Fala-se da polarização em curso nas nossas sociedades. Mas quem polariza são sempre os outros. E importa saber como acontece a polarização. Eis alguns exemplos recentes com aspeto de polarizadores – sempre feitos pelas melhores razões e em nome de um bem maior.
- Israel não estará em guerra com o Hamas mas a conduzir um genocídio do povo palestiniano. A guerra é horrível e as suas leis poderão estar a ser violadas por Israel, mas isso parece não ser suficiente para demonizar o país. Aumenta-se o nível e passa a ser genocídio para transmitir melhor a mensagem – mesmo que do outro lado se insista na tese dos ataques como uma ‘operação sagrada’.
- Por cá há extrema-direita mas não há extrema-esquerda. Estranho mundo político o nosso. O CDS enquanto partido relevante era fascista. Depois de reduzido a quase nada passou a ser democrático.
- A História ou é um motivo de orgulho pátrio (à direita) ou uma fonte de culpas coloniais que é preciso expiar (à esquerda). Não pode ser simplesmente História, com os seus altos e baixos.
- O governo quer malhar na oposição e invoca o nome de Passos. Pessoalmente sonho ingenuamente com o dia em que um governo não venha responsabilizar o anterior governo (de outra cor política), por aquilo que não consegue fazer ou por aquilo que o país tem de mau.
- O Parlamento parece por vezes o sítio onde se cumprem papéis estreitos e pré-definidos com tonalidades maniqueístas e não o órgão onde se decide como melhorar o país.
O problema é que, por cá como em Israel, é preciso fazer pontes. Depois de demonizar o outro, as pontes ficam destruídas. Será assim tão difícil perceber que os taticismos eleitoralistas estão a matar a democracia? Os consensos geram-se ao centro, com adversários, não com inimigos. Estes movimentos que vemos todos os dias matam a possibilidade dos acordos de regime de que necessitamos como pão para a boca. Vemos essa necessidade todos os dias: na escola, na saúde, na habitação. E insistimos.