Pensar no futuro digital é como entrar numa espécie de caleidoscópio de questões, das mais variadas matérias e disciplinas, ao ponto de nos podermos sentir tontos, como num turbilhão, tal é a velocidade com que surgem. Serão do foro Económico, Sociológico, Filosófico, Cultural, talvez até Antropológico, entre tantos outros. Mas podemos tentar resumir todas apenas […]
Pensar no futuro digital é como entrar numa espécie de caleidoscópio de questões, das mais variadas matérias e disciplinas, ao ponto de nos podermos sentir tontos, como num turbilhão, tal é a velocidade com que surgem. Serão do foro Económico, Sociológico, Filosófico, Cultural, talvez até Antropológico, entre tantos outros. Mas podemos tentar resumir todas apenas numa pergunta: “Como será a Humanidade no – e do – futuro?” Efetivamente, lidamos hoje com a mudança constante. Aliás, sempre foi assim, se pensarmos bem. Porém, a velocidade e a escala com que surge fazem toda a diferença. E isso traz novos desafios. O nosso cérebro desenvolveu-se ao longo do tempo para responder a uma cadência de mudanças que nos parece hoje lenta. A adaptação à realidade e às necessidades atuais será, em si, um enorme desafio. Mas tal como noutras eras, o Homem é hábil em usar a tecnologia para melhor responder a essa necessária adaptação.
Contudo, há algo de diferente nesta mudança tecnológica. A evolução das máquinas – antecipada por muitos autores nos últimos 100 anos, com maior ou menor acerto – irá questionar a Humanidade em si, sobre qual o seu papel no Mundo. Surge-nos uma nova dúvida sobre quem terá o domínio. Há um certo alarmismo sobre a possibilidade de deixarmos de ser a espécie dominante e sobre o combate a que estaremos condenados a travar para manter esse status quo.
A esse propósito, o último trabalho cinematográfico de Gareth Edwards (escrito em parceria com Chris Weitz), “The Creator”, é um excelente exemplo de um cenário possível. Por um lado, temos uma IA sensitiva, que nos provoca enorme empatia para com o seu género, apesar da repetida afirmação pelos humanos com quem interagem “é só programação!”, como uma tentativa de se manterem emocionalmente conscientes e “sãos”. Ao ver expressões e reações humanas em rostos que são como o nosso reflexo num espelho, é inevitável questionarmos: “Será que é só programação”? Por outro lado, os humanos resolvem as suas limitações com outras máquinas – as “boas” – que obedecem cegamente às suas ordens e que os ajudam a controlar tudo o resto à sua volta, com a habitual repressão sobre o que é diferente e do que tem potencial para mudar o nosso protagonismo. Os mesmos e antigos problemas mesmo que num Mundo pós-moderno imaginado, resolvidos com soluções também antigas, ainda que aplicando tecnologia moderna.
O professor Carlos Fiolhais afirmou recentemente numa conferência que a lei de Moore poderá estar a chegar ao seu limite. A questão é que a Computação ou Ciência Quântica irão novamente provocar o efeito multiplicador da capacidade de processamento e com isso permitir “super” funções, que estão fisicamente limitadas pelo número de transístores numa pastilha de silício, ou seja, pela capacidade dos processadores convencionais.
Com maior capacidade de computação, os algoritmos, que são a base da inteligência artificial, irão tornar-se mais complexos, talvez com capacidade de auto-programação, focando-se apenas num resultado determinado, definido por outrem (o humano) ou por si próprios.
Será que conseguimos aceitar como razoável existirem robots com capacidade criativa suficiente para grandes obras musicais intemporais ou pinturas magistrais representativas da sua própria existência? Ou capacidades literárias que nos permitem mudar a forma como olhamos para o Mundo e para nós próprios?
Acreditamos – aliás, queremos acreditar – que o Homem irá sempre determinar os limites, as fronteiras e a ética de atuação de qualquer elemento externo à condição humana e que tenha o potencial para tomar decisões por si, substituindo-o.
Existem já hoje organizações que têm como missão garantir esse desenvolvimento sustentável, no sentido de uma utilização responsável da IA e do todo o seu potencial. Ouvi há dias, num podcast, uma entrevista do Dr. Ricardo Baptista Leite, atual CEO da I-DAIR, sublinhando que o propósito desta associação sem fins lucrativos é garantir um desenvolvimento de algoritmos de inteligência artificial que seja inclusivo, responsável e com impacto em saúde digital. Estas organizações surgem exatamente com o objetivo de ser o garante de um equilíbrio entre o ímpeto inovador, inteligente e dinâmico, e a tão necessária Humanidade no impacto das nossas decisões e ações. Sem elas, certamente haverá sempre a tentação de ir para além dos limites do que é aceitável, do que temos vindo a definir na carta de princípios e direitos humanos.
Sabemos que toda a tecnologia pode ser boa e má, sendo certo que a definição do certo ou errado também muda com a evolução social, dependendo da sua utilização e dos resultados que produz. É reconfortante imaginar um futuro em que a evolução tecnológica permite resolver problemas complexos – energia limpa, barata e disponível; otimização na utilização de recursos; cura para doenças agressivas e incuráveis. Mas fará tão mais sentido se for inclusiva e se a ela se garantir o acesso por todos os povos. Essa, sim, será a verdadeira virtude da condição Humana, a capacidade de olhar para si, com humildade, e tomar consciência da evolução que deve continuar a fazer enquanto espécie consciente, responsável por todas as outras e por tudo o que a rodeia, independentemente dos meios tecnológicos que terá ao seu dispor. Essa, sim, será a característica essencial para assegurar o tal indelével toque Humano nesse futuro extraordinário que, com mais ou menos limites, conseguimos imaginar.
P.S. Escrevi este breve texto a bordo de um avião, a sobrevoar o continente africano. Por uma questão de tempo, e pelo tema em si, ainda assumi como razoável pedir ajuda a esse portento tecnológico atual que é o ChatGPT. Mas resisti à tentação. Pelo menos neste caso, os vestígios de inteligência artificial ficam-se pela reflexão sobre a mesma e talvez algures na app que o leitor está a usar ao ler este conteúdo.
