura

Rui, Diogo e Benedita vivem um quotidiano onde cada passo, cada plataforma e cada papel exige atenção total. Apesar disso, o mundo parece observar de longe, alheio à minúcia das suas batalhas invisíveis. Há terapias, estações ferroviárias, leis e rotinas digitais, e a vida só ganha sentido quando se consegue simplificar o impossível, transformar obstáculos em caminhos e pequenos gestos em vitórias. A legislação europeia abre portas, mas não substitui o esforço de existir com autonomia. A acessibilidade deixa de ser detalhe técnico e torna-se prática, direito e poesia do dia a dia. 

A história de Rui Batista começa num diagnóstico que lhe moldou a infância: glaucoma congénito. Eram operações atrás de operações, idas ao hospital marcadas como estações do ano. Viu – pouco, o suficiente para distinguir formas, luzes, o vulto da mãe – até à idade adulta. Aos 23 anos, entra na sala de cirurgias para tentar um transplante de córnea. Sai de lá sem ver nada. «A minha visão servia para brincar, mas não para muitas coisas», diz hoje, com a voz de quem já não mede tragédias, apenas factos. 

Tem 37 anos, é engenheiro informático e pai da Laura, quase a completar um ano. Mudaram de casa há pouco tempo e Lisboa continua difícil, mas habituou-se a vencê-la pelas margens. A escuridão chegou cedo. A vida chegou depois.  

Rui Batista posa para a foto sorridente, com a sua bengala longa.

A rotina de Rui é um mapa invisível. Acessibilidade, trânsito, passos contados, obstáculos que não deviam estar lá, mas estão. «As cidades são um caos», diz sem raiva, só cansaço. «Os obstáculos móveis tornam tudo imprevisível. Há um desgaste mental enorme. Insegurança, risco, esse peso todo.» 

A filha trouxe outra escala ao quotidiano. Carrinho, fraldas, rotinas novas, tudo o que exige mãos livres num corpo que vive da atenção permanente. «As deslocações são complicadas, ainda mais com um bebé.» O digital facilita; o papel continua a ser um muro.

«No formato digital é mais fácil. No papel, tudo é limitativo.»

O mesmo acontece nas leis: algumas estão mal escritas, outras mal aplicadas. «As pessoas cegas não podem fazer escrituras por causa de uma lei antiga. Fala de analfabetos. A semântica é fundamental… Mas continua lá.» 

A ACAPO – associação portuguesa de apoio a pessoas com deficiência visual da qual Rui foi Diretor – afirma que, em muitos casos, pessoas cegas são tratadas como se fossem ‘analfabetas’ nas transações bancárias ou notariais, mesmo quando alfabetizadas: por não poderem assinar de forma tradicional, são obrigadas a recorrer a assinatura a rogo ou a renunciar a determinados atos públicos. 

Houve conquistas que não apareceram nos relatórios médicos. Uma delas foi um Interrail improvável. De um grupo, quase todos se baldaram, ficaram dois, Rui e uma amiga. «Somos todos iguais quando viajamos», diz. É talvez a frase que melhor resume a sua relação com o mundo. A deficiência não desaparece, mas também não define o que se é. 

Rui sabe desmontar sistemas, mas também sabe quando a tecnologia falha onde promete. «A tecnologia torna muitas coisas possíveis. Ler um menu, saber quanto tempo falta para o autocarro… Mas há tecnocapacitismo. A tecnologia pode ser uma forma de exclusão.» 

Os leitores de ecrãs são uma ferramenta essencial. Mas nem sempre funciona com a fluidez que devia. Pequenas falhas, pequenos esquecimentos de design, que para uma pessoa cega são barreiras completas. A rede de apoio é pequena, mas sólida. A companheira, Irina, também tem baixa visão. Conheceram-se na escola primária, depois perderam-se. «Há dois ou três anos voltámos a falar… E olha, aconteceu.» 

Ambos sabem o que é viver no limite das probabilidades diárias. Ambos sabem que, para existirem, precisam de organização, humor, paciência. «Pensamos muitas vezes em ter um assistente pessoal. Faz sentido. Mas por enquanto temos apoio familiar.» Não quer privilégios; quer condições mínimas para viver a vida. «Nós beneficiamos as sociedades, pagamos impostos. Tenho mais custos por ser cego. A ignorância não é um crime. Mas não querer saber… É duro», desabafa.  

 

Chapas de ferro, elevadores e a paciência de quem não vê barreiras 

A rampa cai com um clangor prolongado. Uma chapa de ferro, lançada pelo revisor, manual, quase artesanal. O comboio não vai cheio, nem vazio. Benfica está naquele intervalo de ruído em que as chegadas já se cruzam com a pressa dos que querem sair dali antes da hora de ponta. Diogo Cunha Martins, Conselheiro para os Clientes com Necessidades Específicas da CP, 36 anos, desde sempre com Distrofia Muscular de Ulrich – «uma mutação genética que impede os músculos de crescerem como deviam». Desce pela rampa devagar. O assento da cadeira obedece à mão direita que manipula cada comando: sobe, desce, ajusta. Ao lado, o assistente pessoal e amigo, Romário, leva no bolso a rotina mais delicada de todas: quando o fôlego fraqueja, é ele quem troca o tubo que o ajuda a respirar. A respiração cansa-se; o ímpeto não. 

«Sinto que há sempre vontade de fazer coisas boas. O que não há é disponibilidade.» Di-lo sem amargura, mas com a frieza de quem já esteve demasiadas vezes em reuniões onde tudo parece avançar, desde que não se mexa em nada. O caminho dentro da CP é complexo, diz ele: «Nós não temos o poder económico de outros operadores. Não podemos simplesmente comprar comboios novos.» É diagnóstico clínico, mapa de restrições, realidade nua. A frota é antiga. Muito antiga. «Grande parte dos nossos comboios são anteriores aos anos 90. Não foram pensados para pessoas como eu.»  

Diogo Cunha Martins na plataforma da estação de comboios de Benfica, na sua cadeira de rodas, enquanto olha para o comboio que parte da Linha 4, em direção ao Rossio.
O revisor da CP fala, sorridente, com Diogo, que está a entrar no comboio com recurso a uma rampa metálica.

A conversa torna-se arqueológica: cada modelo, cada plataforma, cada detalhe da engenharia ferroviária parada no tempo. Só os Alfa Pendular nasceram acessíveis. Finais dos anos 90. «Foi o primeiro grito da indústria», diz. Botões calibrados, informação luminosa, elevadores, casas de banho que aceitam cadeiras de rodas sem episódios.  

Em Portugal, segundo os Censos de 2021, cerca de 10,9% da população com cinco ou mais anos, aproximadamente 1 073 000 pessoas, vive com pelo menos uma incapacidade. As dificuldades de mobilidade são as mais penalizadoras para o emprego, afetando sobretudo mulheres, enquanto a incapacidade visual é menos impactante no mercado de trabalho. 

O país funciona assim: décadas de negligência, e só a avalanche legislativa europeia obriga à modernização. Há elevadores novos, rampas, casas de banho reconfiguradas. Mas existem limites físicos. Limites políticos. E, claro, há aquilo que não depende da CP: «Não podemos modernizar estações. Isso cabe à Infraestruturas de Portugal. Há sítios onde as plataformas nunca foram mexidas.»  

É aqui que entra o European Accessibility Act (EAA). Aprovado em 2019 pela União Europeia, só passou a ser efetivo em junho de 2025. O objetivo é direto: reduzir lacunas, eliminar barreiras e tornar produtos e serviços acessíveis de forma uniforme em todos os Estados-membros. A diretiva abrange serviços bancários, sites de e-commerce, e-books e chamadas de emergência para o 112, mas concentra-se sobretudo em websites e apps ligadas a transportes, bancos, telecomunicações e comércio digital. A promessa é clara: a acessibilidade deixa de ser opcional, passa a ser prática obrigatória. 

Diogo desvaloriza, embora com precisão técnica: «Para nós, operadores ferroviários, não trouxe revolução. Já éramos obrigados a cumprir muitas normas por legislação europeia.» Onde mudou? No digital: «O site, a app, tudo o que é comunicação tem de ser acessível num nível que antes não era obrigatório.» E adianta: «É um risco quando a tecnologia não acompanha. Pode excluir.»  

Quanto ao processo legislativo, não precisa de pensar muito: sente-se mais ouvido na Europa do que em Portugal. Mas o mais interessante vem depois: «Há resistência quando uma pessoa com deficiência entra como profissional. Não quando entra como beneficiário. Não quando entra como testemunho. Quando entra como voz técnica. Há sempre uma ideia pré-concebida, de que estou a representar uma associação. Não estou. Estou ali como especialista.» 

A conversa muda de tom. Não por causa do comboio, nem da legislação, mas das pessoas. Diogo pausa, observa a linha enquanto um comboio oriundo de Sintra passa devagar. «Há um problema de empatia… Mas não se resolve isso dizendo às pessoas para serem empáticas. Nunca conheceram alguém com deficiência. O desconhecimento repete-se de geração em geração.» Fala do João Catarré numa novela, do drama preguiçoso da tragédia, e conclui quase como mantra:

«Somos pessoas. Não é para romantizar nem para desvalorizar. Somos pessoas. Com tudo o que isso implica.» 

No futuro próximo, há algo que o ilumina: os novos comboios. Em muitas estações, a entrada será direta, ao nível da plataforma. Sem rampas, sem elevadores improvisados, sem olhares de plateia involuntária. Serão momentos banais, finalmente banais: entrar e sair. «Como qualquer pessoa», aponta, com ternura técnica e alegria contida. 

 

Uma diretiva que abre mais portas do que parece 

Tiago Fortuna é co-fundador da Access Lab, uma empresa de impacto social que transforma as experiências de acessibilidade para pessoas com deficiência, neurodivergentes e surdas. A organização nasceu em 2022, a bordo de uma forte paixão de Tiago que, sendo ávido consumidor de concertos e deslocando-se numa cadeira de rodas desde os quatro anos, sempre se deparou com entraves em eventos culturais, nomeadamente na mobilidade e acompanhamento.  

Mas, em retrospetiva, afirma sem rodeios que « os últimos 10 anos trouxeram muitas coisas para as pessoas com deficiência.» Entre a prestação social para a inclusão, modelo de apoio à vida independente e a lei das quotas, o caminho percorre-se, devagar. «Acho que todas [as medidas] têm um contributo muito significativo para a autonomia e para a dignidade das pessoas com deficiência», acrescenta. 

Agora, o EAA tem em si o poder de «obrigar uma série de serviços que estão concentrados no setor privado a transformarem-se e a ajudarem a economia a avançar». É uma diretiva que se traduz numa imposição ao mercado e aos serviços, relembrando que estas pessoas também são consumidoras, clientes reais. «É uma oportunidade para não deixarmos que estas vozes sejam silenciadas com tudo o que está a acontecer no mundo», garante. 

E acrescenta: «Fico especialmente motivado com esta diretiva porque, neste momento ‘pós-woke’, tratar estas pessoas como clientes já não é uma questão de privilégio ou relevância mediática. É simplesmente uma questão de estarem na sociedade e terem uma vida ativa». 

Fotografia de Tiago Fortuna, na sua cadeira de rodas, na sala de espetáculos do Teatro Nacional D. Maria II.

Também a sociedade reage e, por norma, divide-se, na forma como encara esta comunidade. Ou mostra uma abordagem «assistencialista e caritativa, que é dominante», ou tem uma visão «autónoma e independente». «Acho que muito está a mudar por vontade das pessoas, de uma consciência pública que está a despertar. Por uma série de leis que surgiram e por um cenário internacional que nos permitiu chegar aqui». 

Quanto aos temas que lhe tocam especialmente, Tiago encara como grandes vitórias a assistência pessoal, que «está a transformar completamente a sua vida» ao dar-lhe autonomia para viver na sua própria casa, e o panorama cultural, em que a Access Lab se foca. E outro grande passo foi dado a três de dezembro, no Dia Internacional da Pessoa com Deficiência: o Partido Socialista apresentou um pacote de leis que inclui a gratuitidade dos bilhetes de acompanhante de pessoas com deficiência para eventos em espaços públicos, uma luta que Tiago tem travado há 13 anos.  

Apesar de contar vitórias, o futuro preocupa-o, entre conjeturas políticas e o aumento do custo de vida, que são ameaça constante. Mas mantém-se otimista e resiliente. «Não quero soar presunçoso, mas acho que nós, enquanto comunidade, estamos preparados para o embate. Vai ser possível não apenas resistir, porque não é apenas uma questão de contestação, mas mostrar que vamos continuar a trabalhar pela lei das quotas, escolaridade, acesso ao emprego, à banca, ao que for.» 

 

Encontrar lugar cativo no hemiciclo  

A proposta apresentada pelo PS prometeu ser interseccional e não deixar ninguém para trás. Lia Ferreira, deputada socialista, esteve envolvida no pacote legislativo apresentado em dezembro e garante que se está a dar continuidade a motivações antigas. A acessibilidade é um tema que lhe é caro, não fosse o seu mestrado em Estudos da Deficiência e Direitos Humanos e o facto de se deslocar em cadeira de rodas. Garante que, agora mais do que nunca, é preciso reforçar os direitos das pessoas com deficiência. «A nível mundial, não só na Europa como fora, estes direitos estão a ser cancelados por movimentos que estão a chegar ao poder e a afirmar-se», revela. 

Este é o início de «um pacote que se quer muito maior», em áreas que a deputada espera estarem acima dos interesses de quem se senta no hemiciclo. «Contamos que todas as forças partidárias compreendam que isto é, nada mais nada menos, do que o cumprir da Convenção das Nações Unidas sobre os direitos das pessoas com deficiência e que nos acompanhem». 

Desde as decisões até à implementação plena e efetiva da lei há sempre um hiato temporal e o EAA não é exceção. Na transposição da diretiva europeia para o enquadramento legal português, a deputada deu apoio a um ponto de vista construtivo, indicando o que faria ou não sentido e como transpor. 

Lia Ferreira, deputada do Partido Socialista

Mas, para Lia Ferreira, o que falta para tornar este processo mais célere é «dar o salto», deixando de ver estas questões com um olhar caritativo. « Não digo que haja má vontade, ninguém quer excluir ninguém. Agora, há, sim, uma história de séculos marcada pela exclusão, que se foi enraizando na forma como nós nos organizamos socialmente e que depois tem repercussões».  

Acrescenta que existe um problema de dados, por não se conhecer de forma aprofundada a realidade sociodemográfica das pessoas com deficiência. «É muito importante conhecermos a população para podermos legislar», atalha. 

Além disso, leis como o EAA trazem impacto não só para as pessoas com deficiência, mas também para idosos ou quem tenha doenças adquiridas ao longo da vida.  «Surgem diariamente no mercado plataformas tecnológicas que não contemplam estas questões. A população padrão existe, o que falta são produtos para a restante parte da população, a que tem problemas.», refere a deputada. 

Sonha ainda com uma acessibilidade que seja respeitada como a especialidade que é, por só assim ser possível acabar com construções que estão completamente desadequadas. «Precisamos de válvulas para que realmente exista um impulso de equidade para podermos falar em igualdade». 

 

«A acessibilidade é contínua, nunca está fechada.» 

No Santander, a acessibilidade deixou de ser um detalhe técnico e passou a orientar decisões estratégicas. A legislação europeia teve peso, mas a mudança começou internamente, enraizada na convicção de que «a inclusão não pode ser um ato administrativo», como afirma Susana Ferreira, Executive Board Member do Santander Portugal. O banco criou um programa pioneiro, começando pela escuta ativa das pessoas com deficiência: cegos, surdos, pessoas com mobilidade reduzida, neurodivergentes e colaboradores internos testaram serviços e adaptações em três balcões-piloto, dando feedback direto sobre o que funcionava e o que precisava ser melhorado. 

Dessa participação surgiram medidas concretas, como a criação de guias de assinatura, que permitem a clientes cegos ou com baixa visão assinarem documentos com autonomia e segurança. Paralelamente, o banco teve de rever produtos e serviços, atualizar softwares, superar limitações tecnológicas e formar equipas técnicas, mudando comportamentos internos.

Susana Ferreira, Executive Board Member do Santander Portugal.

«Cada deficiência exige um atendimento diferente. A adaptação tem de ser simples, autêntica e parte natural do serviço»

E explica que essa abordagem transformou a cultura interna e levou ao reconhecimento do banco com o Selo Entidade Empregadora Inclusiva 2025. 

O desafio seguinte foi impedir que a burocracia diluísse o espírito da mudança. Equipas dedicadas, indicadores de acompanhamento e formação em todas as áreas garantem que a acessibilidade seja um critério de qualidade contínuo. A gestora resume: a mudança foi de «uma abordagem reativa para uma abordagem estruturante e contínua». Para os clientes e colaboradores com deficiência, a diferença é profunda. O investimento do Grupo Santander em 2024 – 166 milhões de euros globalmente, 7,5 milhões em Portugal, beneficiando 153 mil pessoas – evidencia a escala do compromisso, reforçado pela certificação AENOR ‘Compromisso 360º Acessibilidade’. 

Apesar destes avanços, relatórios independentes, como o estudo internacional da Deloitte, mostram que muitas pessoas com deficiência ainda enfrentam barreiras em serviços digitais e ATMs, evidenciando que o setor bancário tem ainda um longo caminho a percorrer. Esse contraste não diminui o progresso, antes sublinha a visão da própria Susana Ferreira: «A acessibilidade é contínua. Nunca está fechada.» 

 

Entre a neurociência e a vida com Amélia 

Formada em Neurociência e Professora no departamento de inclusão de uma escola internacional, Benedita Cyrne observa o mundo com os olhos de quem entende a complexidade do cérebro e das pessoas que o habitam. Mas é em casa, com a filha Amélia, de três anos e neurodivergente e os seus dois irmãos – Vicente, de 10 anos, e Helena, com poucos meses –, que a ciência se encontra com o real: terapias, horários, burocracia e a procura de uma vida ‘normal’ para uma criança que precisa de cuidados específicos. 

«Os maiores desafios no dia a dia foram conciliar o meu horário laboral com o horário de terapias da Amélia», conta Benedita. «A Amélia precisa de terapias, mas não é quanto mais melhor. O excesso faz mal. É um equilíbrio. Terapias suficientes para que ela progrida, mas que lhe permitam ir à escola e ter uma vida de criança.» 

A logística é extenuante. O apoio de entidades públicas limita-se ao horário laboral clássico, das 8h às 16h, e os pais, Benedita e João, tiveram de prescindir das suas carreiras. «Eu comecei por ficar em casa», explica. «Agora é o João que está quase há dois anos debaixo desta rotina. É muito difícil conciliar.» 

Cada dia é uma equação de compromissos. Consultas, escola e atividades que a filha possa frequentar. «Para ela ir às terapias no horário da manhã, faltava a escola. À tarde, tinha de ser recolhida ao meio-dia. É conciliar horários, garantir que ela tenha uma vida o mais normal possível e, ao mesmo tempo, que receba todo o apoio necessário», diz. 

Benedita pega na Amélia ao colo e olha para a filha com ternura.

As despesas multiplicam-se. «Temos, felizmente, seguro, mas a maior parte das especialidades não são compartilhadas no privado», explica Benedita. «Neuropediatria, Neurooftalmologia… As listas de espera no público são eternas. E depois ainda tens terapias fora, alimentação, transporte. Um ordenado e meio mal chega.» 

Mesmo quando há centros especializados, o acesso é limitado. «O centro é ótimo, tem assistente social, psicóloga, fisiatra, terapeutas excelentes. Mas funciona das 8h às 16h. Uma criança que vai à escola não consegue ter todas as sessões», relata. «E se vives longe, o tempo de deslocação rouba horas de terapia.» 

A burocracia é outro desafio. Para obter o atestado multiuso, documento que garante apoios e isenções fiscais, a família esperou quase dois anos. «Quando fomos chamados, ninguém olhou para a Amélia. A reunião durou dois minutos, perguntaram coisas que já estavam nos relatórios. É desgastante», descreve Benedita. «O papel é físico, tens de ir às Finanças, à Segurança Social, ao IMC. Com uma criança com mobilidade reduzida, é uma odisseia.» 

Mesmo atividades lúdicas apresentam barreiras. «Fomos ao Christmas Village em Cascais. Não havia atividades para crianças com mobilidade reduzida», recorda. «Tudo estava muito longe, inacessível. Um dia que devia ter sido divertido tornou-se triste. A Amélia não conseguia interagir. Ficámos a percorrer as casinhas, sem experiência sensorial, sem diversão real.» 

Para ela, a solução passa por inclusão verdadeira desde cedo. «Num mundo utópico, haveria um núcleo de ensino especial em todas as escolas, com terapeutas especializados: fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos. As crianças teriam apoio sem ter de ser retiradas da sala de aula. Não precisávamos de sacrificar as nossas carreiras para que elas recebessem o que precisam.» 

O que Benedita descreve é a combinação de ciência aplicada à vida real, como mãe que sente na pele, onde cada pequeno obstáculo administrativo ou sensorial se transforma numa luta diária. «O esforço não é só meu ou do João. É da Amélia também. Cada passo é uma conquista», conclui. 

 

Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Marcelo Teixeira,
Colaborador

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Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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