Como é costume nesta época, dedico hoje estas linhas a dissecar as figuras do ano. Para mim, trata-se de dois povos: os da Ucrânia e Irão. Ambos têm estado sob opressão, num caso externa, noutro interna. Ambos merecem respeito e apoio da maneira que formos capazes. Sobre o povo ucraniano muito se tem falado, mas […]
Como é costume nesta época, dedico hoje estas linhas a dissecar as figuras do ano. Para mim, trata-se de dois povos: os da Ucrânia e Irão. Ambos têm estado sob opressão, num caso externa, noutro interna. Ambos merecem respeito e apoio da maneira que formos capazes.
Sobre o povo ucraniano muito se tem falado, mas todo o apoio é pouco. Dizia-se que não valia a pena resistirem porque estavam condenados a perder a guerra. Os jornais anunciavam a queda de Kiev no primeiro fim de semana da guerra. Putin teria afirmado que o seu exército faria cair o regime em poucos dias. No final do ano, a situação era outra: a Ucrânia resistiu. Não será assimilável pela Rússia. As atrocidades russas serão recordadas e mudarão a perceção do regime: os antigos vencedores dos nazis tornaram-se eles próprios invasores e opressores imperialistas. Uma coisa é certa: a Ucrânia será uma nação respeitada. Que consiga a liberdade que merece.
Outro povo sedento de liberdade é o do Irão. A morte de Mahsa Amini às mãos da polícia é mais um exemplo da repressão conduzida pelos teocratas que mandam no país. O Irão agride o seu povo e ajuda o ditador de Moscovo a agredir os ucranianos e os russos que se opõem ao regime de Putin. No Irão, as mulheres e os homens que todos os dias se manifestam são um grande exemplo de coragem. A sua luta ajuda a perceber que a liberdade não deve ser dada por garantida. Nem lá nem cá, onde persistem os ventos de uma outra polícia da moralidade que não perde uma oportunidade para, de forma muito orwelliana, procurar levar os outros a “pensarem bem”. Estranho ano, este 2022, rico em ditadores e ditaduras, polícias da moralidade e pensadores de uma versão do “Bem” que é simultaneamente laica e religiosa. Não deixa saudades…
P.S. A não notícia do ano – porque ninguém lhe ligou muito, talvez por causa dos protestos juvenis pelo clima – talvez tenha sido o avanço na frente da energia de fusão. Segundo quem percebe, esta promete ser a forma de energia limpa e segura para o futuro. Vai ser tornada possível pelo investimento de Estados e de empresas. Aguardemos.
