A Tecnologia tem sido a maior revolução do século, com especial foco na Inteligência Artificial (IA). Porém, os especialistas começam a advertir para as consequências desta tecnologia que supostamente veio facilitar o nosso dia-a-dia. As escolhas que os investigadores e as empresas têm feito criaram uma enorme riqueza para os seus proprietários e inventores, mas não incluem todos nesta equação.
O que falta para as contas darem certo? As previsões prometem grandes aumentos no PIB e um crescimento exponencial da Economia na próxima década, mas Daron Acemoglu, Professor do Instituto de Economia do MIT, não está tão otimista. Utilizando números de estudos recentes, o investigador estima que apenas 4,6% das tarefas serão afetadas pela IA e tecnologias conexas, o que implica que se verá um aumento da produtividade na ordem dos 0,66% ao longo dos próximos 10 anos, ou seja, 0,06% por ano.
Uma vez que a IA também conduzirá a um boom de investimento, o crescimento do PIB poderá ser um pouco maior, talvez na ordem dos 1% ou 1,5%, ficando aquém das grandes previsões dos especialistas. O que se verifica é que estas tecnologias não têm contribuído para um crescimento uniforme da Economia, com a desigualdade de rendimentos a agravar-se. Acemoglu deixa o aviso: não devemos ser demasiado otimistas sobre a revolução tecnológica, abordá-la de forma acrítica ou deixar que defina a agenda do trabalho.
A automatização tem sido a força motriz
Para as empresas, movidas pelo desejo de cortar custos, é muitas vezes mais fácil simplesmente comprar uma máquina ou software do que repensar processos e investir em tecnologias que tirem partido da IA para expandir os produtos da empresa e melhorar a produtividade dos seus trabalhadores. Este tem sido o modus operandi das organizações. Para Erik Brynjolfsson, Economista e Diretor do Stanford Digital Economy Lab, a automatização, embora capaz de produzir valor, pode ser um caminho parauma maior desigualdade de rendimentos e de riqueza.
O esforço que está a ser feito para criar tecnologia cada vez mais semelhante aos humanos faz com que os salários da maioria das pessoas baixem, enquanto simultaneamente amplifica o poder de mercado de alguns setores. A importância da automatização, ao invés da amplificação é, segundo o autor, a maior explicação para o aumento do número de bilionários, enquanto os salários reais médios diminuíram. O foco das empresas deve alterar-se: a longo prazo, será criado muito mais valor através da utilização da IA para produzir novos bens e serviços do que tentar sim plesmente substituir tarefas e trabalhadores.
Outro fator que contribui para esta desigualdade é a distribuição desigual dos recursos educativos e informáticos em todo o Mundo, que torna as novas tecnologias inacessíveis em muitos países menos desenvolvidos. Além disso, os enviesamentos existentes nos dados utilizados para treinar algoritmos de IA podem resultar na exacerbação desses preconceitos, conduzindo eventualmente a uma maior discriminação.
Que caminho devem seguir as organizações?
Este é um ponto de viragem crítico para o futuro da IA. É necessário um debate global e científico para desenvolver princípios e legislação partilhados entre nações, de forma a moldar um futuro em que a IA contribua positivamente para a realização de todos os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) definidos pelas Nações Unidas, cuja realização está longe de ser alcançada. Dados da Nature Communication mostram que a IA pode atuar sobre 134 objetivos do total de ODS (79%), geralmente através de uma melhoria tecnológica, que pode permitir ultrapassar certas limitações atuais.
Esta aplicação deve, no entanto, ser planeada e monitorizada, pois teme-se que 59 destes objetivos possam também ser prejudicados pela IA. Katya Klinova, especialista em políticas da Partnership on AI em São Francisco, está a trabalhar em formas de levar os cientistas especializados em IA a repensar o modo como medem o sucesso desta tecnologia. A cientista denuncia que os parâmetros de avaliação atuais estão todos ligados à correspondência ou comparação com o desempenho humano, o que revela resultados sobrevalorizados e pouco realistas.
Segundo Klinova, estes parâmetros de referência têm orientado a direção da investigação para uma avaliação quantitativa em vez de holística, que tenha em conta vários eixos humanos e sociais. Em última análise, a IA só atingirá todo o seu potencial para a sociedade e o Planeta se todos os stakeholders participarem com uma responsabilidade partilhada para moldar um futuro da Tecnologia em que ninguém seja deixado para trás.
Este artigo faz parte da edição de outono da revista Líder, publicada em setembro 2024, com o tema Humanity is Calling – Be Silent, Decide with Truth. Subscreva a Líder aqui.