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Sustentabilidade

Lisboa quer ser cidade do futuro. Para quem?

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28 Setembro, 2026 | 15 minutos de leitura

O futuro parece ter chegado a Lisboa mais rápido do que se previa, numa capital que continua a granjear prémios internacionais vistosos. ‘Smart city’, ‘green city’, ‘startup city’ são alguns dos títulos que cabem numa cidade onde não parecem caber os seus habitantes. Mas pode uma cidade do futuro esquecer-se da habitação acessível, transportes eficazes, sombras e ciclovias?

Lisboa não é uma capital que muitos encarem como ciclável, não fosse esta a cidade das sete colinas. Ainda assim, dados mostram que três em cada quatro das suas ruas (75%) têm um declive inferior a 5%. Se as cidades do futuro apenas se erguem com meios de transporte mais sustentáveis, as bicicletas estão na fila da frente para conquistar mais espaço nas metrópoles. Henrique Salgueiro, 35 anos, é um ávido ciclista e destaca que a cidade de facto melhorou no que às ciclovias diz respeito.   

Vive em Lisboa há 17 anos, em Arroios há nove. Desde então, muito mudou no aspeto e dinâmica da cidade, em parte graças ao «boom do turismo». Se por um lado alavancou certos setores da economia, por outro veio acentuar a «crise da habitação e a gentrificação.» 

«Quando me mudei para Lisboa tinha esta ideia de que andar de bicicleta na cidade era coisa de malucos. Hoje em dia desloco-me quase diariamente de bicicleta para todo o lado. É um meio de transporte altamente flexível que nos dá uma liberdade enorme, benefícios para a saúde física e mental», explica. 

Henrique Salgueiro considera que a cidade melhorou no que às ciclovias diz respeito, mas há muito para mudar.

Destaca as ciclovias nas principais artérias da cidade (como a da Av. da República, Almirante Reis, Duque de Ávila, entre outras) que, «apesar de não serem perfeitas na sua execução, foram essenciais para o crescimento de deslocações em bicicleta e modos de transportes suaves (formas de deslocação sustentáveis e não motorizadas).» 

Quanto aos decisores políticos, considera que fazem pouco, «em parte porque existe também uma espécie de inércia cultural face à mudança por parte de muitos eleitores». E não deixa de mencionar os interesses económicos que pautam algumas decisões, como o polémico abate de jacarandás para a construção de um parque de estacionamento na Avenida 5 de Outubro apesar da enorme contestação popular. «Sinto que algumas mudanças requerem coragem e boa comunicação por parte dos decisores, pois nem sempre as melhores decisões para o futuro são as mais populares», diz. 

Considera a sua junta de freguesia como um exemplo, nomeadamente por iniciaram um projeto de arborização na rua onde mora. Ainda assim, em comparação com outras cidades europeias, considera que Lisboa tem um longo caminho a percorrer. «Podemos olhar para o exemplo de Paris, que nos últimos anos tem vindo a adotar políticas de redução do uso automóvel no centro da cidade, promoção do uso de modos suaves e pedonalização de ruas.» Refere ainda o novo plano do presidente da câmara de Nova York, Zohran Mamdani, para aumentar a área arborizada da cidade até 30%. 

Ao olhar para o futuro, gostaria de ver mais espaços verdes, árvores de sombra e ruas pedonais em Lisboa, «quer para promover atividades e convívio ao ar livre, quer para melhorar o ar e a temperatura.» 

As árvores que nos vão fazer sombra amanhã já deveriam ter sido plantadas ontem. 

Outro desejo seria ver uma rede ciclável de qualidade na cidade, uma vez que muitas destas faixas estão desconectadas ou muito mal ligadas. «Dou o exemplo das faixas que convergem na Baixa, a da Almirante Reis, Avenida da Liberdade, 24 de Julho e Infante Dom Henrique. Ciclovias importantíssimas, mas que, assim que chegam à Baixa, obrigam os seus utilizadores a ir para a estrada. Há uma enorme perda de potenciais ciclistas que não se sentem confortáveis em partilhar espaço com automóveis», conclui.

Leia a primeira parte desta Grande Reportagem: As cidades do futuro precisam de sombra e bancos de jardim. Para onde vai Lisboa?

Os dados como ponto de partida, nunca como desculpa 

Formado na área dos dados, Manuel Banza defende que nenhuma decisão urbana deveria ser tomada sem diagnóstico. Foi assim que o Assessor para a Mobilidade, Economia, Habitação, Participação Cívica e Dados Urbanos na Junta de Freguesia de Arroios conseguiu identificar as zonas de maior efeito de ilha de calor e, também, um dado que contraria a narrativa instalada sobre o trânsito: «Mais de 50% das casas de primeira habitação em Arroios, ou seja, as que podem pedir dístico de estacionamento, não o pedem.» 

Essa constatação orienta as prioridades: uma população envelhecida precisa de bancos para descansar entre percursos a pé, não necessariamente de mais lugares de estacionamento. O reordenamento do Forno do Tijolo, hoje um espaço de passagem entre Arroios e São Vicente, nasceu dessa leitura. Também o mobiliário urbano da freguesia passou a ser desenhado em sessões participativas: mais de duzentas pessoas inscreveram-se para construir os próprios bancos e canteiros. 

Isto mostra a sede que as pessoas têm de ocupar o espaço público. Temos de ocupar as ruas. 

 

Mercado do Forno do Tijolo, em Arroios. Créditos: Leonor Wicke

Outro inquérito online sobre estacionamento seguro para bicicletas recebeu mais de 150 respostas em pouco tempo, o que Banza aponta como prova de como a tecnologia acelerou este tipo de trabalho. «Hoje em dia é muito mais fácil analisarmos, criarmos inquéritos, trabalhar dados geoespaciais. O que estamos a ganhar com a tecnologia está a ajudar-nos muito», afirma. 

 

No mesmo Mercado do Forno do Tijolo onde Manuel Banza fala de árvores e de sombra, um armazém contíguo ao antigo Matadouro guarda outro tipo de futuro. Impressoras 3D que parecem vindas de outro tempo dividem espaço com réplicas de lioz, a pedra que reveste os prédios de Lisboa há séculos, tabuleiros de xadrez e fósseis. É o FabLab Lisboa, laboratório municipal de fabricação digital aberto ao público desde julho de 2013. Ao lado, desde janeiro de 2022, funciona o BioLab Lisboa, um laboratório de ciência cidadã criado em parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa e a Associação para a Investigação e Desenvolvimento de Ciências. 

À frente do FabLab está André Martins. Segundo o seu relato, a equipa «está a tentar cultivar uma dinâmica diferente», ligando a agricultura urbana a estudantes e a investigadores mais avançados na área da bioengenharia, um cruzamento que a vizinhança com o BioLab torna possível dentro do mesmo espaço. O laboratório oferece impressão 3D, corte a laser e fresagem CNC a qualquer cidadão que se inscreva, com a lógica de que quase tudo pode ser reproduzido ali dentro. 

Mas o FabLab não é só um parque de diversões para curiosos. André Martins é claro quanto ao critério que aplica: «se nos apresentarem um projeto diferenciador, fazemos colaboração com essa pessoa.» É essa porta aberta que já trouxe ao espaço, ao longo dos anos, pedidos que vão de apoios ortopédicos e outros dispositivos de baixo custo até protótipos para pequenos negócios locais, sempre com a mesma regra: quem chega com uma ideia sai com uma ferramenta para a testar. 

André Martins no FabLab. Créditos: Leonor Wicke

 

De quartel militar a distrito de inovação 

A cerca de vinte minutos dali, do outro lado da cidade, o Beato conta uma história parecida, mas em escala muito maior. O complexo nasceu em 1897 como Manutenção Militar, criada por decreto do rei D. Carlos para produzir e fornecer alimentação às Forças Armadas, com fábricas de moagem, pão, massa, bolacha, conservas, refinaria de açúcar e um matadouro. Desativado o essencial da atividade industrial, o município avançou em 2016 com o Hub Criativo do Beato, rebatizado em 2024 Beato Innovation District. 

José Mota Leal, diretor de projeto do espaço, resume o objetivo: transformar dezoito edifícios que produziam comida para as Forças Armadas num polo de startups, scaleups, grandes empresas tecnológicas e centros de investigação, «criando no fundamental uma comunidade de inovação». Dos dezoito edifícios que compõem o projeto, dez estão já em atividade, com cerca de 1.200 pessoas a trabalhar diariamente no espaço.  

Dá dois exemplos de projetos-piloto testados através do programa: a Usawa Care, que permite a qualquer residente aceder a um pediatra por telemóvel, evitando deslocações a um hospital a meio da noite, e a Equivalence, distinguida na categoria de integração de imigrantes, que traduz currículos de outros países para um formato que os empregadores em Portugal reconheçam. 

O critério de reabilitação, garante Mota Leal, privilegiou sempre a memória do lugar: «todos os edifícios que eram passíveis de ser reabilitados, foram reabilitados», e só um foi demolido, por não ser viável recuperá-lo. Em cada edifício ficou preservada uma parte da arqueologia industrial. Entre as empresas instaladas está o centro global de inovação da Sixt, a maior operadora de rent-a-car do mundo, a par de scaleups como a MicroHarvest, que transforma bactérias em proteína, ou nomes como a Escola 42 e a Claranet. 

O projeto atraiu também restauração e programação cultural, da Casa do Capitão à Praça e à Braurs, e eventos abertos à cidade. «Não queremos um centro de escritórios, queremos criar uma comunidade», resume Mota Leal, que reconhece que o Beato já teve impacto direto na região, visível no aumento dos pedidos de licenciamento para reabilitação e construção na zona envolvente. 

Questionado sobre os riscos de desigualdade que costumam acompanhar processos de regeneração urbana, nomeadamente a pressão sobre o imobiliário, Mota Leal não os ignora, mas remete a resposta para uma escala que ultrapassa o projeto: «a habitação é claramente um desafio de todas as cidades, não só Lisboa.»  

Horta no telhado de um dos edifícios do Beato Innovation District. Créditos: Carla Pires

Três eixos para uma cidade inteligente 

Se o Beato é um território físico, a Unicorn Factory Lisboa é a estrutura municipal que tenta dar escala a tudo isto. Gil Azevedo, o seu diretor executivo, resume o papel da entidade em três eixos: «apoiar empreendedores a desenvolverem as suas startups, servir de ponte entre soluções tecnológicas e os serviços da própria cidade, e levar capacidades de inovação e empreendedorismo às escolas, dos oito anos de idade até à universidade.» 

No segundo eixo, o de ligação entre startups e a cidade, Azevedo destaca o concurso Lisbon Innovation for All, lançado pela Câmara Municipal e pela Unicorn Factory Lisboa para encontrar soluções tecnológicas nas áreas da educação, da saúde e da integração de imigrantes.  

Para Azevedo, o maior travão à velocidade destas soluções não é a falta de coragem política, mas o tempo que os processos legais e de contratação pública exigem: «são processos que são mais demorados, porque têm que cumprir com todos os requisitos legais.» Acredita que a prioridade está definida, embora reconheça que raramente está sozinha na fila das agendas de quem tem de a executar. 

Questionado sobre se Lisboa é, de facto, uma smart city, Azevedo prefere olhar para exemplos concretos do quotidiano: saber em tempo real a que distância está o próximo autocarro da Carris, ou a micromobilidade das trotinetes como alternativa ao automóvel. É nesse tipo de conveniência, mais do que em conceitos abstratos, que situa o verdadeiro teste da inovação: «se for uma bolha afastada do dia a dia das pessoas», resume, «não vai ajudar.» 

Sobre o rótulo de smart city também Banza é crítico. «Lisboa ganhou a capital europeia da inovação. Que inovação é que conhecemos que Lisboa tenha dado, em termos de instituições públicas?», questiona. Prefere olhar para o rio Tejo, hoje pouco aproveitado, e recorda o exemplo de Copenhaga, que transformou um rio outrora mais poluído do que o Tejo em zonas de banho gratuitas para quem sai do trabalho. Cita ainda a Suíça, onde é possível descer o rio a caminho do escritório. 

Maria do Rosário Partidário também defende o melhor aproveitamento do rio enquanto estrutura biofísica, social ou económica. Invoca ainda a inovação da rede de infraestruturas e transportes que poderia resolver uma série de problemas e transformar Lisboa numa «cidade de duas margens»,  

Garante que os transportes públicos na cidade padecem de uma má gestão. A introdução de trotinetes e bicicletas de aluguer cria «um caos», seja nas estradas, seja nos passeios, onde ficam depositadas. «Enquanto o transporte coletivo não for competitivo com o transporte individual, não há transferência», garante, colocando ênfase na vontade política – ou falta dela. «Boa parte dos problemas da cidade têm que ver com vontade política. Quando as coisas não acontecem é porque não há prioridade», afirma. Resumidamente, não lhe restam dúvidas: Lisboa «tem muito potencial», mas ainda não é uma cidade do futuro. 

Gil Azevedo Créditos: Unicorn Factory Lisboa
José Mota Leal. Créditos: Unicorn Factory Lisboa

Faltam mãos, sobra burocracia 

Por trás de cada intervenção está um obstáculo menos visível: a contratação pública. Banza calcula em cerca de seis meses o tempo entre a abertura e o fecho de um concurso, e nota que os salários da função pública não são competitivos, nomeadamente para perfis como cientistas de dados. «Temos de continuar a jogar sempre com o vestir a camisola, das pessoas que querem mudar a sua freguesia. Mas há muita gente, e bem, que precisa de mais dinheiro para construir a sua vida», reconhece. 

O problema agrava-se com uma contradição que Banza considera absurda: mais de 20% da população de Arroios é estrangeira, com comunidades expressivas do Nepal e do Bangladesh, mas a lei de contratação pública reserva os lugares a portugueses, cidadãos da União Europeia ou dos PALOP. «Há aqui uma grande população em Arroios que nunca poderá trabalhar na função pública. A única forma que temos de os contratar é a recibos verdes, e nem todos querem essa instabilidade», lamenta. 

Mesmo com contrato, há quem continue a sentir essa instabilidade na pele. Ahmed Suleyman e Azadur Rahman são imigrantes do Bangladesh e trabalham em restauração, nas ruas mais turísticas de Lisboa. Um veio há dois anos, o outro há um. 

Repousam no Jardim Braancamp Freire, contíguo ao Campo dos Mártires da Pátria, no final de um dia de calor abrasador. Referem que o trabalho é duro e nem sempre conta com subsídio de férias e Natal, ainda que com contrato. Apesar de tudo, Lisboa recebeu-os bem, e os portugueses também. Gostam do clima, que é semelhante ao do Bangladesh. «Eu adoro a cultura portuguesa e estou a aprender português!», diz Azadur. Mas não deixam de lamentar que as regras da imigração em Portugal estejam a ficar mais rígidas de dia para dia. 

Ahmed Suleyman e Azadur Rahman, imigrantes do Bangladesh, repousam no Jardim Braancamp Freire. Créditos: Leonor Wicke

Vivem nos Anjos, dividindo um apartamento entre várias pessoas. A renda, comparada com outros países, é alta e reconhecem que o problema é transversal. A localidade recebeu-os e os vizinhos também. Consideram os espaços públicos bons e os vizinhos «muito amigáveis», que perguntam diariamente como estão.  

À volta deles, Lisboa vive uma contradição difícil de ignorar: uma cidade que precisa de trabalhadores para os serviços, para a restauração e também para os trabalhos públicos, mas onde a burocracia e as regras de imigração tornam mais demorado o acesso de quem chega para trabalhar. Enquanto uns esperam por respostas e outros tentam simplesmente encontrar um lugar onde possam viver, os guindastes multiplicam-se no horizonte e os prédios continuam a nascer, andar após andar, numa cidade que cresce depressa, mas nem sempre parece saber para quem está a construir. 

Manuel Banza elenca os principais desafios da capital: «A cidade está cada vez mais quente, a freguesia está cada vez menos habitável e mais cara. As pessoas estão a sair, e depois só vêm para cá aqueles com capacidade para viver nela.» E remata com o aviso que dá título a esta reportagem: «Isto tem um tempo. Se ultrapassarmos esse tempo, vai ser tarde, porque depois se calhar já não há aqui pessoas para usufruir dela.» 

 

Este trabalho dá seguimento à primeira parte da reportagem, para ler aqui: As cidades do futuro precisam de sombra e bancos de jardim. Para onde vai Lisboa?  

Este artigo foi publicado na edição nº 34 da revista Líder, cujo tema é ‘Depois do Amanhã’. Subscreva a Revista Líder aqui.

Leonor Wicke,
Jornalista e Coordenadora Editorial

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Marcelo M. Teixeira,
Jornalista

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