Quando ao final do dia saio do quartel general da Fábrica Branca, no topo da Duque de Loulé, e desço para o Marquês de Pombal vejo no que aquela zona se tornou ao longo dos anos, um estaleiro de humanidade esquecida. O sol desce, o frio aperta e, no cimento, começa o ritual, homens e mulheres, uns mais velhos outros mais novos, dobram cartões com o cuidado meticuloso de quem prepara uma cama num hotel de cinco estrelas, que por ironia está logo ali ao lado. É o som seco do cartão a ranger no chão. E nós?
Nós passamos. Olhamos para o relógio, ou para iPhone, para qualquer coordenada que não coincida com aquele retângulo de miséria.
Mas o que me fere o olhar não é apenas a pobreza e a miséria humana, sobretudo a maldade desenhada. Nas saliências das lojas de luxo, o urbanismo revelou a sua face mais perversa, espigões de metal atravessados no chão. É o chamado ‘design hostil’. O objetivo é claro, impedir que um corpo cansado repouse ali, para que a vitrine não perca o brilho.
Vejo nisto a Normalização do Desvio levada ao seu expoente máximo. Aceitámos que espetar metal no chão para expulsar um semelhante é uma ‘medida de segurança’ ou de ‘preservação de ativos’. Que erro de análise. Quando o ferro passa a ser mais importante que a carne, a nossa ‘gestão’ faliu.
Vejo isto todos os dias. À noite, ao descer em direção ao Marquês, o acampamento de papelão já está montado. De manhã, quando regresso ao serviço, eles ainda lá estão, numa luta muda, a sacudir a manta e a dignidade com a réstia de água que sobrou da noite.
O desvio sociológico já não é a existência da pobreza, essa é uma falha estrutural. O verdadeiro desvio é a nossa indiferença institucionalizada. É o «sempre foi assim» que nos está a corroer a cultura organizacional e a alma coletiva. Tornou-se ‘normal’ gerir cidades e empresas através da exclusão, em vez da integração.
Um dia destes, acordamos e a cidade é toda de metal frio, sem espaço para um abraço, quanto mais para um sono. E o Marquês? O Marquês continua lá no alto, impassível, a olhar para baixo, esperando para ver se alguém, no meio de tanta gestão e de tanto KPI, ainda se lembra de ser gente.

