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Home Cultura e Lifestyle Entrevistas André Sardet: «Um festival é um projeto emocional e cultural.»

Entrevistas

André Sardet: «Um festival é um projeto emocional e cultural.»

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12 Agosto, 2026 | 6 minutos de leitura

A época dos festivais de verão está em alta em Portugal e a oferta continua a crescer. Para compreender o que move estes eventos, a 'Líder' publica uma série de entrevistas com alguns dos principais diretores de festivais do País. André Sardet, músico, produtor e diretor artístico d’O Sol da Caparica, é o entrevistado de hoje.

O Sol da Caparica regressa ao Parque Urbano da Costa da Caparica, entre 13 e 16 de agosto, para a 11.ª edição. Um dos maiores festivais dedicados à música lusófona, o evento reúne artistas de diferentes gerações, géneros e geografias, num cartaz que inclui nomes como Calema, Slow J, Sara Correia, Mundo Segundo & Sam The Kid, Nininho Vaz Maia e Quim Barreiros.

Em entrevista à Líder, André Sardet, diretor artístico do festival, reflete sobre os desafios de organizar um evento desta dimensão e a evolução d’O Sol da Caparica. O músico e produtor aborda ainda a renovação de públicos e o que faz um festival de verão tornar-se inesquecível.

 

Como define a identidade do Sol da Caparica e o que o distingue no panorama nacional?

O Sol da Caparica distingue-se por ser o maior, e único, festival dedicado exclusivamente à música lusófona em Portugal. Essa identidade é aquilo que nos torna verdadeiramente diferenciadores no panorama nacional.

Somos um festival profundamente ligado à cultura lusófona, à música urbana e à identidade da Margem Sul. Cruzamos diferentes gerações, estilos musicais e comunidades, sempre com uma forte valorização dos artistas que cantam em português e representam a diversidade da cultura lusófona.

 

Que evolução tem sentido desde as primeiras edições? Como se preserva a autenticidade de um evento como este?

O consórcio de empresas formado pela Domingo no Mundo e Music Mov apenas produz o festival desde 2024, contudo, é possível aferir que o crescimento foi muito natural e sustentado. O festival cresceu em dimensão, notoriedade e capacidade de produção, mas sempre com a preocupação de preservar aquilo que esteve na origem do projeto: a proximidade ao público e a valorização da música em português.

Preservar autenticidade implica saber evoluir sem perder identidade. Tentamos acompanhar tendências, melhorar a experiência e inovar, mas sem deixar de perceber aquilo que o público associa ao Sol da Caparica desde o primeiro dia.

 

O que entusiasma mais ao organizar um festival?

O mais entusiasmante é ver uma ideia ganhar vida e transformar-se num momento marcante para milhares de pessoas. Há algo muito especial em assistir à energia do público, aos concertos, às emoções e perceber que estamos a criar memórias que ficam associadas ao verão e à vida das pessoas. É também aproximar o público dos artistas e das experiências com marcas parceiras que nos acompanham. Um festival é um enorme desafio logístico, mas também um projeto emocional e cultural.

 

Como se lida com a pressão de fazer um bom festival que também seja lucrativo?

Atualmente, um festival precisa de equilibrar sustentabilidade financeira com qualidade da experiência. Existe naturalmente pressão, porque a expectativa do público é cada vez maior, mas isso também nos obriga a serm mais rigorosos, criativos e estratégicos. A chave está em construir um projeto sustentável a longo prazo, com parceiros sólidos, uma identidade clara e um público que se reveja verdadeiramente no festival.

 

Leia outras entrevistas da rubrica:

«As pessoas veem os artistas e o palco, mas não imaginam o risco financeiro que existe por trás», diz Tiago Cruz (Nómadas Festival)

«Sines permanece uma ilha de tolerância onde a diversidade é vivida e celebrada», defende Carlos Seixas, Diretor do FMM

Como se gere uma enorme equipa, presença de marcas e egos de artistas?

A organização de um festival é sobretudo um exercício de coordenação, comunicação e confiança. Há centenas de pessoas envolvidas e tudo depende da capacidade de alinhar equipas, objetivos e expectativas.

No caso dos artistas, mais do que ‘egos’, existe muitas vezes uma enorme exigência profissional e é importante garantir que todos têm condições para dar o melhor espetáculo possível. O mesmo acontece com as marcas: quando existe alinhamento e respeito pela identidade do festival, tudo funciona de forma mais natural.

 

Há algum pedido inesperado ou momento insólito com artistas que se destaque na sua memória? E um concerto?

Num festival há sempre histórias inesperadas, pedidos improváveis, mudanças de última hora, situações caricatas de bastidores, e isso faz parte da dinâmica deste tipo de eventos.

Mais do que um episódio específico, o que fica muitas vezes na memória são aqueles concertos em que sentimos uma ligação muito forte entre artista e público, quase como se o público cantasse sem o artista. E sentimos que o artista fica emocionado. Há momentos em que percebemos claramente que está a acontecer algo especial e isso é difícil de explicar a quem não esteve presente.

 

O que é que o público nunca vê, mas faz realmente um festival acontecer?

O público vê os concertos e a experiência final, mas por trás existe um trabalho gigantesco de produção, logística, montagem, segurança, equipas de limpeza, backstage, comunicação e coordenação.

Um festival começa muitos meses antes da abertura de portas e envolve centenas de pessoas a trabalhar quase 24 horas por dia para garantir que tudo acontece. Grande parte do sucesso está precisamente nesse trabalho invisível.

 

Sente que o público mudou nos últimos anos? O que se procura hoje numa experiência de festival?

Sem dúvida. Hoje o público é mais exigente, mais informado e procura experiências mais completas. Já não basta ter um bom cartaz. As pessoas valorizam conforto, ativações de marca, street food, sustentabilidade, conteúdos digitais e momentos ‘partilháveis’. O festival passou a ser também uma experiência social e emocional que vive muito para além do palco.

 

Como caracteriza a audiência do Sol da Caparica?

O público do Sol da Caparica é muito diverso, mas tem em comum uma enorme ligação à música em português e à cultura urbana contemporânea. Temos uma audiência jovem, muito ativa digitalmente, mas também um ambiente bastante transversal e familiar, o que torna o festival muito inclusivo. Existe uma relação emocional muito forte entre o festival e o público, e isso sente-se muito no ambiente que se vive durante os dias do evento.

 

Qual é o segredo para um festival memorável?

Um festival memorável é aquele que consegue criar emoção e identidade. Claro que o cartaz é importante, mas o que realmente fica na memória das pessoas são os momentos, a energia, o ambiente e a sensação de pertença, quase como se o cartaz fosse um fator secundário.

Quando o público sai do recinto com vontade de voltar no ano seguinte, percebemos que o festival conseguiu cumprir o seu propósito.

Redação,
Equipa editorial Líder

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