CEOs que, durante a infância, tiveram experiências diretas ou indiretas com a pobreza são mais propenso/as a conduzir as suas empresas para ações de responsabilidade social. Estas lideranças também são mais frugais e menos propensas a fruir de “especiais” regalias no exercício do cargo. Este efeito é mais vincado quando, enquanto crianças e jovens, essas […]
CEOs que, durante a infância, tiveram experiências diretas ou indiretas com a pobreza são mais propenso/as a conduzir as suas empresas para ações de responsabilidade social. Estas lideranças também são mais frugais e menos propensas a fruir de “especiais” regalias no exercício do cargo. Este efeito é mais vincado quando, enquanto crianças e jovens, essas pessoas fruem de boas oportunidades de educação. O efeito é também reforçado pelo poder de que o/a CEO dispõe no exercício da função.
São estes os principais resultados de uma investigação recentemente publicada. CEOs que tiveram experiências de pobreza desenvolvem mais empatia pelo sofrimento dos outros. Essas experiências também ajudam essas lideranças a desenvolver competências sociais, pois a adversidade vence-se num quadro de apoio relacional mútuo. Quando são incumbidas da função de CEO, e esse papel está investido de poder significativo, estas lideranças estão mais motivadas e têm a força e a autonomia que lhes permite tomar decisões empresariais focadas no benefício dos vários stakeholders.
Esse efeito é mais vincado entre as lideranças que tiveram acesso a formação superior porque a educação ajuda-as a canalizar positivamente e de modo mais produtivo as forças desenvolvidas num quadro de adversidade. A educação a que tiveram acesso também as ajuda a desenvolver autoconfiança. Acresce que, tomando nota da oportunidade que lhes foi concedida de escaparam a um pobre destino, desenvolvem sentido de gratidão perante a comunidade e o desejo de agir reciprocamente. Assim procedem quando, como CEOs, impulsionam as suas empresas a adotar mais ações de responsabilidade social.
O facto de a investigação ter sido realizada na China pode recomendar alguma cautela interpretativa. Ademais, algumas pessoas que estão a ler este texto poderão lembrar-se de CEOs que, tendo vivido experiências de pobreza, se tornaram sobranceiro/as e soberbo/as quando se sentaram na cadeira do poder. Mas importa “não deitar fora o bebé juntamente com a água”. O resultado da investigação está refletido em evidência observada noutros países.
O caso do norte-americano Howard Schultz é ilustrativo. O líder da Starbucks afirmou numa entrevista: “O meu pai era operário (…). Não fruía de quaisquer seguros ou benefícios de saúde, e eu apercebi-me, em primeira mão, do efeito debilitante que isso teve nele e na família. Decidi que se eu alguma vez estivesse numa posição que me permitisse dar uma contribuição para os outros nessa matéria, dá-la-ia.” Podemos observar casos semelhantes em CEOs e empresário/as portuguese/as que traduziram as suas difíceis experiências de infância e juventude em ações de gestão focadas no bem-comum.
Esta e outra evidência são consistentes com o que outros estudos têm sugerido sobre os efeitos de experiências marcantes vividas pelas lideranças. Por exemplo, líderes que tiveram experiências dramáticas com crises financeiras e outros desastres são mais cauteloso/as na tomada de decisão. Líderes que exercem funções de voluntariado em instituições de apoio a sem-abrigo, jovens delinquentes, doentes terminais com HIV, ou emigrantes que procuram exilo ficam mais para lidar com as particularidades locais dos países mais pobres onde as suas multinacionais investem.
As ilações a extrair desta evidência são abundantes e, em certa medida, paradoxais, sobretudo para um país, como o nosso, onde uma parcela muito significativa de pobres luta por uma vida digna. Milhares e milhares de famílias, com salários indecorosos, ficam incapacitadas de facultar aos seus filhos o acesso à educação, sobretudo a de maior qualidade, nacional e internacionalmente. Esta impossibilidade gera-lhes desvantagem perante os filhos da “lotaria ovariana” – a expressão usada por Warren Buffet. Estes acedem a educação de melhor qualidade e, depois, a posições de liderança e poder nas quais, devido às suas experiências de vida, revelam menor empatia pelos pobres que nas suas empresas trabalham.
Assim se vai reforçando o círculo vicioso que dificulta o acesso à igualdade de oportunidades, alarga o fosso da desigualdade, cria tensões sociais e pode fazer perigar os alicerces sociais das democracias liberais. É fundamental que o acesso à educação de nível superior seja efetivamente (e não apenas formalmente) democratizado.
É crucial que as lideranças não se fechem na sua bolha (material, residencial, social, educacional) e tomem contacto com as agruras de numerosas pessoas que nas suas empresas trabalham. Importa que filhos de ricos e filhos de pobres convivam na escola pública. É crucial que as narrativas de responsabilidade social e de sustentabilidade se traduzam em ações concretas das empresas em prol da redução da pobreza – sob pena de virmos a confrontar-nos com tensões geradoras de resultados amargos para os sistemas políticos, as sociedades e as próprias empresas.

