O setor global dos videojogos prepara-se para entrar numa nova fase de crescimento após um período de ajustamento prolongado, marcado por incerteza, quedas no financiamento e uma transição acelerada para modelos de negócio híbridos. Segundo o mais recente Video Gaming Report 2026, da Boston Consulting Group (BCG), o setor está a evoluir muito para além da simples competição entre consolas: plataformas, criadores, tecnologia e distribuição estão a convergir para um ecossistema mais complexo e potencialmente mais lucrativo.
Após vários anos de estagnação, que muitos analistas denominaram de «video game winter», o relatório aponta sinais claros de recuperação no final de 2025 e início de 2026. A BCG baseia esta conclusão na sua Global Gaming Survey, que envolveu quase 3.000 jogadores, e num conjunto de entrevistas com executivos e líderes do setor. O crescimento ainda não regressou aos níveis meteóricos da última década, quando a indústria quase duplicou de tamanho, mas indicadores como o tempo de jogo e a paixão dos consumidores mantêm-se fortes.
Segundo o estudo, 55% dos gamers afirmam ter aumentado o tempo de jogo nos últimos seis meses, e a influência intergeracional é notável: pais que jogam estão a introduzir os filhos ao universo dos jogos ainda muito jovens.
No fundo, a estagnação dos últimos anos não foi fruto de desinteresse, mas sim de um setor a recalibrar prioridades: entre custos crescentes de produção, mudanças no investimento de capital de risco — onde, aliás, dados externos apontam que o financiamento a startups de gaming em 2025 atingiu uma década baixa — e uma audiência global que se fragmentou em centenas de plataformas e experiências, tornou-se urgente reinventar a forma como o mercado cria e captura valor.
Quatro tendências que vão redefinir o setor
Inteligência Artificial generativa: o motor da inovação
A IA generativa (GenAI) está a transformar tanto o processo de criação como o próprio conteúdo dos videojogos. Ferramentas baseadas em IA reduzem custos, aceleram o desenvolvimento e permitem a criação de experiências até aqui impraticáveis. A BCG identificou que cerca de 50% dos estúdios já incorporam IA nos seus fluxos de trabalho e que mais de 20% dos jogos lançados em 2025 declararam publicamente o uso de IA no desenvolvimento.
Embora exista receio de saturação com títulos de baixo valor (o chamado ‘gameslop’), a promessa é que a IA também impulsione narrativas, personagens e mundos adaptativos como nunca antes.
User-Generated content e a economia dos criadores
Conteúdos gerados pelos próprios utilizadores (UGC) estão a tornar-se centrais para a vinculação. Títulos como Fortnite e Roblox já representam um ecossistema em expansão, com mais de 1,6 milhões de criadores monetizados e centenas de milhões de experiências criadas até hoje.
A BCG projeta que os pagamentos para criadores nestes universos ultrapassarão os 1,5 mil milhões de dólares em 2025, reforçando a ideia de que a economia criativa é um dos pilares do crescimento sustentável no setor.
Gaming na Cloud: da conflagração de plataformas à era ‘Omniscreen’
Uma das mudanças mais radicais apontadas pelo relatório é a transição da guerra tradicional entre consolas para uma competição centrada na cloud gaming. Plataformas como Nvidia GeForce Now, Xbox Game Pass e serviços híbridos estão a expandir o modelo de jogo sem hardware dedicado — um movimento que promete tornar o gaming verdadeiramente agnóstico de dispositivo.
Ainda que atualmente apenas uma fração do tempo de jogo aconteça via cloud, a adoção tem sido positiva: 80% dos jogadores que experimentaram cloud gaming relataram boa experiência, e a projeção é que este segmento atinja quase 18,3 mil milhões de dólares em receitas até 2030.
Para os estúdios e fabricantes, isso implica uma redefinição da distribuição e da monetização, com menos foco no hardware e mais na retenção de jogadores através de experiências fluidas e multiplataformas.
Abertura das App Stores: revolução na distribuição
O setor de mobile gaming, responsável por cerca de metade das receitas globais de jogos, enfrenta uma transformação profunda com a abertura gradual das lojas de aplicações (app stores). Decisões regulatórias e ações judiciais, especialmente nos Estados Unidos e Europa, estão a permitir aos desenvolvedores explorar canais alternativos de distribuição e pagamento fora dos modelos tradicionais dominados por gigantes como Apple e Google.
O relatório realça que cada vez mais jogadores optam por comprar títulos fora das lojas oficiais, reduzindo custos para os criadores e abrindo espaço para novos modelos de negócio.
Monetização: ajustar preços, expandir receitas
Apesar do entusiasmo e das oportunidades tecnológicas, o relatório alerta para desafios económicos. Cerca de 65% dos jogadores dizem que o preço dos jogos influencia as suas decisões de compra, refletindo a pressão contínua do custo de vida global.
Para responder a essa sensibilidade, a BCG identifica estratégias que vão desde preços em camadas e janelas de lançamento escalonadas, até a monetização alternativa, como publicidade in-game e conteúdo opcional.
O que está em jogo para o Jogo em 2026
O balanço final do relatório é otimista, mas cauteloso: o setor dos videojogos está a entrar numa fase de transição estrutural que pode recompensar os mais ágeis e inovadores, mas também penalizar aqueles que se apegam a modelos antigos.
Até 2030, prevê-se uma explosão de conteúdo, com milhares de jogos novos, muitos suportados por IA e UGC; uma expansão significativa da audiência global, incluindo gamers adultos e intergeracionais; modelos de monetização mais sofisticados, alinhados com hábitos de consumo diversificados; um ecossistema onde hardware, software e serviços convergem em plataformas fluidas e integradas.
Para executivos, investidores e criadores, a recomendação é clara: adaptar-se rapidamente, compreender os novos mecanismos de distribuição e colocar a experiência do jogador no centro de cada decisão estratégica.


