Vivemos um tempo em que a complexidade tecnológica e a urgência ambiental se cruzam à mesa. A forma como produzimos e consumimos alimentos influencia diretamente a saúde do planeta e das próximas gerações e, em Portugal, a realidade é particularmente alarmante. Se toda a humanidade consumisse recursos ao ritmo dos portugueses, seriam necessários 2,9 planetas Terra para sustentar esse estilo de vida, segundo dados da Global Footprint Network.
O sistema alimentar global é responsável por cerca de um terço das emissões de gases com efeito de estufa, e a agricultura intensiva – sobretudo de carne e peixe – representa uma fatia significativa desse total. Em Portugal, o padrão alimentar ainda é dominado por produtos de origem animal, alimentos ultraprocessados e desperdício alimentar, o que agrava a pegada ecológica do país.
Perante esta complexidade, talvez a solução mais inteligente seja também a mais simples: voltar ao essencial – produzir melhor, desperdiçar menos e compreender o valor real da comida.
A agricultura celular como caminho para uma alimentação consciente
Acreditamos que simplificar a alimentação não significa voltar atrás, mas sim avançar com propósito.
A biotecnologia que desenvolvemos, conhecida por agricultura celular, não pretende substituir a Natureza, mas replicá-la de forma responsável, reduzindo a pressão sobre os oceanos e os ecossistemas marinhos.
A agricultura celular consiste na produção de alimentos a partir de células animais ou vegetais, sem necessidade de criar ou abater seres vivos nem de recorrer a extensas áreas agrícolas. Em vez de criar um animal completo para obter carne, leite ou ovos, a agricultura celular isola células específicas (musculares ou adiposas) e permite o seu crescimento em ambientes controlados, utilizando biorreatores semelhantes aos usados na produção de iogurtes ou cerveja, onde recebem os nutrientes, oxigénio e estímulos necessários para crescerem e se multiplicarem.
Somos uma startup portuguesa de biotecnologia deeptech, com um modelo de negócio B2B baseado em licenciamento, focada no desenvolvimento de tecnologias de produção de alimentos à base de células de peixes, moluscos e crustáceos. O nosso foco inicial é a produção de biomassa de polvo celular, uma das espécies mais apreciadas e, simultaneamente, mais desafiantes de reproduzir de forma sustentável.
Através da plataforma BlueCell, que integra linhas celulares, meios de cultura, biorreatores e bioprocessos, conseguimos desenvolver produtos híbridos à base de polvo, que combinam inovação científica com aplicações práticas para a indústria alimentar, desde extrusão e moldagem até impressão alimentar 3D. Estes produtos permitem criar alternativas saborosas e nutritivas, sem recorrer à captura de espécies selvagens nem ao uso de recursos excessivos.
A mudança real começa nos hábitos
Mas este simplificar não é apenas uma questão tecnológica, é também uma mudança de mentalidade. Envolve escolher conscientemente o que colocamos no prato, valorizar os produtos locais e sazonais, e reconhecer que a inovação pode coexistir com a tradição. A gastronomia portuguesa é um exemplo disso: feita de ingredientes simples, técnicas apuradas e respeito pelos ciclos naturais.
É esta harmonia entre ciência e cultura alimentar que queremos preservar e potenciar. Na Cell4Food procuramos tornar a alimentação sustentável acessível e escalável. Isso significa trabalhar lado a lado com empresas do setor alimentar, universidades e instituições públicas, para acelerar a transição para um sistema alimentar mais resiliente e justo. A tecnologia deve servir as pessoas e não o contrário.
Acreditamos que a verdadeira inovação simplifica a vida: reduz desperdícios, otimiza recursos e gera confiança. Tal como um prato bem confecionado não precisa de excessos, também a biotecnologia deve ser clara, transparente e centrada no essencial. Alimentar o mundo com respeito pelos limites do planeta.
Em última análise, simplificar é um ato de inteligência coletiva. É escolher a ciência para proteger o que é natural. É unir conhecimento e responsabilidade. E é por isso que olhamos para o futuro com uma convicção simples: alimentar o amanhã começa com as escolhas que fazemos hoje.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.

