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Home Leading Opinion Opinião Quem vê máscaras não vê caras

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Quem vê máscaras não vê caras

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8 Fevereiro, 2023 | 4 minutos de leitura

Se queremos selecionar lideranças ambiciosas, autoconfiantes, socialmente persuasivas, perseverantes, focadas em resultados, motivadas para liderar, decididas e empenhadas – que critérios de seleção devemos usar? A resposta é óbvia: avaliar se o/as candidato/as detêm essas competências. Infelizmente, a resposta é óbvia – mas incompleta e potencialmente perigosa. Muitas lideranças que infernizam a vida das pessoas […]

Se queremos selecionar lideranças ambiciosas, autoconfiantes, socialmente persuasivas, perseverantes, focadas em resultados, motivadas para liderar, decididas e empenhadas – que critérios de seleção devemos usar? A resposta é óbvia: avaliar se o/as candidato/as detêm essas competências. Infelizmente, a resposta é óbvia – mas incompleta e potencialmente perigosa. Muitas lideranças que infernizam a vida das pessoas e destroem as organizações são dotadas desses predicados. O perigo não advém dessas competências – antes resulta do facto de elas serem também detidas por pessoas perigosas.

Integro uma equipa de investigadores que recentemente analisou os efeitos perversos da tríade sombria (“dark triad”). Aqui partilho uma curta parcela daquilo que descobrimos. O tema é complexo e não compagina com abordagens simplistas e lineares. Mesmo assim, arrisco estes comentários. A tríade é uma constelação que abarca elevados níveis de narcisismo, maquiavelismo e psicopatia. As pessoas muito narcisistas estão insufladas de um forte sentido de autoimportância e superioridade. Atribuem-se abundantes direitos – e imputam numerosos deveres aos outros. Autopromovem-se sem pudor. Alardeiam os seus feitos, reais ou inventados. Não se inibem de apregoar, até, a sua pretensa humildade. Buscam permanentemente atenção. Detestam ser contrariadas e reagem agressivamente quando são alvo de crítica ou discordância. As pessoas maquiavélicas são cínicas, desconfiam profundamente da natureza humana, são calculistas e não hesitam em adulterar a verdade (sobretudo se sentirem que não serão apanhadas) para alcançarem os seus objetivos. São frias e mestres da manipulação. Finalmente, os indivíduos psicopatas (embora sem patologia clínica) são impulsivos, desprovidos de empatia, e não experienciam qualquer remorso pelo dano que causam. Em casos extremos, podem mesmo obter prazer perante o sofrimento dos outros.

Sendo cada vértice da tríade algo assustadora, podemos imaginar quão distópica é a junção dos três. A investigação é bastante clara: lideranças que padecem da tríade são profundamente egoístas, insensíveis e manipuladoras. Destroem o capital social das equipas e organizações. Exploram as pessoas em posições de maior fragilidade. Podem bajular as suas próprias chefias – ao mesmo tempo que esperam conduta servil do/as liderado/as. Envolvem-se em atos fraudulentos que podem redundar, mais cedo ou mais tarde, em escândalo e destruição da reputação da organização.

O que torna estas pessoas ainda mais perigosas é a capacidade de sedução, o que lhes permite instrumentalizar as suas “presas” – até não mais delas precisarem e as abandonarem à sua sorte. No curto prazo, o instinto manipulador/sedutor pode conduzir a bons resultados. Dado que os processos de seleção têm uma duração bastante limitada no tempo, estas pessoas são exímias na capacidade de veicular a imagem que mais lhes convém. E esse retrato inclui as competências virtuosas que menciono na abertura deste texto. É esta natureza bipolar que, frequentemente, conduz as vítimas à estupefação – quando se dão conta de que caíram no ardil.

As lideranças mais perversas, na vida empresarial e na política, podem ser dotadas de um rol de boas qualidades que escondem motivações danosas. Portanto, se queremos melhorar os processos de seleção de líderes e escapar ao sofrimento e destruição que algumas lideranças geram, não devemos bastar-nos com a avaliação do lado solar do/s candidato/as. Importa que também nos foquemos no seu potencial lado sombrio. Daí decorre a necessidade de enveredar por processos de seleção mais longos, de modo a aumentar as probabilidades de encontrar indicadores do lado perverso. Colocar o/as candidato/as em interação com pessoas de diferentes níveis da hierarquia pode ser igualmente instrutivo – pois os indivíduos detentores da tríade sombria são camaleónicos: atuam com as pessoas em função do valor instrumental das mesmas para os seus (deles) objetivos. Finalmente: é crucial ser cauto com instrumentos de medida da personalidade assentes na auto-descrição. As pessoas caraterizadas pela tríade sombria são exímias no jogo da dissimulação. Chegam ao topo por via deste jogo. E, quando se lhes descobre o pendor sombrio – já é tarde.

Arménio Rego,
LEAD.Lab, Católica Porto Business School

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