Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar? Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião […]
Até ao dia das eleições legislativas, 30 de janeiro, a Líder vai publicar diariamente as opiniões e contributos de várias personalidades a quem foi lançado o desafio de responderem à pergunta: O que precisamos mudar?
Homens, mulheres, jovens, seniores, caucasianos, negros, crentes e não crentes, qualquer que seja a orientação sexual terão a sua opinião na Líder e serão capa.
Na Líder a capa é de todos.

Pedro Calapez é artista plástico, vive e trabalha em Lisboa, onde fez os estudos na Escola Superior de Belas Artes. Em 1982 realiza a sua primeira exposição individual. O seu trabalho tem sido mostrado em diversas galerias e museus tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2012 recebeu o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique.
O melhor é querermos tudo
Pois Vosso é o Reino / Entre a concepção / E a criação / Entre a emoção / E a resposta / Cai a Sombra / A vida é muito longa / Entre o desejo / E o espasmo / Entre a potência / E a existência / Entre a essência / E a descida / Cai a Sombra / Pois Vosso é o Reino / Pois Vosso é / A vida é / Pois Vosso é / É assim que o mundo acaba / É assim que o mundo acaba / É assim que o mundo acaba / Não com um estrondo, com um suspiro.
Esta é a parte final de um poema de 1925, The Hollow Men, de T.S. Eliot (tradução de André Consciência). Estamos a ficar ocos, esvaziados de sentido. O que mudaremos para trazer de volta o nosso lugar, para nos trazer a nós para dento de nós?
É só isto que Portugal precisa. Querer menos, querer mais. Deixar correr o dia lentamente e não sabendo o que fazer, parar e ver o nada. O silêncio na rua, o Sol na janela, os passeios na praia, a vida com saúde. Os amigos que não nos faltem.
Conseguir que a estupidez que em muitos se revela, desapareça, e desapareçam também a falta de ética e respeito, as más maneiras, e os olhos que já não se sabem revirar e maravilhar-se. Esta é a obra e tudo o que queremos. Fazer e contemplar. Ainda há tempo.
Árduas são, no entanto, as distâncias que nos separam e aproximam. Separamo-nos por entre margens que não conseguimos dominar. Estamos ora de um lado ora do outro. Como reaprenderemos o contacto? Por vezes é mesmo difícil ir contra o vento. Às voltas com o correcto e o incorrecto deveríamos fazer o caminho do bosque roçando-nos nas folhas, nas ervas, limparmos a desconfiança, os mal-entendidos.
Estamos em guerra e Portugal não consegue evitar lutas inglórias. Há que descobrir o caminho do que não se sabe. É que somos todos diferentes. O melhor não é esperar que os nossos vençam. O melhor é vencermo-nos a nós próprios. E não esquecer que a Natureza cá continuará espantada por não saber como nos acompanhar.
Mudaremos Portugal porque nós próprios teremos que mudar. Só depois mudaremos o Mundo.
E canto, canto alto, mas lento: Tenho no quintal um limoeiro / Junto ao canteiro da hortelã / Ele me dá limões o ano inteiro / E eu em troca o rego todas as manhãs / E eu em troca o rego todas as manhãs / Isto é se não chover primeiro / Junto ao canteiro da hortelã / Tenho no quintal
um limoeiro (cante alentejano).
A canção do limoeiro revela como acertar tudo o que nos rodeia, é onde se aprende a não ser oco.
E então conseguiremos tudo.


