Depois de anos marcados por crises sucessivas, os cidadãos entram em 2026 com expectativas moderadamente mais positivas, mas sem ilusões. O Ipsos Predictions 2026 Report, que ouviu mais de 23 mil pessoas em 30 países, traça o retrato de um mundo cansado, mais prudente e profundamente dividido entre esperança e receio.
2025 trouxe dissabores a mais de metade da população. De acordo com o relatório, 66% dos inquiridos consideram que 2025 foi um mau ano para o seu país, e 50% dizem o mesmo em relação à sua vida pessoal e familiar, revelando um clima global de desgaste económico e social.
Por outro lado, as pessoas estão a sentir-se muito melhor em comparação com 2020, quando 90% (em média global) disseram que foi um ano mau para o seu país e 70% para si próprias.
Ainda assim, o pessimismo não é absoluto: 71% acreditam que 2026 será um ano melhor, embora apenas 49% antecipem uma melhoria da economia global, um sinal claro de esperança contida.

Economia: receio de recessão e pressão sobre o rendimento disponível
A economia surge como uma das maiores fontes de ansiedade. 48% dos inquiridos acreditam que o seu país poderá entrar em recessão em 2026, enquanto apenas 47% esperam ver o seu rendimento disponível aumentar, o que reflete a persistência da pressão sobre o custo de vida.
Ao mesmo tempo, 39% receiam um colapso dos principais mercados bolsistas, um valor alinhado com os níveis de preocupação registados antes de períodos de forte volatilidade financeira.
A inteligência artificial ocupa um lugar central nas previsões para 2026. O estudo revela que 67% dos cidadãos acreditam que a IA irá destruir muitos postos de trabalho, enquanto 43% admitem que poderá criar novas oportunidades, uma tensão que atravessa praticamente todos os países analisados.
O receio é particularmente elevado em economias asiáticas, mas cresce também na Europa, refletindo um debate cada vez mais urgente sobre requalificação profissional e adaptação dos sistemas educativos e laborais.
Sociedade e segurança: mais protestos, menos confiança
A instabilidade social é outra tendência marcante. 59% dos inquiridos antecipam protestos ou agitação social em larga escala em 2026, níveis superiores aos registados antes da pandemia, sinalizando um desgaste prolongado da confiança nas instituições políticas.
Em paralelo, 46% acreditam que a segurança local irá piorar, e 29% receiam a ocorrência de ataques terroristas, num mundo percecionado como estruturalmente mais instável.
Ambiente: consenso sobre o problema, dúvidas sobre a ação
No campo ambiental, o consenso é claro: 78% acreditam que a temperatura média global irá aumentar e 69% esperam mais fenómenos climáticos extremos em 2026.
No entanto, apenas 48% confiam que os governos irão adotar metas mais ambiciosas de redução de emissões, revelando um fosso persistente entre a perceção do risco climático e a confiança na ação política.
Vida pessoal: menos ambição material, mais foco no bem-estar
Apesar das preocupações globais, os planos pessoais para 2026 apontam para uma redefinição de prioridades. 82% dizem querer passar mais tempo com família e amigos, 75% planeiam praticar mais exercício físico e 37% pretendem reduzir o uso das redes sociais, sinalizando uma procura crescente por equilíbrio, saúde mental e relações significativas.
Um mundo mais prudente, não mais confiante
O Ipsos Predictions 2026 Report mostra um mundo que entra em 2026 menos eufórico, mas mais consciente dos seus limites. A esperança existe, mas é cautelosa; a tecnologia avança, mas gera medo; e a vontade de mudança convive com uma profunda desconfiança nas estruturas tradicionais. Mais do que otimismo ou pessimismo, o que define 2026 é a expectativa de adaptação num contexto de incerteza permanente.



