«Será que a minha profissão está ameaçada pelo ChatGPT?» A questão foi lançada por um psicólogo clínico perante uma sala cheia de jovens, num gesto simples que rapidamente se transformou em laboratório coletivo de opinião. Cartões erguidos, respostas rápidas, quase instintivas: a maioria rejeitou a ideia de substituição.
O tema da presença online e das redes sociais atravessou todo o evento, assumindo-se como pano de fundo constante das reflexões sobre saúde mental, tecnologia e identidade. A sessão ‘O ChatGPT não é um psicólogo”, na Leadership Next Gen, reuniu Francisco Soares, cofundador da Ivory Therapy, e João Nuno Faria, psicólogo coordenador do Núcleo de Intervenção no Comportamento Online do PIN, num debate que procurou clarificar os limites entre inteligência artificial e prática clínica.
Veja o momento completo aqui:
Francisco Soares, João Nuno Faria – Chat GPT não é um psicólogo
A terapia em formato IKEA
João Nuno Faria não demorou a introduzir uma imagem que marcou a discussão. A terapia feita por modelos de linguagem como o ChatGPT, disse, aproxima-se de um modelo padronizado, replicável, quase industrial. «Uma terapia ChatGPT é uma terapia one size fits all», afirmou.
A metáfora escolhida foi deliberada: o IKEA. Funcional, acessível, eficiente, mas igual para todos. Monta-se uma vez, funciona. Mas não se ajusta verdadeiramente a quem o usa.
A psicoterapia, defendeu, opera noutro plano: o da personalização profunda, da leitura do contexto emocional, da relação terapêutica construída no tempo. Algo que não cabe em respostas estatísticas.
Francisco Soares trouxe o debate para um território mais íntimo. A Ivory Therapy, explicou, nasce de um período de fragilidade pessoal ligado à saúde mental. Afastando-se da abstração, a sua convicção parte de uma uma experiência vivida. A partir daí, o projeto evoluiu para uma tentativa de facilitar o acesso ao primeiro contacto com ajuda psicológica, cruzando terapia com objetos físicos e mensagens.

Mas rapidamente o discurso abriu para uma crítica mais ampla ao ambiente digital contemporâneo. «Comparison is the killer of joy», lembrou, sintetizando o impacto da exposição constante às vidas idealizadas nas redes sociais.
Não se trata apenas de tecnologia, mas de perceção: a forma como a comparação permanente redefine o que cada um considera normal, aceitável ou insuficiente na sua própria vida.
Redes sociais: causa, consequência ou reflexo?
Foi neste ponto que o debate ganhou densidade clínica. João Nuno Faria recusou uma leitura simplista da relação entre redes sociais e saúde mental. Em vez de assumir causalidade direta, introduziu uma hipótese menos confortável: a de que o uso intensivo pode ser também sintoma.
«As pessoas com mais problemas de saúde mental são as que passam mais tempo nas redes sociais, para se proteger do que estão a sentir», afirmou.

A ideia desloca o eixo do problema. As redes sociais deixam de ser apenas fator de risco e passam também a possível mecanismo de regulação emocional, ainda que imperfeito, instável e potencialmente amplificador do sofrimento.
Para tornar a ideia mais clara, surgiu uma analogia que cortou o ruído da discussão. O aumento simultâneo de consumo de gelados e de casos de cancro da pele. A leitura superficial sugere ligação. A realidade, não. O verdadeiro fator é o sol — não o gelado. Mas a coincidência temporal cria uma ilusão de causalidade.
O mesmo princípio, defendeu-se, pode aplicar-se ao debate sobre redes sociais e saúde mental. Correlação não é explicação.
2015 e a nova arquitetura da comparação
Ainda assim, os dados apresentados levantam uma questão difícil de ignorar. A partir de 2015, ano da expansão global do Instagram como plataforma centrada na imagem e no lifestyle, observa-se um aumento significativo de indicadores de distress psicológico entre jovens adultos, sobretudo entre os 18 e os 34 anos.
Mais do que coincidência tecnológica, o que muda nesse período é a escala da comparação. Deixamos de nos comparar com o círculo próximo — a turma, o bairro, o grupo de amigos — e passamos a comparar-nos com um fluxo global de vidas editadas, filtradas e otimizadas.
Tem consequências profundas no campo emocional. A perceção de insuficiência torna-se contínua, silenciosa, normalizada.
No centro de toda a discussão permanece uma tensão estrutural sobre o que acontece quando a procura de ajuda emocional começa a ser mediada por sistemas que respondem bem, mas não compreendem.
A inteligência artificial promete acessibilidade, rapidez e ausência de julgamento. A psicoterapia humana insiste na relação, contexto e presença.
Entre o «móvel IKEA» e o «trabalho de carpintaria», entre o algoritmo e o terapeuta, o que está em disputa é o tipo de escuta que a sociedade está disposta a considerar suficiente. E, sobretudo, quem — ou o quê — pode verdadeiramente ocupar esse lugar.


