Frio, impiedoso e cruel Dizem que qualquer animal encurralado se torna uma fera. Putin jamais foi encurralado, chegou a ser apaparicado. Mas no momento em que quis, provavelmente para disfarçar problemas internos, seguiu os passos de Hitler e agora ameaça a Europa. No fim do império, que começou com a queda do muro de Berlim, […]
Frio, impiedoso e cruel
Dizem que qualquer animal encurralado se torna uma fera. Putin jamais foi encurralado, chegou a ser apaparicado. Mas no momento em que quis, provavelmente para disfarçar problemas internos, seguiu os passos de Hitler e agora ameaça a Europa.
No fim do império, que começou com a queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, há mais de 32 anos, a URSS ficou sem saída. Ainda tentou a Comunidade de Estados Independentes, mas depressa se percebeu que o futuro era a implosão. Os países Bálticos, que se haviam libertado do Império em 1918, só voltaram a ser anexados por este em 1940, na sequência de um acordo de Moscovo de Estaline com Berlim de Hitler; a Bielorrússia, onde está boa parte da Polónia histórica, preferiu separar-se, embora Moscovo conseguisse manter o poder fático através de um fantoche; a Ucrânia, que sofrera com tantos impérios e nações que ali se estabeleceram e foram condenados à fome e à escravidão duas vezes, por Estaline, saiu logo que pode. E depois foram os outros Estados, com histórias próprias, que eram anexos do Império Russo, vítimas de Ivan, Catarina, Pedro, entre outros, e depois de Lenine e Estaline, no período comunista. Foi o caso da Geórgia, do Azerbaijão, Cazaquistão, Arménia, Turquemenistão, Uzbequistão e Moldávia.
Alguns destes países continuam às ordens de Moscovo, outros tiveram a ousadia de querer a democracia. A Geórgia pagou caro esse desejo, com o conflito da Ossétia do Sul e da Abecásia; depois foi a vez da Ucrânia com a Crimeia, em 2014, como retaliação pela destituição de um presidente que prometera a Europa mas se aliara a Putin. Também as regiões do Donbass, onde a maioria fala russo (mas muitos se sentem ucranianos) foi ocupada por mafias, rebeldes e mercenários apoiados pela Rússia. Putin não podia permitir uma Ucrânia democrática e pró-europeia.
Há quem diga, embora sem razão, de acordo com a minha perspetiva, que o Ocidente provocou Putin. Nada mais falso: a Rússia, mesmo antes de Putin, manteve o veto no Conselho de Segurança; instituiu-se uma parceria NATO-Rússia; a UE e os EUA transferiram avultadas verbas para Moscovo, que aliás passou a reunir no G-7, o clube dos ricos. Foi Putin que, não estando encurralado, mas com a frieza, maldade e impiedade que, aliás, o seu fácies e a sua postura transmite, renegou toda e qualquer transição para democracia, já nem digo da Rússia, mas dos países que a Rússia teve sob o seu domínio. Alguns destes, que conhecem bem a história da região, apressaram-se a entrar na NATO e na União Europeia, como quem se refugia de um urso perigoso. Foi caso da Estónia, Letónia e Lituânia, bem como da Polónia, da Hungria, da Roménia e da Eslováquia (entretanto separada pacificamente da República Checa). Todos estes países fizeram fronteira com a URSS. A Ucrânia, no entanto, é um grande país, estratégico sob vários aspetos, com destaque para as matérias primas e a agricultura, bem como por ter acesso ao Mar Negro e ao Mar de Azov, que lhe permite uma saída em águas quentes para o Mediterrâneo. Os ucranianos sempre quiseram estar em Bruxelas, onde estão a NATO e a União Europeia. Mas a prudência do Ocidente foi adiando essa adesão.
Ainda assim, Putin, diz que o seu país está ameaçado pela Nato e pela Europa (e alguns poucos europeus e portugueses que ‘pavlovianamente’ se habituaram a salivar sempre que toca a campainha moscovita, concordam). Invadiu o Donbass, ou seja, as autoproclamadas repúblicas secessionistas da Ucrânia, de Donetsk e Lugansk, afirmando existirem massacres contra os russófonos e russófilos (como se neste mundo se passasse algo sem ninguém dar conta); depois, não contente, atacou a Ucrânia, ameaçou Suécia e Finlândia de retaliação caso estes países entrassem na NATO e, finalmente, deu ordens para que se recorresse a armas nucleares.
Putin é um pária do mundo. Ninguém – uma só pessoa – civilizada o defende. Não é um líder que quer mostrar a sua força e determinação, é um homem sem princípios nem lei.
As lideranças ocidentais demoraram mais do que seria desejável a responder. Mas, finalmente, estão unidas no essencial da resposta.
Quando Putin cair, a Europa terá compreendido que não pode ser firme, se não estiver unida aos EUA; e os Estados Unidos compreenderão o mesmo – que a Europa é necessária por comungar os seus princípios e valores. A ação fria de Putin acabará por reforçar o Ocidente e as suas lideranças. Assim o espero.
Henrique Monteiro, Jornalista
