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Home Corporate Internacional Notícias Guerra e negócios: seguros ajudam a mitigar impacto económico, mas não são à prova de bala

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Guerra e negócios: seguros ajudam a mitigar impacto económico, mas não são à prova de bala

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14 Maio, 2026 | 6 minutos de leitura

O aumento dos conflitos e tensões geopolíticas a nível mundial estão a por as empresas de cabelos em pé. Num contexto de crescente instabilidade, os riscos são mais difusos e imprevisíveis do que nunca. Devem os líderes proteger os seus negócios?

O impacto de conflitos armados na economia global deixou de ser uma abstração. Desde a invasão da Ucrânia em 2022 até à escalada recente no Médio Oriente, nomeadamente no Irão, as consequências têm-se feito sentir na energia, cadeias de abastecimento, preços e mercados financeiros. Para as empresas, a questão já não é se serão afetadas, mas como – e que capacidade de resposta terão.

 

Guerra global: um risco cada vez mais presente para as empresas

Os conflitos armados tornaram-se mais frequentes e próximos das economias desenvolvidas. Em 2024, registaram-se 61 conflitos em 36 países, o número mais elevado em mais de sete décadas.

Ao contrário do passado, em que a instabilidade estava concentrada em mercados menos desenvolvidos, hoje os conflitos têm impacto direto em empresas globais. De acordo com um relatório do OCDE, nos primeiros dias da invasão em grande escala da Ucrânia pela Rússia, o vasto setor cereais ucraniano – responsável por 10 a 15% do trigo e do milho comercializados a nível mundial e por quase metade do óleo de girassol do mundo – ficou subitamente impossibilitado de exportar bens essenciais.

Desde 2022, a Ucrânia sofreu danos no valor total de 195 mil milhões de dólares, com as necessidades de recuperação e reconstrução nos próximos 10 anos estimadas em 588 mil milhões de dólares. No Médio Oriente, as estimativas iniciais apontam para custos de reconstrução de apenas as infraestruturas energéticas no valor de 58 mil milhões de dólares.

Sem um seguro que proteja contra, pelo menos, parte destes riscos e perdas relacionados com a guerra, salvaguardar os investimentos atuais e futuros e ajudar as empresas a manter as suas operações será um desafio significativo.

Seguros podem não ser escudo, mas sim um airbag 

Este novo cenário está a obrigar líderes empresariais a repensar riscos que, durante décadas, estiveram fora da equação estratégica. Tom Johansmeyer, Diretor global de classes de índices da Price Forbes Re, garante que um seguro é essencial para esta nova realidade apesar de não ser à prova de bala. «Ter um seguro pode não influenciar a decisão de encerrar as atividades para proteger a sua equipa, mas influenciará os seus esforços para regressar à normalidade. Saber que haverá capital disponível através do seguro significa que outras iniciativas e programas em regiões mais estáveis do mundo não serão prejudicados pelo redirecionamento de fundos para a reabilitação pós-conflito.»

A verdade é que, em muitos casos, as apólices de seguro incluem uma «exclusão de guerra», que permite às seguradoras excluir perdas relacionadas com a guerra. No entanto, os líderes não devem partir do princípio de que esta exclusão significa que não têm qualquer recurso caso um conflito prejudique os seus negócios. As empresas podem tomar medidas específicas para se protegerem dos riscos associados a conflitos armados, desde as coberturas existentes que podem abranger a guerra até estruturas inovadoras como o seguro paramétrico.

O que devem fazer as empresas para se proteger

Perante este novo contexto, especialistas defendem que as empresas devem integrar o risco geopolítico na sua estratégia, tal como já fazem com riscos climáticos ou financeiros. Algumas das principais recomendações incluem:

  • Avaliar a exposição indireta a conflitos (fornecedores, rotas logísticas, matérias-primas);
  • Rever apólices de seguro, identificando exclusões e zonas cinzentas;
  • Considerar seguros específicos para risco de guerra ou violência política;
  • Planear cenários de disrupção, como bloqueios de rotas marítimas ou interrupções produtivas;
  • Investir em soluções inovadoras, como seguros paramétricos, que ativam indemnizações com base em eventos concretos (por exemplo, encerramento de um porto ou aeroporto).

 

Seguros devem ser prioritários na estratégia

De acordo com os especialistas da OCDE, existem dois tipos de seguros que podem proteger empresas e investidores contra riscos associados a guerras e conflitos armados:

O seguro de risco político (Political Risk Insurance – PRI) é utilizado sobretudo por investidores estrangeiros e financiadores para proteger ativos e operações em países com instabilidade política. Este tipo de cobertura protege contra perdas financeiras resultantes de situações como expropriação, incumprimento contratual, restrições à transferência de capitais ou danos provocados por conflitos. Ao reduzir a incerteza, permite também baixar o custo do financiamento e viabilizar investimentos internacionais. É disponibilizado por seguradoras especializadas, bem como por instituições financeiras de desenvolvimento e agências de crédito à exportação.

Já o seguro de propriedade com cobertura de risco de guerra pode proteger empresas e particulares contra danos materiais. Regra geral, os seguros tradicionais excluem perdas causadas por guerra, devido ao elevado impacto financeiro destes eventos. Por isso, esta proteção surge normalmente através de seguros de ‘violência política’, que podem ser contratados como produto autónomo ou como extensão de apólices existentes, sendo mais comuns em grandes empresas. Existem ainda coberturas específicas para setores como o transporte marítimo e a aviação, através de seguradoras especializadas.

Procura por seguros dispara em guerra, mas oferta diminui

Durante conflitos ativos, instala-se um paradoxo no mercado: a procura por seguros contra riscos de guerra aumenta significativamente, enquanto a oferta disponível tende a diminuir. As seguradoras privadas reduzem a exposição, aplicam exclusões e elevam prémios para níveis muitas vezes incomportáveis para as empresas.

Este fenómeno foi evidente na Ucrânia, onde a guerra levou a uma forte necessidade de cobertura para manter a atividade económica. Inicialmente, o foco esteve no transporte marítimo, essencial para exportações, e, mais tarde, alargou-se a setores como infraestruturas, indústria e transportes. Com o recuo das seguradoras privadas, instituições públicas e multilaterais assumiram um papel central, garantindo financiamento e proteção, sobretudo para investidores estrangeiros.

Intervenção pública torna-se decisiva para garantir cobertura

Perante a incapacidade do mercado privado em absorver riscos elevados, governos e instituições internacionais têm sido essenciais para manter o acesso ao seguro em contextos de guerra. Na Ucrânia, mecanismos de garantia pública e compensação permitiram retomar atividades críticas, como o escoamento de cereais, sustentando exportações e cadeias globais.

Dinâmicas semelhantes começam a surgir noutras regiões, como o Médio Oriente, onde o aumento das tensões já está a provocar uma subida acentuada dos prémios de seguros no transporte marítimo.

Apesar de não evitarem os conflitos, estas soluções mostram que o seguro pode desempenhar um papel crucial ao reduzir o impacto económico da guerra, apoiar empresas e preparar a recuperação pós-conflito. E, como relembra Tom Johansmeyer, «se queres a paz, prepara-te para a guerra».

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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