A RTP2 está a passar uma recomendável versão de A Volta ao Mundo em 80 Dias. A certa altura, Phileas Fogg, o personagem principal, amadurecido pelas peripécias da viagem, explica que já não via o mundo a preto e branco, como costumava fazer a partir do seu clube em Londres. Também aqui é fácil, no […]
A RTP2 está a passar uma recomendável versão de A Volta ao Mundo em 80 Dias. A certa altura, Phileas Fogg, o personagem principal, amadurecido pelas peripécias da viagem, explica que já não via o mundo a preto e branco, como costumava fazer a partir do seu clube em Londres. Também aqui é fácil, no nosso sofá, vermos o mundo a preto e branco. Mas o mundo está cheio de cinzentos.
Por cá não faltam visões a preto e branco. Eu confesso que não consigo tomar partido. Por um lado, empatizo com o lado árabe. Tenho grande interesse e admiração pela cultura árabe e tenho empatia – é fácil –pelo povo da Palestina. Mas não consigo deixar de também admirar a resiliência e a tenacidade da sociedade israelita. Não me é possível tomar partido como se de um duelo futebolístico se tratasse, embora no caso do ataque de sábado a barbaridade do Hamas não suscite qualquer dúvida.
Este “empate” entre as razões de cada lado tem uma única resolução: o reconhecimento da existência de duas nações. A provocação do Hamas e a resposta de Israel não devem fazer-nos perder de vista que a única saída para este conflito passa por esta aceitação e pelo desejo de que um dia a região tenha várias genuínas democracias e não apenas uma, a israelita, e mesmo essa cada vez mais ameaçada. Como essa via democrática não é do interesse do Hamas nem do Irão, e o apoio a uma nação palestiniana viável também não está na agenda de Netanyahu, estamos condenados a assistir a uma sucessão de tragédias sem fim. Tristemente, concluímos, nós humanos pouco ou nada aprendemos: homo homini lupus. Mas neste momento trágico, não devem restar dúvidas morais: defender a barbárie é uma barbaridade.
PS1. Andamos muito preocupados – e bem – com a emergência da extrema-direita. Mas eis o pensamento da nossa esquerda mais à esquerda: a Rússia invadiu a Ucrânia? Culpa da NATO. O Hamas massacrou inocentes israelitas? A culpa é de Israel. Neste estranho mundo as vítimas são culpados e os culpados são vítimas. Mas em Portugal não há, dizem, pensamento extremista à esquerda. Um mistério da política nacional…
PS2. Os sinais de anti-semitismo que por aí andam são muito perturbadores. Seria esclarecedor saber quem vandalizou a sinagoga do Porto.
PS3. A atribuição do Nobel da Paz a Narges Mohammadi é outra face desta luta. Um dia as mulheres do Irão viverão em liberdade.
