Não haverá talvez dois temas com menor ligação do que o humor e as finanças. Especialmente se a imagem mental que projectou depois de ler a primeira frase deste artigo foi a de uma visita a uma qualquer repartição de finanças, ou uma carta registada da autoridade tributária ao abrir a sua caixa de correio. […]
Não haverá talvez dois temas com menor ligação do que o humor e as finanças. Especialmente se a imagem mental que projectou depois de ler a primeira frase deste artigo foi a de uma visita a uma qualquer repartição de finanças, ou uma carta registada da autoridade tributária ao abrir a sua caixa de correio. Descanse. Pode continuar a ler que a ideia não é essa. Por um lado, pretende-se que os próximos 3 minutos de leitura sejam uma experiência agradável. Por outro, a ideia de finanças que pretendo associar ao humor corresponde a um conceito um pouco mais alargado.
As finanças dizem respeito à gestão do dinheiro, às decisões de investimento e de financiamento. De forma geral, quando falamos em finanças procuramos entender de que forma os indivíduos, as empresas e outras instituições alocam, gerem e utilizam os seus recursos financeiros. Mas ainda que o tema “finanças” não se reduza à nossa interacção com a administração fiscal, estes também não são, tipicamente, assuntos que nos façam rir.
Até que ponto pode então o humor ser utilizado como forma de comunicação num tema tão sóbrio, complexo, e que se quer objectivo como as finanças?
O humor é uma forma de comunicar com características muito especiais. Não só porque entretém, mas também porque estabelece uma ligação de maior proximidade com a audiência. Através do humor e do riso é possível aliviar tensões e criar um ambiente de maior descontracção.
Quando usado adequadamente, o humor também pode ajudar a estabelecer uma relação de maior confiança entre o comunicador e a sua audiência, porque cria uma sensação de conexão e de empatia. No entanto, o humor também é, inevitavelmente, conotado com brincadeira e diversão. Ao ser utilizado, pode levantar questões quanto ao rigor do que se quer comunicar ou gerar desconfiança quanto à seriedade do interlocutor.
Um estudo recente publicado na Review of Accounting Studies, e quem diria que um dos primeiros artigos científicos sobre humor no domínio da economia e finanças seria publicado exactamente numa revista de contabilidade, mostra que o uso do humor é relevante no contexto da comunicação empresarial. Mais especificamente, o estudo mostra que quando o humor é usado para anunciar os resultados de empresas cotadas, a resposta dos mercados financeiros, assim como a resposta dos analistas que fazem as projecções dos resultados e recomendações de investimento, tende a ser mais positiva.
Isto acontece porque os resultados negativos são parcialmente ignorados quando são comunicados com recurso ao humor. O artigo também mostra que o mecanismo através do qual o humor é relevante neste contexto tem essencialmente a ver com a forma como é recebida a informação por parte de quem a recebe. Uma hipótese alternativa, que o estudo tende a rejeitar, é facto do uso do humor por parte dos gestores poder revelar boas notícias, ou expectativa de bons resultados futuros por parte das empresas.
Não só os resultados deste estudo, mas o facto de o humor estar a ser levado cada vez mais a sério em contextos empresariais e académicos no que às finanças diz respeito, parece sugerir que os seus benefícios excedem eventuais limitações que lhe possam estar associadas. Na universidade de Stanford, por exemplo, há uma disciplina exclusivamente dedicada ao humor nos negócios. Este ano, numa das mais reconhecidas conferências académicas de finanças, a conferência anual da European Economic Association, o humor vai ter um papel de destaque. Lado a lado com painéis em que participam académicos galardoados com o prémio Nobel da economia e outros onde se apresentam os resultados da mais recente investigação nesta área de conhecimento, haverá um conjunto de sessões dedicados ao tema do humor e finanças.
O que estas iniciativas parecem sugerir é que o humor pode ser uma forma efectiva de comunicar ideias complexas. No caso da investigação científica por exemplo, o facto das universidades serem vistas por muitos como torres de marfim e os académicos como personalidades pouco acessíveis, faz com que a comunicação com o público se torne muitas vezes distante e difícil.
No entanto, é muito importante que os resultados da investigação neste domínio cheguem aos decisores e responsáveis por políticas públicas, assim como ao grande público. O humor pode desempenhar um papel importante nessa comunicação, tornado quem comunica em alguém mais acessível, e o conteúdo mais leve e mais fácil de entender.
A academia e a investigação científica serão talvez um caso extremo de complexidade e distância dos interlocutores. Mas podemos pensar que o uso do humor também pode ser útil em questões menos sofisticadas, como no caso da literacia financeira. Segundo um estudo do Banco Central Europeu, Portugal está na cauda da distribuição entre 19 países no que à literacia financeira diz respeito. Apenas 1 em 4 Portugueses conseguiu responder correctamente a um conjunto de perguntas sobre inflação, taxas de juro e diversificação de risco. Quem sabe se através do humor se poderá reverter esta situação. Talvez dos 4 houvesse mais um ou dois que apreenderiam estes conceitos se estes fossem apresentados com algum humor.
Há vários motivos pelo qual me parece plausível que o humor possa ajudar à literacia financeira. Primeiro, porque o humor é uma forma de captar a atenção e o interesse por um tema (já que o assunto dinheiro propriamente dito não parece interessante o suficiente para captar a atenção de 3 dos 4 participantes no estudo). Por outro lado, o uso do humor dá primazia à simplificação, à clareza e à parcimónia.
A simplificação da mensagem pode certamente fazer com que a audiência retenha mais eficazmente as ideias principais, quer no curto prazo quer mesmo no longo prazo. Por último, porque o humor pode ajudar a quebrar alguma barreira ou algum preconceito que exista quanto ao tema ou às ideias que lhe estão associadas. A matemática, por exemplo, é um tema pouco simpático para uma percentagem significativa da população, mas essencial no que respeita ao entendimento das finanças.
Fazer rir não é uma tarefa fácil. Fazer rir quando o tema é finanças será certamente uma tarefa ainda mais desafiante. Fica o desafio, já que o retorno do investimento parece estar assegurado.
(escrito de acordo com a antiga ortografia)
