A espécie da espécie humana

Nós, eu, tu, ele, vós, eles, que raio é a espécie humana? Algo que definimos e que nos contentamos com a definição. Mas esta definição é ‘em si’ ou ‘para si’, ou, neste caso ‘para nós’? A espécie humana, por outras palavras, é uma definição que temos entre nós (como a espécie aracnídea pode ter para elas) ou existe mesmo para além de nós humanos, e nesse caso é algo que existe em si mesmo, não dependendo de quem faz a definição?

Bem sei que esta pergunta para a maior parte das pessoas, nem faz sentido. A espécie humana existe e pronto. É um dado adquirido e inquestionável. Porém, se assim for, a quem recorreremos como juiz da nossa decisão? A resposta só pode ser a alguém ou algo que esteja para além, ou para lá, da própria espécie. Esse alguém ou algo, definimo-lo há milhares de anos: é Deus.

Deus, ou qualquer outro demiurgo, terá criado as espécies, o mundo, os animais e as plantas, o Universo, numa palavra, e no meio deste (ou na extremidade, isso não sabemos) plantou uma raça de animais inteligentes que, como diz António Damásio, se desenvolveu através das emoções, e através da linguagem. Só que essa explicação não é a última: se há animais, como os outros que, como dizem os neodarwinistas (de que Damásio não é discípulo), não necessitaram de nada de extraordinário que não fosse a evolução pura e simples, para se tornar extraordinários, podemos sempre perguntar: quando falamos de Universo falamos entre nós, ou contamos com outras espécies, outras espécies de vida, ou de algo semelhante a vida?

Peguemos neste conceito: algo semelhante a vida, para o desenvolver: os vírus. Os vírus não são seres vivos, não tem DNA, mas não são seres inertes, tem ARN. Ou seja, nem são como o arroz, nem como o ouro ou o granito. No entanto, os vírus, como temos vindo a ver e a viver, nos últimos tempos, dominam o nosso querer e a nossa forma de viver.

Seremos escravos deles? Viajamos de avião porque eles querem chegar da China ou da África do Sul aos polos desenvolvidos da Europa e dos EUA mais depressa? Uma doença que no século XVI ainda demorava um mês, ou mais, a vir de um desses locais, demora agora um par de horas. Poderemos ser nós uma estratégia desses ser vivos?

Diremos que não, que tal ideia é absurda. Deve ser… Mas vamos por um momento pensar nela, no sentido de admitirmos que o vírus tem uma ontologia própria. Ou seja, os vírus, que não sabemos se são um ser ou se vários constituem um ser, ou se não são sequer seres, propiciam a existência de um animal que ele (vírus) foi selecionando para ser o melhor instrumento para o seu sucesso. E assim levou o humano, sempre com mão branda e sem a consciência em si do ser selecionado (ou escravo), a construir barcos, comboios, automóveis, aviões, foguetões para no organismo que lhe serve de hospedeiro conquistar o mundo e o Universo.

A ideia é parva, mas aliciante. E se… se afinal não passássemos de uma estratégia alheia, convictos que a essa estratégia era definida por nós, que as conquistas são nossas, que a inteligência é nossa?

Claro que a questão da felicidade e bem-estar, da prosperidade, da paz e, até, da vida eterna, não se poriam, ou se colocariam apenas para nós. Um cão ou gato doméstico considera-se feliz, com bem-estar, prosperidade e paz se tiver um dono compreensivo e amigo? E nós, como espécie, se não formos todos aniquilados, como não fomos na peste negra, na gripe espanhola e noutras tantas pandemias, alguma vez nos lembrámos dos nossos avós, dos avós dos nossos avós, sacrificados nesses terríveis episódios?

Pelo contrário, sentimo-nos sempre capazes de ultrapassar as maleitas do passado, acreditamos que o presente tem respostas e que o futuro terá ainda mais. Mesmo que seja essa a estratégia de quem nos comanda, de fora, e a quem colocamos nomes estranhos (SARS-CoV-2 e as variantes que chegam a Ómicron, a 15.ª letra do alfabeto grego).

E aqui chego ao que devemos ensinar aos nossos filhos: que a espécie da espécie humana sempre foi arrogante, sempre achou que sabia tudo o que havia para saber; que a floresta a desbravar é tão grande como o mundo; que é sempre possível colocar novas questões às questões colocadas; que é verdade o velho postulado atribuído a Sócrates: “só sei que nada sei”.

Eu não consigo ir além dele. As perguntas que me surgem são quase todas irrespondíveis. Mas a procura, o caminho, a demanda é a parte interessante da vida. Terão os vírus esta ansiedade de conhecer, ou serão meros mecanismos? Não sei… mas prefiro que sejamos como somos.

 


Por Henrique Monteiro, Jornalista e antigo Diretor do Expresso

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