A liderança, seja na política ou nas empresas, encontra-se num ponto de inflexão. Num mundo polarizado, caracterizado pela fragmentação da informação e pelo declínio da confiança nas instituições, o verdadeiro imperativo é reconstruir a credibilidade reconhecendo a confiança como um capital político. É tempo de questionar como os líderes podem inspirar, aproximar diferentes perspetivas e reforçar a união através da transparência, empatia e responsabilidade.
Numa conjuntura internacional de instabilidade geopolítica e incerteza económica, Portugal tem a oportunidade de se afirmar como um porto seguro e credível para o investimento produtivo. O nosso país oferece estabilidade institucional, segurança e capacidade de diálogo, fatores críticos e altamente valorizados por qualquer investidor. A confiança é um ativo decisivo, e a capacidade de adaptação, aliada a uma ambição estratégica clara, é tão determinante quanto a inovação para o reforço da competitividade.
Sem dúvida que a inovação é um dos principais motores da competitividade, mas só fará a diferença se for acompanhada de lideranças capazes de antecipar mudanças e mobilizar pessoas.
Portugal possui ativos relevantes como talento, conhecimento e atratividade para o investimento, que devem ser potenciados por um ambiente que estimule a experimentação, valorize a ciência e acelere a adoção de novas tecnologias. A verdadeira oportunidade está na convergência entre tecnologia e capacidade industrial.
Na Tabaqueira, esta convergência entre indústria, tecnologia e talento faz parte da nossa realidade. A caminho dos 100 anos, temos vindo a reinventar-nos continuamente, apoiados por uma equipa de mais de 1.500 colaboradores preparada para os desafios de um setor em mudança. A nossa história demonstra que é possível produzir em Portugal com elevados padrões de qualidade e sustentabilidade e gerar um impacto que se estende a mais de 3.000 fornecedores, muitos deles pequenas e médias empresas portuguesas. Em 2025, exportámos mais de mil milhões de euros em bens produzidos em Portugal, demonstrando a capacidade da indústria nacional para competir e criar valor à escala global. Hoje, 91% da produção da nossa fábrica de Albarraque destina-se à exportação, reforçando o papel de Portugal nas cadeias de valor internacionais.
Uma transformação desta escala exige continuidade. Os investimentos industriais e tecnológicos são decididos com horizontes de longo prazo e, quando avaliam onde investir, os grupos internacionais consideram não apenas os custos e os incentivos disponíveis, mas também a estabilidade institucional, a previsibilidade das regras e a capacidade de diálogo. São essas condições que permitem assumir compromissos, desenvolver pessoas e continuar a investir ao longo de vários anos.
A previsibilidade não elimina o imprevisto, mas dá às organizações uma base mais sólida para lhe responder. A minha própria experiência ao assumir a liderança da Tabaqueira em janeiro de 2021, num dos períodos mais incertos da história recente, reforçou uma convicção: não escolhemos todas as circunstâncias em que somos chamados a decidir, mas podemos escolher a clareza com que definimos uma direção, a coerência com que agimos e a confiança que transmitimos às pessoas. Foi essa visão e consistência que hoje nos permite ser uma empresa líder e a 7ª maior exportadora do país, sendo a base de centros de excelência da Philip Morris International, como por exemplo o PMI Tech Hub, que conta com mais de 250 engenheiros de 21 nacionalidades, e a que se juntou, entretanto, a nova Fábrica de Inteligência Artificial Generativa (GenAI), reforçando o papel de Portugal como polo estratégico de inovação e tecnologia do grupo.
Transformação e Estabilidade
Num ambiente em que a informação se multiplica a grande velocidade, a capacidade de interpretar o panorama geral, de ligar acontecimentos aparentemente distantes e de antecipar os seus efeitos, torna-se vital. As equipas precisam de compreender as decisões e de avançar na mesma direção.
A estabilidade e a transformação não são ideias opostas. Pelo contrário,
quanto mais profunda é a mudança, mais importantes se tornam as referências que dão segurança:
uma visão de longo prazo, prioridades consistentes e um compromisso contínuo com o desenvolvimento das pessoas. São estas referências que permitem às pessoas enfrentar a transformação com confiança. Investir nas pessoas significa ir além das necessidades imediatas, estimulando a curiosidade, a capacidade de aprender e a disponibilidade para questionar o estabelecido. As competências de hoje podem não ser as de amanhã. É a nossa responsabilidade criar as condições para que as pessoas avancem com clareza, confiança e sentido de direção num mundo incerto e marcado pela fragmentação da informação.
Empresas e instituições, embora partam de perspetivas diferentes, partilham a responsabilidade de não deixar que a urgência do presente comprometa o longo prazo. Num contexto europeu em que se discutem a soberania económica e a reindustrialização, Portugal é parte da solução. Tem talento, capacidade industrial e empresas preparadas para investir e inovar. Precisamos de reforçar um enquadramento que transforme estabilidade em crescimento e confiança em investimento. A liderança do futuro será definida pela nossa capacidade de navegar na complexidade, aproximar diferentes perspetivas e construir relações de confiança.
Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.

