O haiku, paradigma supremo do conceito de que o que é pequeno é o que está mais perto da beleza, revela-se como um perfeito veículo poético através do qual são postos em movimento inesperados paradoxos e ambivalências que se vão despojando de quase toda a roupagem.
Desde há muito que vem sendo consensual a ideia de que Bashô é o maior poeta japonês de todos os tempos. Chega a ser difícil de entender que, perante uma projecção tão abrangente da sua arte, Bashô apenas tenha publicado um único livro, Kai Ôi (Jogo de Conchas). Um verdadeiro haiku nunca diz tudo, não pode dizer tudo.
O poema haiku não inferioriza nem zomba, não se serve do intelecto, valoriza as coisas pequenas, valendo-se da surpresa e de um reduzido vocabulário.
É uma «canção sem palavras» (R.H. Blyth). Começa ainda antes da primeira letra da primeira linha e acaba muito depois da última sílaba da terceira linha. É poesia despersonalizada, já quase fora da linguagem comum, nasce no silêncio, atravessa, como um relâmpago, o olhar do contemplador e regressa ao silêncio; e enquanto existiu pareceu durar o tempo de um movimento respiratório.
Origem e evolução
O haiku, tal como hoje o conhecemos, vai buscar as suas raízes mais antigas ao estilo poético denominado waka (literalmente, «poema japonês«). (…) A partir dos caracteres chineses, os japoneses vão criar a sua própria escrita, de natureza silábica. (…) A waka subdividia-se em vários estilos: kata-uta, chôka e tanka. O estilo kata-uta («meio poema») tinha ainda uma ligação residual com a herança chinesa, por via do canto e lírica populares, com ritmo silábico 5-7-7. (…) No contexto da história literária japonesa o kata-uta foi de uma importância fundamental, pois a sua estrutura silábica (5-7-7) passou a ser daí em diante um factor determinante na consolidação da poesia nipónica. (…) A forma poética kata-uta vai desaparecer ainda no século VIII. É nessa altura que surge o estilo chôka («poema longo»), formado por estrofes duplas de 5 e 7 sílabas e que conclui com uma estrofe de 5-7-7 sílabas. (…) Reservado para ocasiões especiais, acaba por sofrer uma retração no século IX, só ressurgindo três séculos mais tarde, reformulado, com o nome renga.(…)
No século XIV, o renga, devido a regras rígidas e complicadas de composição que entretanto o foram formatando, separa-se em dois estilos opostos: o renga sério (ushin-renga) e o renga ligeiro (haikai-no-renga). (…) A poesia haikai-no-renga acaba por assumir o nome de poesia haikai, e estabelece como norma a composição de trinta e seis estrofes. (…) Na poesia haikai, a primeira estrofe (com três versos e correspondendo à métrica sonora de 5-7-5 sílabas) chama-se hokku, e nela deverão estar sugeridas a estação do ano e a temática do poema.
Esta estrofe inicial, de existência própria, assume-se como ponto de partida para o desenrolar encadeado da restante composição, tendo os intervenientes sempre em mente o mote expresso no hokku. (…) Entre as palavras haikai e hokku, nasce o neologismo «haiku», designação criada, no fim do século XIX, pelo poeta Masaoka Shiki (1867-1902). (…) O primeiro ocidental a escrever um poema haiku foi Hendrik Doeff (1764-1837), chefe da Delegação comercial holandesa em Nagasaki; o seu poema «uma brisa de primavera/ e os pequenos barcos/ não param quietos» faz parte da antologia Misago-zushi (1818).
Matsuo Bashô
Nasce em 1644 em Ueno, província de Iga. Em 1664 escreve o seu primeiro poema, sob o pseudónimo de Sôbô, e em 1672 escreve o seu primeiro e único livro, Kai Ôi (O Jogo das Conchas). Muda-se para a cidade de Edo (que mais tarde passará a chamar-se Tóquio), onde vai desempenhar funções administrativas.
Em 1680 abandona o seu emprego, dedica-se à poesia e funda a sua própria escola, denominada Shômon («Escola da Autenticidade»). Por ter levado uma existência quotidiana regrada por princípios muito frugais e pelo facto de ter tido contactos regulares com o mestre budista Buttchô, muita gente é induzida a afirmar que Bashô foi um metódico praticante do budismo na sua vertente zen, tendo sido até ordenado monge. Adoece e morre a 12 de outubro de 1694. É plantada uma bananeira (bashô) sobre a sua sepultura.
1667
PRIMAVERA
24.
lua encoberta –
para onde foi
a luz da flor?
27.
botões de flor por abrir
também o meu saco de poemas
continua fechado
INVERNO
28.
como pequenos bolos
a neve faz dos ramos do salgueiro
cordas brancas
1669
OUTONO
35.
hoje não pode ver-se
o homem formoso
lua oculta pela chuva
VERÃO
37.
primeiras chuvas de verão
convém medir bem os baixios
do rio há muito conhecido
1677
ANO NOVO
59.
em casa do Ano Novo
com o meu nome
começa um novo poema
1687
ANO NOVO
264.
feira de fim de ano
saio de casa
e vou comprar incenso
OUTONO
306.
o som da roupa a ser limpa
fica mais nítido
quando é refletido pelas estradas
1688
PRIMAVERA
340.
quando floresce a ameixeira
nada sei
como o coração dos poetas
Nota: A partir do livro O Eremita Viajante (Haikus – obra completa), Matsuo Bashô, Assírio & Alvim, 2016. Organização e versão portuguesa de Joaquim M. Palma.
Este artigo foi publicado na edição nº 32 da revista Líder, cujo tema é ‘Simplificar’. Subscreva a Revista Líder aqui.


