Os Jogos Olímpicos de Paris reuniram atletas de todo o Mundo para competir e celebrar o desporto, mas trouxeram na sua agenda um grande foco para as questões ambientais, com a premissa de serem os Jogos mais sustentáveis de que há memória. Esta correlação entre desporto e clima faz mais sentido do que se possa […]
Os Jogos Olímpicos de Paris reuniram atletas de todo o Mundo para competir e celebrar o desporto, mas trouxeram na sua agenda um grande foco para as questões ambientais, com a premissa de serem os Jogos mais sustentáveis de que há memória.
Esta correlação entre desporto e clima faz mais sentido do que se possa pensar. À medida que as alterações climáticas continuam a fazer aumentar as temperaturas médias, os fenómenos meteorológicos extremos estão a tornar-se mais frequentes e intensos. Isto aumenta a probabilidade de esses acontecimentos se sobreporem a vários eventos desportivos e de os perturbarem significativamente.
Os impactos das alterações climáticas não se limitam a forçar adaptações aos eventos desportivos mundiais – as consequências para a saúde humana e mesmo para a vida podem ser devastadoras.
Até 2050, as alterações climáticas causarão 14,5 milhões de mortes e 12,5 mil milhões de dólares em perdas económicas, de acordo com o relatório do World Economic Forum, “Quantifying the Impact of Climate Change on Human Health”.
Conheça algumas mudanças e adaptações que estão a acontecer no mundo desportivo, consequência das alterações climáticas:
Jogos Olímpicos de Paris
O clima, a par dos Jogos, também tem batido recordes. O ano passado foi o ano mais quente de que há registo, sendo cada vez mais provável que 2024 o ultrapasse.
Desde a última vez que Paris acolheu os Jogos Olímpicos, há 100 anos, a cidade aqueceu 3,1°C durante o período dos Jogos Olímpicos, entre julho e agosto. Consequentemente, os comités organizadores e os próprios concorrentes tiveram de confrontar e adaptar à realidade do calor extremo e aos seus impactos na saúde.
Face a estes desafios, os Jogos de Paris 2024 tentaram otimizar o desempenho, mantendo a segurança de todos das seguintes maneiras:
- Monitorização ambiental com medições da WBGT (Wet Bulb Globe Temperature) para avaliar os riscos de stress térmico;
- Áreas inovadoras de sombreamento e arrefecimento, como corredores frescos, tetos retrácteis e estações de nebulização;
- Flexibilidade na programação de eventos para evitar picos de calor diários;
- Adaptação de uniformes e equipamento para maximizar a dissipação de calor.
Redirecionar o itinerário da Volta a França
Desde a sua inauguração, em 1903, a maior parte da Volta a França tem decorrido durante 23 dias em julho. No entanto, à medida que as temperaturas continuam a subir, esta tradição poderá ter de mudar, passando para um mês mais fresco.
Nos dias mais quentes da corrida masculina deste ano, as temperaturas atingiram quase 40 ℃. Os desportos radicais em condições meteorológicas extremas exercem uma enorme pressão sobre o corpo humano para que este se mantenha regulado e muitos ciclistas sofrem de doenças relacionadas com o calor, como resultado.

Desde a pulverização de água sobre as superfícies derretidas das estradas – cujo asfalto chegou a atingir 140°C em julho – até à introdução de zonas de alimentação suplementares, as elevadas temperaturas obrigaram os organizadores da Volta a França a tomar medidas inusitadas.
A Union Cycliste Internationale tem um protocolo de condições climatéricas extremas para orientar os organizadores das corridas na resposta a estes fenómenos climatéricos intensos. À medida que as temperaturas continuam a subir, será necessário efetuar mudanças estruturais maiores para garantir a segurança dos ciclistas e o futuro do evento.
Esquiar num mundo cada vez mais quente
As estâncias de ski de todo o Mundo estão a debater-se com os impactos das alterações climáticas. À medida que as temperaturas continuam a subir, a queda de neve está a diminuir a um ritmo alarmante, com um estudo recente a concluir que, em 2100, uma em cada oito estâncias de esqui em todo o mundo poderá não ter neve.
Várias estâncias de esqui foram obrigadas a encerrar por falta de neve, com pistas totalmente descobertas, devido a um calor sem precedentes. Os Alpes registaram temperaturas recorde durante o Natal e o Ano Novo, atingindo 20,9°C no noroeste da Suíça.
Estas pistas sem neve não afetam apenas as estâncias, sendo que os efeitos fazem-se sentir em cidades inteiras cujas economias dependem do ski e do turismo. Desde o investimento em trilhos para bicicletas, vias de escalada e percursos pedestres até à utilização de neve artificial, o sector do turismo nestas áreas está a ter de mudar e adaptar-se às crescentes ameaças climáticas.
Maratonas em movimento
À medida que as condições climatéricas extremas se agravam, as maratonas e as corridas de longa distância estão a ser adiadas, canceladas ou realizadas durante a noite para evitar o calor extremo.
Os organizadores dos Campeonatos Mundiais de Atletismo de 2019 no Qatar optaram por iniciar a maratona feminina às 23h59, hora local, devido ao calor diurno em Doha. No entanto, mesmo durante a noite, as temperaturas atingiram mais de 32°C com uma humidade superior a 70%. Em consequência, 28 das 68 participantes não conseguiram terminar a prova.
Também aconteceram mudanças nos Estados Unidos, com a série de treinos da Maratona de Nova Iorque 18M a ser cancelada em setembro de 2023, devido a graves inundações.
Um estudo recente concluiu que as alterações climáticas poderão causar um declínio de até 27% no número de cidades viáveis em todo o Mundo para acolher a maratona olímpica até ao final do século XXI. Por conseguinte, sugere-se que a maratona seja realizada em outubro para proteger a diversidade regional e a saúde humana.
Neblina de incêndios florestais
Em junho de 2023, cerca de 75 milhões de pessoas estavam sob alerta da qualidade do ar, uma vez que o fumo dos incêndios florestais provenientes do Canadá cobria as principais cidades dos EUA. A intensidade do fumo levou a Major League Baseball, a Women’s National Basketball Association e a National Women’s Soccer League a cancelar jogos devido a preocupações com a perigosa qualidade do ar.
Os incêndios florestais, cada vez mais frequentes em todo o planeta, estão a aumentar os níveis de poluição, o que pode agravar as doenças respiratórias e as doenças cardiovasculares. Segundo o relatório do World Economic Forum, estes riscos poderão provocar 9 milhões de mortes prematuras por ano até 2060.
Para algumas equipas de basebol, as alterações climáticas estão a ter um impacto diferente. Os investigadores descobriram que as alterações climáticas causaram mais de 500 home-runs desde 2010, com temperaturas mais elevadas a reduzir a resistência do ar à passagem da bola. Isto representa uma média de mais 58 home-runs por época devido ao aquecimento induzido pelo clima.
Imagem destaque: Paris 2024


