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Home Entrevistas Leading Tech SpaceX: A corrida para as estrelas está ‘on’, mas consegue a Europa acompanhar?

Leading Tech

SpaceX: A corrida para as estrelas está ‘on’, mas consegue a Europa acompanhar?

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18 Novembro, 2024 | 8 minutos de leitura

Nunca vivemos uma era com tecnologia espacial tão avançada, onde o transporte espacial recreativo ou viver em Marte já não são apenas sonhos. A SpaceX, fundada por Elon Musk, é um dos colossos de investimento privado de engenharia espacial e está na vanguarda da inovação, inspirando o resto do Mundo e a Europa a almejar […]

Nunca vivemos uma era com tecnologia espacial tão avançada, onde o transporte espacial recreativo ou viver em Marte já não são apenas sonhos. A SpaceX, fundada por Elon Musk, é um dos colossos de investimento privado de engenharia espacial e está na vanguarda da inovação, inspirando o resto do Mundo e a Europa a almejar algo semelhante.

Como tal, já não se trata apenas de «construir foguetões, mas sim de conseguir algo tão substancial e significativo como uma SpaceX», ainda que em diferentes moldes.

Quem o diz é Christian Mittermaier, Cofundador da constellr, uma empresa alemã especializada na utilização de tecnologia de satélites para monitorizar as condições agrícolas e ambientais do planeta.

O empreendedor alemão esteve presente na Websummit, no dia 12 de novembro, no debate Can Europe build a SpaceX?, a par de Volodymyr Levykin, Cofundador & CEO da Skyrora e Mark Boggett, Chief Executive Officer e Managing Partner da Seraphim. O momento contou com a moderação de Martin Coulter, Correspondente europeu de tecnologia da Reuters.

O painel defendeu que o equivalente europeu ao gigante americano deve ser «dez vezes melhor», ainda que a Agência Espacial Europeia possa ter cerca de dez vezes menos investimento do que a NASA. Os especialistas concordaram que existe dinheiro na União Europeia, resta saber como e onde investi-lo. Para singrar, as empresas espaciais devem procurar soluções, ser ambiciosas e atrair investimento.

À Líder, Christian Mittermaier partilhou a sua visão do panorama espacial europeu e o que falta para criar a próxima Space X.

 

No debate falou-se de modernização, investimento, ambição e correr riscos. Que aspeto destaca como mais importante no setor espacial?

É uma combinação entre correr riscos e financiamento. Quando falamos do espaço, falamos de um super-ativo, um empreendimento que carece de grande financiamento e investimento. Não se pode fugir a isso ou enganar o software: o que se constrói tem de funcionar.

Nem sequer se podem fazer protótipos porque tudo o que se envia para o espaço custa muito dinheiro, por isso é importante ter a certeza de que funciona e que os investidores estão a ver o retorno do investimento. Ter realmente confiança e ver que isto vai acontecer é muito importante para assumir riscos.

Eu diria que os empresários espaciais têm uma certa tendência para o risco e adrenalina. Acho que são movidos por um objetivo superior que os leva a correrem este risco, não é só por pura vontade de lançar objetos para o espaço.

É necessário traduzir este apetite pelo risco de forma que seja financiável.

No caso da constellr sabemos que, se conseguirmos pôr as nossas constelações de satélites a funcionar, podemos contabilizar todos os marcadores ambientais necessários para obter uma linha base e de referência para o nosso impacto no clima.

No espaço, é preciso infraestruturas e foi a partir daí que eu e o Volodymyr colocámos a questão no painel de debate: será a Europa capaz de construir uma SpaceX? Quanto a isto, é importante perceber que não se trata de a Europa ser capaz de construir foguetões, mas sim de conseguir algo tão substancial e significativo como uma SpaceX, mas que pode ser outra coisa.

Para construir uma empresa assim, que seja extremamente forte, com influência e impacto nesta indústria, não basta ter investimento privado, especialmente na Europa. É necessário existir uma agenda política que faça os governos quererem ter este tipo de tecnologia-chave na Europa e em cada país. Escolherem um vencedor, correr esse risco e fazer acontecer para que o continente europeu mantenha a sua independência, especialmente com as guerras que estão a acontecer.

Este apoio financeiro governamental pode ainda influenciar os investidores a arriscar, pois que voto de confiança maior pode existir do que o Governo do próprio país?

 

Qual seria o primeiro passo para construir esta organização semelhante à Space X? Precisamos de um Elon Musk europeu?

Acho que ele alguém seria a descrição do meu amigo e cofundador Max Gulde, que é o CEO da constellr e uma personalidade e tanto. É preciso uma equipa forte e que esteja realmente convencida de que um projeto funciona, que tenha uma visão clara à sua frente. Assim, é possível reunir pessoas de todos os setores. Elon Musk é um visionário excecional, capaz de pintar um quadro muito claro e eu diria que o meu cofundador também o é.

Quando começámos, também se riam de nós. Eu tenho 32 anos, os meus cofundadores têm 39 e 36 e estamos a fazer isto desde 2018, ou seja, há seis anos. Nós éramos jovens a entrar num campo que era puramente para militares e defesa nacional.

É importante ser suficientemente consistente e ter esta forte visão. Nós não somos empreendedores como o Musk, afinal ele investiu uma grande quantidade do seu próprio dinheiro. Apesar de ser um físico, ele é capaz de ir mais além e convencer as pessoas. É sobre a paixão e a vontade de fazer acontecer, a capacidade de mobilizar as pessoas. Isto é fundamental para iniciar este tipo de empreendimentos, alguém que seja realmente uma estrela polar. Nós os três estamos a apoiá-lo a 100%.

 

Relativamente a estes objetivos, que estratégia estão a utilizar na constellr?

Há muitas facetas em jogo. Primeiramente, é necessário identificar os stakeholders interessados em contribuir para o projeto, tais como investidores e parceiros governamentais que apoiem financeiramente. Para nós, seria por exemplo a Agência Espacial Europeia.

Também escolhemos e confiamos nos trabalhadores certos, bem como na direção. A nossa estratégia acaba por ser a clássica excelência alemã. Nós prometemos o que podemos cumprir, desde a tecnologia necessária até ao apoio ao cliente.

Talvez nos falte um pouco da mentalidade ‘fake it till you make it’ americana, mas gostamos de cumprir com as nossas promessas, nunca esconder nada dos nossos investidores. Sermos honestos, mantê-los a par e investidos, não só financeiramente, mas também pessoalmente.

Em janeiro, vamos lançar o nosso primeiro satélite de segunda geração, totalmente operacional, que é realmente o que cumpre os contratos que já estabelecemos com os nossos clientes. Este é o pontapé de saída de um dos muitos satélites da nossa constelação.

Já tínhamos lançado um satélite, que foi mais uma demonstração, e agora estamos realmente a entrar nos satélites operacionais. Em junho, o segundo satélite será lançado. Estamos a fazer os possíveis para lançar os melhores produtos e pretendemos expandir-nos para os EUA, que é o maior mercado de dados de satélites de deteção remota do planeta.

Essencialmente, queremos colocar os satélites em funcionamento, torná-los operacionais, obter os nossos produtos e dados da melhor forma possível. Isto será absolutamente único neste setor e permite-nos posicionar nos nossos principais mercados, que são a Europa, os EUA e também a Índia.

 

Que papel tem a Agência Espacial Europeia nos vossos projetos?

A Agência Espacial Europeia foi e continua a ser um dos principais financiadores, conselheiros e stakeholders que nos apoiam, para tornar o projeto técnica e financeiramente possível.

Para além disso, são também a porta de entrada e os intermediários para nos dar acesso à Comissão Europeia. Ao apoiar-nos, a Agência chega-se à frente e recomenda a compra de serviços da constellr. E é por isso que nos ajuda indiretamente a entrar nos EUA, pois os possíveis clientes confiam no rótulo de qualidade que a Agência Espacial Europeia nos dá. Diria que estão indiretamente a abrir o caminho para nós.

A Agência foi altamente cofinanciadora dos nossos projetos e também já estão a financiar o futuro da próxima geração de satélites. São um parceiro valioso para ter a bordo.

 

Que mensagem deixa aos jovens que sonham em trabalhar na indústria espacial na Europa?

Deixo um conselho baseado na minha própria situação. Para criar uma empresa espacial ou dar os primeiros passos, o ecossistema espacial europeu é um dos melhores. Além disso, há uma dinâmica muito positiva de momento, que reúne competências de engenharia e algumas das pessoas mais inteligentes da Europa neste setor.

Eu não tinha um background espacial, sou licenciado em finanças. Diria para encontrarem parceiros inteligentes que partilhem a mesma paixão e que não o façam sozinhos e experimentem.

Quando se trata do espaço, pensem em grande. Sejam realistas depois.

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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