Não é difícil perceber porque é que tantas lideranças falham, basta observar o espelho onde se miram. Quase sempre polido em excesso, quase sempre voltado para dentro, esse espelho devolve uma imagem confortável, vitoriosa, solitária.
Governa-se, decide-se, comanda-se como se liderar fosse um exercício de afirmação pessoal e não, como deveria ser, um gesto contínuo de responsabilidade pelo outro. Há quem confunda liderança com palco, com vitrine, com vitórias acumuladas em currículos que crescem enquanto as pessoas à volta encolhem, cansadas, invisíveis, substituíveis, reduzidas a funções e não reconhecidas como pessoas.
A grande ilusão do nosso tempo é esta: acreditar que ir longe é ir sozinho. Que chegar primeiro basta. Que vencer é suficiente. Não é. Nunca foi. Porque o que verdadeiramente conta, e isto custa admitir num mundo obcecado por rankings, métricas e aplausos, é o que acontece às pessoas depois de passarem por nós. Se crescem. Se ousam. Se se tornam mais inteiras, mais confiantes, mais livres. Ou se, pelo contrário, ficam menores, mais receosas, mais caladas, mais obedientes do que vivas, aprendendo a sobreviver em vez de aprenderem a ser.
Um líder que se sente ameaçado pelo crescimento dos outros já desistiu da sua própria função, mesmo que ainda ocupe a cadeira. Porque quando alguém da equipa vai mais longe do que nós fomos, não está a trair-nos, está a cumprir-nos. É sinal de que abrimos caminho em vez de o fechar, de que vimos antes, acreditámos antes, segurámos quando era mais fácil largar. Liderar não é colecionar dependências nem fidelidades forçadas, é provocar autonomias, mesmo sabendo que um dia já não seremos necessários, mesmo aceitando que o nosso maior sucesso pode ser deixarmos de ser indispensáveis.
Os triunfos pessoais são sedutores, ninguém o nega. Dão estatuto, dão conforto, dão a ilusão de controlo e de permanência. Mas são frágeis. Passam depressa. O tempo encarrega-se de os relativizar, quando não de os apagar. Já o impacto humano permanece, infiltra-se nas histórias, nos gestos, nas escolhas que outros fazem porque alguém, um dia, lhes disse – sem discursos nem slogans, sem frases feitas – tu consegues, mesmo quando tu próprio ainda não acreditas.
Importa, por isso, perguntar menos até onde fui e mais até onde foram os outros por minha causa. Importa observar se à nossa volta há crescimento ou apenas sobrevivência. Se há pessoas mais livres ou apenas mais eficientes. Porque eficiência sem dignidade é só outra forma de desgaste, e liderança sem cuidado é apenas poder mal disfarçado, incapaz de deixar rasto que valha a pena.
No fim, talvez reste isto, simples e exigente: a verdadeira marca de quem lidera não se mede pela distância que percorreu, mas pela coragem que deixou nos outros para caminharem sem ele. E se, quando já não estivermos, houver quem vá mais longe do que fomos, então sim, teremos feito alguma coisa certa. Não por nós. Mas por todos.
Tem sido assim comigo, e é aí que encontro, sem alarde, um dos lugares mais fundos da minha realização pessoal.

