Silvio Berlusconi foi incontestavelmente uma figura polémica, multimilionário, magnata dos media, dono do clube de Futebol AC Milan e político. Foi o primeiro-ministro de Itália por três mandatos não consecutivos marcados por acusações de corrupção e escândalos sexuais que culminariam na sua expulsão do Senado, em 2013. Esteve até ao final da sua vida envolvido […]
Silvio Berlusconi foi incontestavelmente uma figura polémica, multimilionário, magnata dos media, dono do clube de Futebol AC Milan e político. Foi o primeiro-ministro de Itália por três mandatos não consecutivos marcados por acusações de corrupção e escândalos sexuais que culminariam na sua expulsão do Senado, em 2013.
Esteve até ao final da sua vida envolvido na cena política italiana, embora não ocupando um cargo governamental, mas como senador e líder do partido que fundou, Força Itália e membro da coligação de direita e extrema-direita atualmente à frente do Governo dirigido pela primeira-ministra Giorgia Meloni. Morreu a 12 junho de 2023, aos 86 anos, por complicações de saúde derivadas de uma pneumonia agravada pela leucemia crónica de que sofria há vários anos.
Nas reações expressas um pouco por todo o mundo, várias personalidades referiram “o um fim de uma era”, o fechar de uma época de liderança de um dos homens mais influentes de Itália.
A Líder fez a pergunta: «Afinal, que tipo de líder era Berlusconi?». Estas foram as respostas.
Arménio Rego, Professor de Organizational Behavior da Católica Porto Business School

Dono de colossal ego e imagem plastificada, alegou que lhe roubaram a eleição. Escapou a escândalos sexuais. Usou a política para fazer negócio. Instrumentalizou o processo legislativo em proveito próprio. Apontou o dedo à justiça. Alavancou a fama para ganhar poder – e usou este para reforçar aquela. Fez piadas parvas. Elogiou Putin. Foi o Trump italiano. Condenado por fraude fiscal e outras ilegalidades, foi democraticamente escolhido para liderar os destinos do país, várias vezes. Que a estabilidade do governo da Srª. Meloni, paladina da família, possa depender das decisões de Marina Berlusconi, a filha do populista, é sintoma de uma triste sina. Eis a questão que me intriga: o que tem conduzido à vitória da indecência?
Aline Hall de Beuvink, Professora e Comentadora política

Sílvio Berlusconi ficou conhecido principalmente pelo seu lado “de macho latino”, rodeado de mulheres, menções às famosas festas Bunga-Bunga e os escândalos na Justiça, em que se apresentou 300 vezes à barra do Tribunal, para ser condenado apenas uma, por fraude fiscal. A prisão afinal foi substituída por trabalho comunitário.
Na realidade, ele é fruto de uma conjuntura de “promiscuidade” entre o plano empresarial e político presente em Itália a partir, principalmente, dos anos 70. Empresário de sucesso no plano imobiliário e, em seguida, no plano de comunicação social, Berlusconi revolucionou a televisão a nível dos canais privados, e esse contributo também ajudou a catapultar a sua carreira política.
Sendo ele assumidamente de centro-direita, deixou como testemunho futuro para a Itália a habilidade de encontrar aliados em grandes coligações e concentrar o eleitorado conservador e anti-esquerda que andava perdido depois do processo “Mãos Limpas”. Foi um primeiro-ministro mais conhecido pelos jogos políticos do que pelas reformas económicas de que a Itália precisava. Sílvio Berlusconi e o seu partido, Forza Itália, eram um só: a grande dificuldade agora é ver se morrerá com ele ou reconfigurar-se-á.
Miguel Pina e Cunha, Professor de Teoria da Organização e Comportamento Organizacional da Nova SBE e Diretor da revista Líder

Tem sido dito e redito: ele foi o pioneiro dos populistas e dos populismos, um líder cheio de defeitos, mas que percebeu que a velha máxima ‘pão e circo’ continua válida – ou não viesse ele de Itália. Foi isso o que ele deu ao povo, sobretudo circo. No circo político ele foi mestre: misturou a política com a bola, mostrou-se em festas bunga bunga, foi atrás dos juízes para que os juízes não viessem atrás dele. Tendo muitos defeitos mostrou-os sem hesitações.
Talvez tenha sido um role model inusitado: amem-se como são. Num país em que, tal como o nosso – onde seguir regras, como estar numa simples fila de trânsito sem passar à frente dos outros é coisa para totós – Berlusconi foi um político igual a toda a gente no que a gente tem de pior. Puxando para baixo, nunca deixou de estar na mó de cima.



