Há decisões que mudam destinos, algumas até alteraram o rumo da História, a assinatura de tratados de paz, o fim da escravatura, a declaração universal dos direitos humanos. Outras passam despercebidas, tomadas em silêncio, no recato de uma família ou de um hospital, mas todas carregam um peso comum, decidir é sempre um ato de […]
Há decisões que mudam destinos, algumas até alteraram o rumo da História, a assinatura de tratados de paz, o fim da escravatura, a declaração universal dos direitos humanos. Outras passam despercebidas, tomadas em silêncio, no recato de uma família ou de um hospital, mas todas carregam um peso comum, decidir é sempre um ato de liberdade, de responsabilidade e de vulnerabilidade.
O passado recorda-nos que decidir nunca foi apenas escolher entre opções, é um gesto profundamente humano, enraizado na consciência da nossa finitude. Hans Jonas dizia que a decisão ética começa quando percebemos que as nossas escolhas têm impacto na vida de outros, esse impacto, hoje, talvez seja mais evidente do que nunca, vivemos num mundo interligado, onde as decisões políticas, ambientais ou tecnológicas ultrapassam fronteiras e definem o futuro coletivo.
O que acontece quando as decisões tocam na própria vida e na própria morte?
Numa manhã cinzenta, acompanhei uma doente em fase avançada de cancro que me disse: «Não tenho medo de morrer, doutor. O que me assusta é não poder decidir como quero viver estes últimos dias.» Esta frase, tão simples, carrega uma verdade que atravessa culturas e tempos.
No limiar da vida o que mais desejamos é que nos seja reconhecida a dignidade de escolher, escolher como queremos ser cuidados, onde queremos estar, quem queremos ao nosso lado.
Nem sempre significa querer viver a qualquer custo ou morrer depressa; significa, sobretudo, ser escutado.
No entanto, decidir em momentos de vulnerabilidade é um desafio ético imenso, a autonomia é muitas vezes frágil quando o corpo falha, a dor se instala ou o medo paralisa. É por isso que as decisões mais importantes não podem ser tomadas isoladamente e precisam de um espaço de diálogo, entre doentes, famílias, profissionais de saúde e a sociedade, mas esse espaço é cada vez mais difícil de encontrar num mundo acelerado, onde as respostas rápidas parecem valer mais do que a escuta demorada.
Hoje, decidir é também navegar num oceano de informação; a inteligência artificial, os algoritmos preditivos e a avalanche de dados prometem ajudar-nos a escolher melhor.
Mas será que nos ajudam realmente a decidir?
A tecnologia pode iluminar caminhos, mas não pode substituir a sabedoria de discernir o que tem valor; decidir não é apenas calcular probabilidades, é assumir que por trás de cada número há uma vida concreta, com histórias, medos e afetos, uma narrativa. Quando delegamos totalmente a decisão a uma máquina ou a uma estatística, corremos o risco de desumanizar o processo, desvalorizar as especificidades e as histórias que há por trás de cada pessoa; progresso só faz sentido se for usado para ampliar a dignidade, não para a reduzir.
A pandemia de COVID-19 mostrou-nos como decisões difíceis, quem tem acesso a cuidados intensivos, quando suspender tratamentos, podem abalar a confiança social. Mostrou-nos também que as grandes decisões éticas não se resolvem com decretos, mas com processos transparentes e partilhados, ensinou-nos que ninguém decide bem sozinho.
Talvez por isso, mais do que respostas definitivas precisamos de cultivar uma cultura de discernimento, em vez de perguntar apenas «o que é permitido?», precisamos de perguntar «o que é o melhor para esta pessoa, neste momento?».
Esta mudança exige tempo, escuta e humildade, reconhecer que decidir não é um ato de poder, mas um gesto de cuidado.
A morte continua a ser um tabu em muitas sociedades, o verdadeiro desafio não é decidir sobre a morte; é decidir sobre a vida até ao fim, garantir que cada pessoa, independentemente da sua condição, possa ser acompanhada com compaixão e dignidade, abrir espaço para que os mais frágeis não se sintam um peso, mas parte da comunidade.
A decisão é um lugar de encontro, encontro com a nossa própria finitude, com a vulnerabilidade dos outros e com a responsabilidade que temos uns pelos outros. Mais do que escolher entre A ou B, decidir é estar disposto a partilhar o caminho, é isto que nos torna humanos, não fechar portas, mas abrir possibilidades.
No final, talvez devamos reaprender o que já sabiam os antigos, decidir é um ato que não se mede pelo controlo que temos, mas pela relação que construímos. A verdadeira decisão ética não se impõe; convida, convida a estar, a ouvir, a cuidar, convida a acreditar que, mesmo no limite da vida, há sempre um futuro possível quando existe encontro.
Este artigo foi publicado na edição nº 31 da revista Líder, cujo tema é ‘Decidir’. Subscreva a Revista Líder aqui.


