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Home Entrevistas Leadership Literacia em saúde: são precisas «estratégias e muita humanidade para mudar comportamentos»

Leadership

Literacia em saúde: são precisas «estratégias e muita humanidade para mudar comportamentos»

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31 Janeiro, 2025 | 11 minutos de leitura

A literacia em saúde não está apenas ligada ao acesso à informação, mas também à capacidade de utilizá-la de forma eficaz. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), «a literacia em saúde é um preditor mais forte do estado de saúde de um indivíduo do que o rendimento, situação de emprego, nível de educação e […]

A literacia em saúde não está apenas ligada ao acesso à informação, mas também à capacidade de utilizá-la de forma eficaz. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), «a literacia em saúde é um preditor mais forte do estado de saúde de um indivíduo do que o rendimento, situação de emprego, nível de educação e grupo racial ou étnico».  

Em Portugal os níveis estão aquém e estima-se que 50% da população tem baixa literacia, ou seja, metade da população não consegue obter, compreender, avaliar e aplicar informações relacionadas à saúde para tomar decisões informadas. Também num cenário global, quase metade dos europeus tem competências inadequadas ou problemáticas. 

Criada em 2022, a Sociedade Portuguesa de Literacia em Saúde (SPLS) procura influenciar e apoiar a mudança efetiva de comportamentos para estilos de vida mais saudáveis e gerar motivação para um melhor acesso, compreensão e uso dos recursos de saúde. Segue-se uma conversa com a presidente, Cristina Vaz de Almeida que partilha com a Líder a sua visão e linhas de ação da organização.  

 

Como descreve o conceito de Literacia em Saúde e qual a sua importância? 

A literacia faz bem à saúde, é a riqueza de uma nação e salva-vidas. O melhor nível de literacia em saúde permite alavancar as competências (conhecimentos, capacidades, atitudes e atributos) dos vários públicos para uma maior motivação que conduz ao acesso, compreensão, avaliação e uso dos recursos em saúde e a uma correta navegação no sistema, que visam decisões em saúde mais responsáveis, melhoradas, refletidas e acertadas, seja de indivíduos, grupos, de organizações, e do próprio sistema integrado de saúde, social, educação, cultural, político, e que promovem e melhorem os resultados em saúde e  bem-estar.  

A estratégia de investimento no maior nível de literacia em saúde dos vários públicos permite, através do desenvolvimento e reforço de competências humanizantes, relacionais e comunicacionais, influenciar, envolver, formar, apoiar e ativar os indivíduos, assim como os grupos, as organizações, comunidades para melhores cuidados, prevenção da doença e promoção da saúde.  

A literacia em saúde interessa a todos no ciclo de vida e, em particular, para além do cidadão, aos profissionais das várias áreas da saúde, social, educação, cultural e outros, como os média, decisores políticos, legisladores, dentro dos respetivos contextos sociais e ao longo do ciclo de vida. Ela operacionaliza-se através de investigação, ações, intervenções presenciais, digitais e outras, e utiliza as ferramentas e instrumentos de medida, sendo a base essencial das diversas literacias (financeira, cultural, científica, da informação e outras) porque é a base estruturante para as melhores vivências do indivíduo no reforço e procura da saúde e bem-estar integral. 

 

 

Que temáticas são prioritárias para Portugal no que diz respeito a Literacia em saúde? 

Em 2025, a SPLS apostará nas grandes temáticas que unem as doenças e a prevenção da doença e a promoção da saúde. Falamos de vasos comunicantes que são a atividade física, a alimentação, a saúde mental ao longo do ciclo de vida e em determinados contextos, que depois ampliam para outros campos, naturalmente. Seguimos sempre a matriz que une o acesso, a compreensão, a aplicação e o uso dos recursos associados às dimensões dos cuidados de saúde, prevenção da doença, fatores de risco e promoção da saúde e seus determinantes. 

Queremos trabalhar as questões da equidade e dos direitos humanos, porque sabemos que nem todos têm acesso a quantidades iguais de informação sobre a doença ou saúde. Para que a mudança resulte da forma mais positiva possível, é preciso garantir que a pessoa adquiriu conhecimento e sabe usar as oportunidades e os recursos para ser bem-sucedida na realização do comportamento desejado, independentemente da intenção.  

Neste sentido apostaremos no desenvolvimento das competências e, sobretudo, da capacitação dos profissionais de saúde, da educação, do social e da cultura que, de forma interdependente e interdisciplinar, contribuem eficazmente para a melhoria dos estilos de vida das pessoas, a sua envolvência com o seu autocuidado, qualidade de vida e de bem-estar. 

Faremos a ponte com a Europa e a nível internacional, envolvendo também os países de língua portuguesa (PALOPS), assim como os EUA, Canadá e Austrália, onde se desenvolvem projetos de literacia em saúde. É preciso promover uma abordagem participativa para a adoção de programas de saúde pública. Temos contribuído de forma efetiva para as políticas públicas. Continuaremos a organizar, coordenar e a implementar, por exemplo na Região Autónoma dos Açores, o Programa Regional de Literacia em Saúde, que muita satisfação nos tem dado. Continuaremos a investir nas estratégias de melhoria da literacia em saúde nas doenças oncológicas, onde já temos um bom caminho feito, e estaremos envolvidos em projetos europeus nestes domínios. 

 

Quais os objetivos e propósito na criação desta Sociedade? 

São precisas estratégias e muita humanidade para mudar comportamentos e conseguir uma melhor literacia em saúde. Vivemos tempos de grande mudança social, económica, cultural e política. Fazendo uma rotação do nosso olhar e entendimento sobre o mundo, vemos grandes desigualdades, muitos conflitos que começam dentro das casas das pessoas (a violência doméstica começa pelos familiares mais próximos), uma grande tensão sobre o trabalho, sobre a educação, sobre a diferença entre valores das gerações mais velhas e o desenvolvimento das gerações mais novas que traz desafios completamente diferentes. Tudo influencia o desenvolvimento da pessoa. 

Por outro lado, maravilhamo-nos com a ciência, com os avanços no tratamento das doenças, das descobertas do que faz bem ao corpo e à mente, onde se evidencia, por exemplo, a atividade física e a alimentação saudável, que têm impacto na saúde mental. 

 

De que forma está organizada a sua atuação? 

Desenvolvemos projetos relacionados com a investigação, formação, intervenções comunitárias, parcerias que fortalecem as comunidades e as pessoas, projetos inclusivos e ao longo do ciclo de vida, no âmbito da promoção da saúde, da prevenção da doença e dos cuidados, em cocriação com as populações-alvo e que visem políticas públicas mais fortes com a literacia em saúde. 

Queremos contribuir, através de um conjunto de estratégias, para a literacia em saúde individual, organizacional e pública, para uma melhor saúde e bem-estar das pessoas, no seu ciclo de vida, com artes, técnicas e comunicação. 

Para alcançar estes fins, fazemos uma abordagem integrada, inclusiva e multidisciplinar, promovendo e desenvolvendo competências e, por isso, conhecimento, capacidades e atributos, através da razão e da emoção, motivação, autoeficácia e das dinâmicas da aprendizagem acompanhada e ao longo do ciclo de vida. 

Queremos com isto produzir e assegurar mais proximidade e cooperação, para um mundo mais sustentável, com mais paz, mais consciência e com mais saúde em todas as políticas. 

Queremos criar, desenvolver, partilhar e fortalecer, através de parcerias multissetoriais e multiprofissionais, informação e conhecimento em saúde, dinâmicos e sempre atualizados, com o objetivo de influenciar, envolver, formar e apoiar os indivíduos, organizações, comunidades, profissionais em saúde, grupos, média, decisores políticos e outros. Tudo isto dentro dos respetivos contextos e ao longo do ciclo de vida, incentivando-os a melhorarem o acesso, compreensão e uso dos recursos em saúde e da correta navegação no sistema, que visam decisões melhoradas, refletidas e acertadas, seja de indivíduos, seja de grupos, que promovem e melhoram os resultados em saúde e bem-estar. 

  

Para que públicos se destinam as suas ações e quais os canais de comunicação?  

Debatemo-nos com a necessidade de estruturar estratégias e intervenções úteis aos indiferentes e inativos, aos que precisam de um apoio para mudar, e aos que já mudaram, e por isso, em todos, com maior ou menor dose, é importante criar, reforçar ou desenvolver as suas competências e a sua motivação, adequando ao contexto, perfil, ciclo de vida e outras variáveis sempre necessárias quando se fala de literacia em saúde. 

São precisas estratégias para mudar comportamentos relacionados com a saúde. Levar as pessoas à plena “ativação” de comportamentos, seja de forma individual ou em grupo, requer trabalhar com as ciências comportamentais, baseadas em modelos de mudança de comportamentos. 

Para ativar o público, é preciso entender como uma ideia ganha força e se difunde por uma população ou sistema social específico em que as pessoas, como parte de um sistema social, adotam uma nova ideia ou comportamento. Para mudar comportamentos, temos de ter em conta as atitudes, crenças ou outros determinantes individuais de uma pessoa que ditam a aceitação de um comportamento de saúde. As intenções comportamentais são influenciadas pela atitude sobre a probabilidade de o comportamento ter o resultado esperado e pela avaliação subjetiva dos riscos e benefícios desse resultado. 

Devemos considerar os comportamentos que são habituais, considerando o processo de tomada de decisão para aceitar uma ação recomendada (por exemplo, fumar). Para realizar com sucesso um comportamento, uma pessoa deve ter conhecimento e capacidade para o fazer, isto quer dizer que deve saber o que fazer e como fazê-lo e deve ter ao seu dispor a “oportunidade” o local, os recursos, o momento, as condições facilitadoras. 

 

A «checklist da SPLS» segue uma série de orientações práticas para profissionais de saúde e comunicadores. Existe uma interligação com outras organizações, no sentido de ‘normalização’ de regras de comunicação, em todo os intervenientes? 

Todos contam. Esta afirmação é, para mim, melhor do que a afirmação da OMS de “não deixar ninguém para trás”, pela razão que a própria afirmação pressupõe que deixamos intencionalmente, na saúde, alguém para trás. Acredito que o processo envolve muitos stakeholders, isto é, intervenientes que contam para a mudança e para o investimento na literacia em saúde. E, por isso, as intervenções devem ser mais interdependentes, mais multidimensionais, multifatoriais e interdisciplinares. Todos contam. 

Quando produzimos materiais, como as checklists de comunicação e outras, é precisamente para uniformizar procedimentos. Com procedimentos mais uniformizados todos ganham, pois, falamos todos uma mesma linguagem. As nossas ferramentas de comunicação são agentes facilitadores para os vários públicos que devem intervir em saúde. 

No processo de aprendizagem do indivíduo e da sua ativação que o leva a mudar comportamentos há um fator essencial que ocorre num contexto social, com uma interação dinâmica e recíproca da pessoa, ambiente e comportamento. A pessoa está integrada num sistema ecológico e social e biopsicossocial. Por isso, todas as intervenções devem ter em conta o contexto em que a pessoa está. 

O comportamento não é o resultado de um processo linear de tomada de decisão, e pode mudar ao longo do tempo. Assim, a pessoa pode ter momentos de ativação e de não ativação ao longo do seu percurso de vida, influenciada também pela opinião de públicos que considera como as suas “tribos”. 

  

Recentemente promoveram um debate sobre a ‘medicina de precisão’. Que conclusões se retiraram desse encontro? 

Este foi um evento de literacia em saúde para tornar mais robusto o conhecimento e a prática sobre esta temática, estendido aos estudantes de medicina, enfermagem e outros. Ainda é reduzido, em Portugal, o uso de biomarcadores. Os exames a estes biomarcadores permitem o acesso à medicina de precisão, o que envolve a consideração das características individuais dos doentes, como genética, perfil proteico, metabolismo e outros biomarcadores, para otimizar a eficácia do tratamento e minimizar os efeitos colaterais. 

O uso dos biomarcadores melhora a efetividade dos tratamentos, o que resulta também numa maior eficácia nos diagnósticos e uma poupança para os sistemas de saúde. Neste âmbito, o estudo desta área com maior conhecimento dos processos, uso e efeitos traz mais-valias incontornáveis a estudantes das áreas da saúde e a profissionais das várias áreas da saúde. Na realidade, sabemos que a medicina de precisão faz parte de um futuro incontornável. 

Rita Rugeroni Saldanha,
Diretora de Conteúdos

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