Promoção interna ou mudança de função? Apesar do discurso crescente sobre carreiras não lineares, a maioria dos profissionais continua a associar sucesso à progressão hierárquica. Um novo estudo europeu revela como os candidatos avaliam hoje a evolução da carreira.
A progressão vertical mantém-se como a opção preferencial para a maioria dos profissionais. De acordo com o estudo Candidate Pulse – Vertical vs Horizontal Career Change, da Michael Page, 62% dos inquiridos dizem privilegiar promoções internas e a subida na hierarquia, enquanto apenas 26% valorizam mais transições laterais entre funções ou áreas. Os dados confirmam que a evolução vertical continua a ser percecionada como o caminho mais direto para o sucesso profissional, sobretudo por estar associada ao aumento de responsabilidades, reconhecimento e impacto na organização.
Ainda assim, o estudo sublinha que a mobilidade horizontal ganha relevância como estratégia de desenvolvimento, ao permitir a aquisição de novas competências e experiência transversal, mesmo sem assumir cargos de liderança.
A análise baseia-se numa amostra de mais de 6.800 candidatos a emprego na Europa Continental, incluindo Portugal, e avalia fatores como objetivos profissionais, expectativas de progressão, mobilidade interna e mudanças de função ou de setor – elementos-chave para a gestão e retenção de talento.
Álvaro Fernández, Managing Director da Michael Page Portugal, refere: «Em Portugal, mais de metade dos profissionais afirma ambicionar uma progressão vertical, associada a maiores responsabilidades e à evolução nas suas funções. Contudo, persiste um paradoxo: ao mesmo tempo, sentem que as suas organizações não oferecem oportunidades internas claras, nem dispõem de políticas estruturadas de mobilidade. Ou seja, o talento está preparado para avançar, mas muitas empresas ainda não criaram as condições necessárias para sustentar esse crescimento.»
Mobilidade vertical vs. horizontal
Candidatos com menos de 49 anos e profissionais em funções de direção revelam maior propensão para privilegiar a progressão vertical. Setores como engenharia e jurídico destacam-se pela preferência por promoções e ascensão hierárquica, enquanto os profissionais de vendas e marketing tendem a valorizar mais movimentos horizontais.
Já para 70% dos profissionais em Portugal, assumir funções de maior responsabilidade está diretamente associado a um aumento da satisfação profissional. Metade dos inquiridos (50%) destaca igualmente a valorização salarial como um fator determinante. Adicionalmente, 54% acreditam que esse nível acrescido de responsabilidade lhes permite influenciar de forma mais positiva as decisões da empresa.
Barreiras à mobilidade empresarial
Apesar de muitos candidatos considerarem estar preparados para assumir funções de maior responsabilidade, a falta de suporte organizacional continua a ser um obstáculo significativo. A maioria dos profissionais de diferentes gerações (Boomers, Geração X e Millennials) acredita deter as competências necessárias para evoluir para funções de maior exigência e responsabilidade. Ainda assim, 17% referem necessitar de apoio ou formação adicional, sobretudo os profissionais mais jovens e aqueles que não desempenham funções de gestão.
Mesmo sentindo-se capazes, mais de metade (54%) considera que não existem reais possibilidades de crescimento dentro da sua empresa, uma perceção particularmente expressiva entre cargos de direção. Adicionalmente, 26% afirmam que não existem políticas de mobilidade interna, reforçando a distância entre a ambição dos profissionais e as práticas das organizações.
A satisfação no trabalho supera o salário
Os candidatos associam o crescimento vertical ao desenvolvimento na carreira e a novos desafios, mais do que a aumentos salariais. Dois em cada cinco candidatos referem um impacto positivo no salário associado a um aumento de responsabilidades, sendo essa perceção ainda mais relevante para candidatos entre 30 e 49 anos e que não exercem cargos de gestão. No entanto, em Portugal, cerca de metade dos candidatos refere que consideraria uma mudança de função dentro do mesmo nível por motivos financeiros.
54% dos inquiridos consideram que o crescimento na carreira tem impacto positivo nesse equilíbrio, reforçando que a progressão profissional nem sempre afeta o equilíbrio entre trabalho e vida pessoal. Em Portugal, 44% dos profissionais acreditam que ter mais responsabilidades teria um impacto positivo no seu equilíbrio pessoal e 46% dizem que não haveria impacto, confirmando a perceção de que o crescimento profissional não tem de comprometer o bem-estar pessoal.
Momento ideal para assumir mais responsabilidades
A maioria (62%) acredita que três a cinco anos na mesma função é o período mais adequado para procurar uma evolução, embora profissionais mais velhos prefiram períodos mais longos, enquanto os jovens tendem a permanecer de 1 a 2 anos.
No caso dos candidatos portugueses, 31% refere manter-se 1 a 2 anos na mesma função antes de procurar uma mudança, quer seja vertical como horizontal.
Rotatividade e mobilidade interna
Mais de metade dos candidatos identifica a ausência de oportunidades internas como um fator relevante para abandonar a sua empresa e sublinha que as organizações onde trabalham dificultam a mobilidade entre funções. A ausência de políticas estruturadas de rotação e mentoria contribui para níveis mais elevados de insatisfação e rotatividade.
Estes dados refletem uma tendência global: os profissionais que integram empresas com elevados índices de mobilidade interna permanecem, em média, mais tempo nessas organizações (cerca de 60%). Em Portugal, 58% considera que a falta de mobilidade constitui um motivo para procurar uma nova oportunidade profissional.
Mais de metade dos candidatos (57,5%) considera que a sua empresa não promove a mobilidade interna para a função que desempenham. Embora três em cada quatro manifestem abertura para mudar de especialização, menos de metade avança efetivamente nesse sentido, evidenciando a importância de programas de mentoria, rotações estruturadas e mercados internos de talento para ampliar o acesso a novas oportunidades.
Motivadores para mudança de função
O desenvolvimento de novas competências (79%), a procura por novos desafios (75%) e melhores perspetivas de carreira (59%) surgem como os principais fatores que impulsionam a mudança de funções ou de setor.
Em Portugal, 81% dos profissionais já consideraram alterar a sua área de especialização e quase metade (48%) já o fez, motivados sobretudo pelo desenvolvimento de novas competências (80%), pela procura de novos desafios e pela projeção de crescimento futuro.



