A maioria das pessoas lê livros de psicologia porque quer arrumar a sua vida. No entanto, o leitor não é a maioria das pessoas. Na verdade, a sua vida pode estar um pouco demasiado arrumada. As pessoas que sofrem de perfeccionismo têm um autocontrolo que se tornou um pouco descontrolado. Acredite que o compreendo perfeitamente. […]
A maioria das pessoas lê livros de psicologia porque quer arrumar a sua vida. No entanto, o leitor não é a maioria das pessoas. Na verdade, a sua vida pode estar um pouco demasiado arrumada. As pessoas que sofrem de perfeccionismo têm um autocontrolo que se tornou um pouco descontrolado. Acredite que o compreendo perfeitamente. Estou no mesmo barco. Isto não é um livro censurador do autoaperfeiçoamento daqueles que lhe dizem que está a fazer as coisas mal — isso já o leitor faz sozinho. Ao invés, veja‑o como uma permissão. Permissão para descobrir como seria a sua vida quando se permite a respirar. Quando deixa de se esforçar tanto. Quando se concentra no que dá significado à vida, e não no seu desempenho pessoal. Ainda será perfeccionista, mas trabalhará para si, e não contra si. Oficialmente, chama‑se perfeccionismo adaptativo, mas na verdade significa apenas perfeccionismo que lhe traz mais proveito do que custos.
Para mim, baixar o volume da minha intensidade tem um efeito inaudito. Quando iniciei a escrita deste livro, comecei com um perfeccionismo típico: li uma pilha de livros e artigos, tão alta que podia ser medida em palmos. Assumi o compromisso pessoal de trabalhar com diligência para colocar em prática o que aprendera. Ou seja, abordei as minhas tendências de tipo A como um problema a superar, à semelhança de todos os outros obstáculos (e sim, vejo plenamente a ironia de me esforçar ao máximo para me descontrair). No passado, quando pretendia mudar algo na minha vida — começar um podcast, ganhar forma física, passar de um centro de investigação para a escrita — podia fazê‑lo sistematicamente: estabelecia um objetivo, lançava mãos à obra e dava a tarefa por concluída.
Desta feita, contudo, não havia itens para riscar da lista. O problema não era riscar itens. Em vez de forçar as coisas, tinha de as deixar desenrolar‑se. Em vez de trabalhar para um objetivo, tinha de me concentrar em aspetos que desafiavam a definição de objetivos — como valores, prazer e comunidade. Ao invés de tentar fazer tudo sozinha, tinha de ser vulnerável perante os outros. Em vez de seguir as minhas próprias regras, tinha de ser mais flexível. Tinha de mostrar o meu processo ao mundo, repleto de contratempos e inconvenientes, e não apenas a resposta correta destacada no final.
O meu esforço interior e consciente foi‑me útil para algumas mudanças. Dou prioridade ao sono e ao exercício, pelo que já não me alimento de fumo e cafeína. Lembro‑me de falar aos amigos dos meus fracassos e sucessos. E sim, ainda tenho uma lista de afazeres, mas já sem uma ordem cronológica pesadíssima, e olho para o que alcancei, em vez de me concentrar tristemente no que ficou por fazer.
Também abdiquei de muito do esforço exagerado que não estava a funcionar. Tentei abandonar as minhas previsões do pior cenário possível. Quando os meus filhos abusam do tempo em frente aos ecrãs ou do açúcar, já não fico preocupada com a possibilidade de isso lhes perturbar o crescimento e comecei a manter presente que são crianças. Por vezes ainda fico assoberbada, mas sou muito mais benevolente comigo mesma quando dou por mim a ouvir o podcast My Favorite Murder quando devia estar a trabalhar. Confio aos colegas tarefas delegadas e de colaboração, e pergunto‑me porque não o fiz todos estes anos. Estou a aprender a tolerar críticas e a manter‑me atenta àquilo com que posso concordar, em vez de apenas defender o meu ego ferido. Procurei um «psicólogo de psicólogos» e permiti finalmente que tomassem conta de mim, em vez de ser a única a tomar conta dos outros.
Em suma, estou a aprender a descansar. A pedir ajuda. A ser genuína, em vez de impressionante. A fazer coisas por divertimento, e não para aperfeiçoamento. A não me censurar tanto. A rir de mim mesma. A mostrar mais da confusão.
Em vez de puxar a minha corda com mais força, estou a aprender a soltá‑la.
Enquanto alguém que valoriza a privacidade, acho inacreditável que agora ganhe a vida a escrever sobre as minhas inseguranças. Por vezes, quando penso nisso, sinto um aperto no estômago. Tenho uma noção inescapável de que os meus problemas são impróprios e vão afastar as pessoas. Depois, quando olho à volta e vejo o que aconteceu de facto, apercebo‑me de que partilhar as minhas fraquezas com os amigos e leitores me fez sentir mais ligada e aceite pelas muitas, muitas pessoas que sentem exatamente o mesmo — ligações que não teria de forma alguma estabelecido se tivesse continuado a esconder o que considerava errado.

Este artigo consiste num excerto adaptado do livro Como ser bom o suficiente (Nascente, 2025), de Ellen Hendriksen, publicado com o consentimento da autora.


