Durante anos, os ciberataques foram tratados como um problema técnico, circunscrito aos sistemas informáticos e à proteção de dados. Hoje, essa visão revela-se curta. Nas pequenas e médias empresas portuguesas, os incidentes de cibersegurança estão a deixar marcas mais profundas, atingindo o lado humano das organizações.
Segundo o Relatório de Ciberpreparação da Hiscox 2025, 68% dos colaboradores afetados por ciberataques reportam impactos negativos no seu bem-estar. O stress elevado surge como a consequência mais frequente, sentida por 41% dos trabalhadores, seguido do esgotamento profissional (33%) e de um ambiente laboral mais tóxico (22%). Os números revelam uma pressão crescente sobre equipas que, muitas vezes, já operam com recursos limitados e margens reduzidas.
O estudo, realizado junto de empresas de diferentes setores e dimensões, confirma que os efeitos dos ciberataques ultrapassam largamente a esfera tecnológica. Para além das interrupções operacionais e dos riscos reputacionais, os incidentes digitais estão a influenciar a forma como os colaboradores vivem o trabalho, se relacionam entre si e percecionam a segurança do seu próprio emprego.
Ainda assim, o relatório identifica nuances num cenário predominantemente adverso. Em algumas organizações, a resposta a um ataque acabou por reforçar laços internos: 33% dos colaboradores referem um aumento da camaradagem após um incidente de cibersegurança, enquanto 24% dizem sentir maior lealdade à empresa. No conjunto, estes fatores resultam num impacto positivo líquido de 45%, sugerindo que a forma como a empresa reage a uma crise digital pode ser determinante para o clima interno.
«Os resultados mostram uma nova perspetiva sobre os impactos de um ciberataque e sobre as preocupações com a cibersegurança nas empresas», afirma Ana Silva, Cyber Lead da Hiscox Portugal e Espanha. «Não se trata apenas de proteger dados ou a reputação da empresa. Os ciberataques têm também um impacto real nos colaboradores e no seu bem-estar, o que representa uma oportunidade para investir em estratégias mais completas, que aliem prevenção, boas práticas e uma cultura organizacional mais resiliente.»
Uma ameaça recorrente
A dimensão humana do problema é agravada pela frequência dos ataques. De acordo com o relatório, 54% das PME portuguesas foram alvo de pelo menos um ciberataque nos últimos 12 meses, sendo que mais de metade registou entre um e dez incidentes no mesmo período. A repetição destes episódios cria um clima de alerta permanente, que contribui para a fadiga emocional e para a sensação de vulnerabilidade dentro das equipas.
Os dados refletem uma realidade em que as ameaças digitais são cada vez mais diversificadas e persistentes, exigindo das empresas uma capacidade de resposta contínua. Neste contexto, o estudo defende que a cibersegurança deve ser encarada como um investimento estrutural e não apenas como uma resposta pontual a incidentes.
Com o arranque de um novo ano, a Hiscox sublinha a importância de as PME reverem e reforçarem as suas estratégias de cibersegurança, conscientes de que um ataque pode, em alguns casos, colocar em causa a continuidade do negócio. Mais do que uma questão tecnológica, a cibersegurança afirma-se como um desafio transversal, onde sistemas, processos e pessoas estão indissociavelmente ligados.


