A Grande Demissão (“The Great Resignation”) foi o termo cunhado em maio de 2021 por Anthony Klotz, Professor na Mays Business School do Texas A&M University, para explicar o fenómeno, especialmente visível nos Estados Unidos da América, que levou à demissão voluntária em massa de milhares de colaboradores dos seus empregos. Dados do U.S Bureau […]
A Grande Demissão (“The Great Resignation”) foi o termo cunhado em maio de 2021 por Anthony Klotz, Professor na Mays Business School do Texas A&M University, para explicar o fenómeno, especialmente visível nos Estados Unidos da América, que levou à demissão voluntária em massa de milhares de colaboradores dos seus empregos. Dados do U.S Bureau of Labor Statistics fundamentam que a taxa de despedimentos atingiu valores históricos, alcançando, só em setembro de 2021, os 3%, o que em média representa três em cada cem indivíduos. Os adultos dos 30 aos 45 anos foram os que deram mais expressão a esta enchente de saídas.
Um estudo recentemente divulgado pela McKinsey, com mais de cinco mil colaboradores provenientes da Austrália, Singapura, Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, avança que 40% dos trabalhadores americanos admitem a possibilidade de abandonar no curto prazo o seu emprego, sendo que 64% desses mesmos funcionários garantiu sair mesmo sem ter em vista outro trabalho.
Os dados demonstram que o facto de os funcionários não terem outras opções no imediato não é impedimento para saírem. As pessoas estão cada vez mais resolutas na sua decisão, demonstrando alguma inflexibilidade em potenciais negociações por parte das empresas empregadoras, que lutam para reter os seus talentos.
Não se trata pura e simplesmente de uma forma de desistência. As pessoas estão à procura de melhores condições. Embora aparente ser uma consequência direta da Pandemia, as razões tendem a ser mais complexas e envolvem vários panoramas. Deixou de ser uma questão monetária, daí muitas negociações falharem quando as empresas tentam oferecer maiores benefícios financeiros aos seus colaboradores.
A Pandemia conduziu a um período de grande reflexão individual, fechando-nos nas nossas casas, nas nossas mentes, nas nossas realidades, induzindo a que repensássemos a forma como estamos a viver as nossas vidas. Para uns, o próprio trabalho híbrido acabou por expandir novos horizontes e ser um fator decisivo do querer ir ou ficar. Não só levou a entender que era possível trabalhar através de casa sem comprometer a produtividade, como deu a entender que tal flexibilidade permitia ter mais tempo para a família, para si próprios, evitando gastar horas em deslocações. Em suma, muitos submetem as suas demissões no desejo de encontrar empregos que forneçam maior flexibilidade para trabalharem onde quiserem, quando quiserem, de forma a terem espaço para apostar nas suas relações familiares e pessoais, bem-estar mental e físico.
Para outros, o facto de quererem sair pode ter conotações simbólicas, idealistas. Os colaboradores querem e pedem por algo mais, que vai além da própria empresa. São pessoas que se aperceberam que não eram felizes nos cargos que exerciam e querem, por isso, sair da zona de conforto, para explorar trabalhos novos em áreas que as cativam. São pessoas que, no limite, não se identificam com os valores da empresa e querem trabalhar em organizações que vão ao encontro dos seus próprios valores, sejam eles sociais, ambientais, culturais.
A realidade é que o estado do nosso Planeta e da nossa sociedade é também um fator seletivo. Com a COP26 a relembrar que medidas urgentes são necessárias para atingir as zero emissões e garantir um futuro sustentável, protestos como o #BlackLivesMatter, que vieram relembrar a ainda presente discriminação social, ou o #metoo, que conduziu a uma maior consciencialização sobre assédio, levam os colaboradores a marcar uma posição e a não querer fazer parte de uma empresa cuja cultura não esteja voltada para encontrar soluções aos atuais problemas ou que, pior, estejam a contribuir para que estes ainda existam.
Embora o fenómeno tenha mais expressão nos Estados Unidos, tem também vindo a ser notado na Europa, podendo até vir a ser sentido em Portugal, porém sem a mesma intensidade. Não é de agora que as empresas tentam procurar por soluções e formas de reter os funcionários, o contexto atual veio apenas acelerar as tendências que já se estavam a começar a sentir. Mais do que nunca, os líderes são chamados a conhecer a realidade dos seus colaboradores e a reconhecer que são mais do que uma garantia de realização do trabalho.
Fontes: World Economic Forum, McKinsey&Company, Observador


